segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Vencedores do SAG Awards 2011


Foram divulgados os vencedores do Screen Actors Guild Awards (SAG), premiação realizada pelo sindicato americano de atores. Os vencedores dessa premiação quase sempre são os mesmos do Oscar, já que grande parte dos membros votantes são os mesmos. Confira os vencedores:


Melhor elenco: O discurso do rei.

Melhor ator: Colin Firth, O discurso do rei

Melhor atriz: Natalie Portman, Cisne negro

Melhor ator coadjuvante: Christian Bale, O vencedor

Melhor atriz coadjuvante: Melissa Leo, O vencedor

Melhor elenco em série dramática: Boardwalk Empire.

Melhor ator em série dramática: Steve Buscemi, Boardwalk Empire.

Melhor atriz em série dramática: Julianna Margulies, The Good wife.

Melhor elenco em série de comédia: Modern Family.

Melhor ator em série de comédia: Alec Baldwin, 30 Rock.

Melhor atriz em série de comédia: Betty White, Hot in Cleveland

Melhor ator em minissérie ou filme feito para TV: Al Pacino, You don’t know Jack.

Melhor atriz em minissérie ou filme feito para TV: Claire Danes, Temple Grandin.

Melhor elenco de dublês, cinema: A origem

Melhor elenco de dublês, TV: True blood.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Vídeo de Terror: Suicide Mouse

Quando se fala em vídeos de terror a primeira coisa que imaginamos é que em determinado momento vai surgir um monstro com um grito muito alto. Isso já é comum, e está longe de assustar como esse vídeo.

“Suicide Mouse” teria sido encontrado por acaso nos arquivos da Disney, e nunca foi lançado oficialmente. Nele aparece o Mickey Mouse, personagem mais famoso das indústrias de Walt Disney, andando cabisbaixo, com uma expressão depressiva, passando por prédios, enquanto toca uma música sinistra. Não se sabe como ou devido a quem este vídeo teria vazado de dentro dos arquivos da Disney, mas não há dúvida de que ele foi feito com o objetivo de botar medo nas pessoas.

Dizem que Walt Disney sofria de depressão, e que carregava uma grande culpa por se sentir responsável pela morte da mãe. Isso teria inclusive contribuído para que ele tirasse a figura materna da maioria dos seus filmes. Esse vídeo teria sido feito por ele em sua fase mais depressiva.

Em determinado momento o som fica chiado, e depois a tela fica toda preta. Quando a imagem volta o som muda pra choros e gritos. O vídeo começa a ficar distorcido. São ouvidas vozes e parece ter coisas passando atrás da imagem. Em todo momento o vídeo causa desconforto em que assiste, devido aos sons e imagens distorcidas. A repetição de cenas cansa a mente. O desconforto leva muitas pessoas a desistirem de ver o vídeo antes do final.

Diz à lenda que duas pessoas estavam assistindo o vídeo, mas uma não aguentou e saiu, deixando um rapaz para fazer anotações. O rapaz que assistiu ao vídeo até o final sozinho teria saído da sala, dito sete vezes O verdadeiro sofrimento não é conhecido, então ele teria tirado a arma de um segurança e se matado.

No final aparece uma frase em russo que diz: As visões do inferno conduzem os telespectadores para ele”.

Está ai o vídeo. E você caro leitor? Acredita ser realmente uma obra de Walt Disney? Seria um vídeo fake? Independente de quem foi o criador, se o objetivo era botar medo em quem assiste então o objetivo foi alcançado. Assista por sua conta e risco, e se for corajoso, veja à noite e sozinho (e não vale passar o vídeo pra frente e não assistir inteiro). Boa sorte!




quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Concerto


A carreira do cineasta Radu Mihaileanu é consideravelmente discreta, porém, mesmo com poucos trabalhos no currículo, já consegue criar sua identidade artística, fortemente ligada à sua história pessoal, formando um tipo de cinema profundamente autoral, embora não pareça a uma primeira análise. Nascido na Romênia, celeiro de culturas na Europa, e filho de um judeu comunista, Mihaileanu fugiu para a França no começo dos anos 80 devido à ditadura de Ceausescu que se instaurou em seu país natal. Na França, acabou tendo sua entrada no cinema como editor e, posteriormente, assistente de direção de Marco Ferreri. Uma entrada bem respeitável.

Tal qual sua vida induz, seus filmes estão repletos de referências, diretas e indiretas, a elementos tais quais socialismo, anti-semitismo e exílio, conferindo a eles um ar profundamente político. Em Trem da Vida temos judeus se passando por nazistas para poderem sobreviver. Em Um Herói do Nosso Tempo, judeus etíopes protagonizando um êxodo na década de 80 em busca de esperança na terra prometida de Israel. E em O Concerto, temos um maestro que monta uma orquestra às pressas para se passar pela orquestra de Bolshoi numa apresentação em Paris. "Mas o que isso tem a ver com a obra do Mihaileanu?" você pode se perguntar. "Cadê o fundo político?". Pois bem, embora oculto na sinopse, ele está bem ali, totalmente presente.

O Concerto possui um enredo base já bastante explorado. Um ex-ídolo que foi derrubado de seu trono e agora vê uma possibilidade de retorno. Ou então mais até, um homem que amava sua profissão acima de tudo, mas que por motivos adversos foi rebaixado para faxineiro. Só para citar um exemplo, bastante semelhante ao enredo básico de A Última Gargalhada. Filipov foi maestro do Bolshoi só que, devido a alguns problemas políticos de ordem semita (lado político de Mihaileanu se mostrando presente), acabou sendo tirado de sua profissão e passado ao cargo de faxineiro do teatro. 30 anos depois, surge a oportunidade, por meio de um fax que ele intercepta, de reunir novamente sua antiga orquestra em uma apresentação em Paris, fazendo passar pela verdadeira orquestra Bolshoi.

Começa aí uma comédia, bem aos moldes europeus (que são bastante diferentes do americano, vale ressaltar (e em europeu, não incluo inglês)) que guarda semelhanças na narrativa e no gênero com trabalhos como Soul Kitchen de Fatih Akin e Amanhã Nós Mudamos de Chantal Akerman. Uma comédia montada sobre a bizarrice dos músicos que vão sendo contratados. O riso vêm da surpresa, e somos surpreendidos pela quebra de nossos padrões pré-formados de o que esperar de um músico. Rimos de quão tolos somos. Rimos exatamente por sermos tolos. E Mihaileanu ri de nós por conta disso.

Não apenas com o humor ele brinca, mas também com os clichês que estão intrísecos no espectador. Embora o enredo principal flue com certa dose de previsibilidade, é nas tramas paralelas que esse jogo de clichês se constrói, sobretudo quando se põe em xeque a questão da paternidade de Anne-Marie Jacquet, a ilustre solista convidada para integrar a orquestra. Mihaileanu induz o público a tomar uma conclusão precipitada tendo como base meramente os clichês a que está acostumado. Tanto que em nenhum momento há argumentos verdadeiros que comprovem essa falsa interpretação a que somos induzidos. Um trabalho bastante interessante, onde nos vemos sendo manipulados.

Como não poderia deixar de ser, tudo conduz para o ato final, onde finalmente nos vemos diante da apresentação, um tanto semelhante à de O Segredo de Beethoven, da Agniezka Holland. Por meio de um tipo de montagem paralela (elemento não presente no filme de Holland), mas distinta da que estamos acostumados, vemos a apresentação juntamente do passado das personagens. Um momento no qual as lágrimas insistem em cair, embora talvez menos devido a Mihaileanu e mais devido a Tchaikovsky em si.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Indicados ao Oscar 2011


Foi divulgada nessa terça a lista dos Filmes indicados ao oscar 2011. Os recordistas de indicações são O Discurso do Rei (12) e Bravura Indômita (10). Confira a lista completa:


MELHOR FILME

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma


MELHOR ATOR

Javier Bardem (Biutiful)
Jeff bridges (Bravura Indômita)
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
Colin Firth (O Discurso do Rei
James Franco (127 Horas)


MELHOR ATRIZ

Nicole Kidman (Reencontrando a Felicidade)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Jennifer Lawrence (Inverno da Alma)
Annete Benning (Minhas Mães e Meu Pai)
Michelle Williams (Blue Valentine)


MELHOR DIRETOR

Darren Aronofsky (Cisne Negro)
David Fincher (A Rede Social)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
Joel and Ethan Coen (Bravura Indômita)
David O. Russell (O Vencedor)


MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christian Bale (O Vencedor)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)
Mark Ruffalo (Minhas Mães e Meu Pai)
Jeremy Renner (Atração Perigosa)
John Hawkes (Inverno da Alma)


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Melissa Leo (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)
Amy Adams (O Vencedor)
Jacki Weaver (Reino Animal)


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei
Another Year
O Vencedor


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

127 Horas
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma
A Rede Social


MELHOR ANMAÇÃO

Como Treinar Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3


MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita


MELHOR FIGURINO

Alice no País das Maravilhas
Io sono l’amore
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita


MELHOR FOTOGRAFIA

Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita


MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Biutiful (México)
Dogtooth (Grécia)
Em um Mundo Melhor (Dinamarca)
Incendies (Canadá)
Outside the Law (Hors-la-loi) (Argélia)


MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Como Treinar seu Dragão
A Origem
O Discurso do Rei
127 Horas
A Rede Social


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“Coming Home” de Country Strong
“I See the Light” de Enrolados
“If I Rise” de 127 Hours
“We Belong Together” de Toy Story 3


MELHOR MAQUIAGEM

Minha Versão do Amor
The Way Back
O Lobisomem


MELHOR MONTAGEM

127 Horas
Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
A Rede Social


MELHOR EFEITOS VISUAIS

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2


MELHOR EDIÇÃO DE SOM

A Origem
Toy Story 3
Tron: o Legado
Bravura Indômita
Incontrolável


MELHOR MIXAGEM DE SOM

A Origem
O Discurso do Rei
Salt
A Rede Social
Bravura Indômita


MELHOR DOCUMENTÁRIO

Exit through the Gift Shop
Gasland
Trabalho Interno
Restrepo
Lixo Extraordinário


MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM

Killing in the Name
Poster Girl
Strangers No More
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang


MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

Day & Night
The Gruffalo
Let’s Pollute
The Lost Thing
Madagascar carnet de voyage (Madagascar, a Journey Diary)


MELHOR CURTA-METRAGEM

The Confession
The Crush
God of Love
Na Wewe
Wish 143

Os Vencedores da Primeira Parte do 2º Prêmio O Mundo dos Cinéfilos

O II Prêmio O Mundo dos Cinéfilos surge com algumas novidades, como o fato de que agora a premiação se divide em duas partes, com uma cobrindo as estréias nacionais do ano, e outra cobrindo as estréias mundiais, o que acaba acarretando fatos curiosos como os de um mesmo filme vencendo dois prêmios na mesma categoria, um em cada ano, ou até mesmo no mesmo ano. Algo que poderia ser resolvido colocando os vencedores em uma premiação como inelegíveis para a outra, mas que deixamos para dar um pouco mais de graça. A lista dos indicados você confere aqui. A lista dos vencedores você confere abaixo.

Melhor Filme: Toy Story 3

Melhor Direção: Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror

Melhor Ator: Jeff Bridges por Coração Louco

Melhor Atriz: Carey Mulligan por Educação

Melhor Ator Coadjuvante: Mark Ruffallo por Minhas Mães e Meu Pai

Melhor Atriz Coadjuvante: Anna Kendrick por Amor sem Escalas

Melhor Filme Nacional: Tropa de Elite 2

Melhor Roteiro Original: A Origem

Melhor Roteiro Adaptado: A Rede Social

Melhor Fotografia: A Fita Branca

Melhor Montagem: A Origem

Melhor Direção de Arte: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (repete o prêmio que havia ganho no ano anterior)

Melhor Figurino: A Jovem Rainha Vitória

Melhor Maquiagem: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (repete o prêmio que havia ganho no ano anterior)

Melhor Trilha Sonora: Toy Story 3

Melhor Canção: "We Belong Together" de Toy Story 3

Melhor Som: A Origem

Melhores Efeitos Visuais: A Origem

Melhor Animação: Toy Story 3

Melhor Elenco: Amor sem Escalas

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Carlos


Contam que, originalmente, Carlos deveria ser um telefilme de 90 minutos contando os fatos referentes à prisão do líder revolucionário comunista Ilich Ramírez Sánchez no Sudão em 1994. Porém, logo quando Olivier Assayas aceitou assumir a direção de tal obra e iniciou o trabalho de pesquisa para elaboração do roteiro, ele percebeu que havia muito mais a ser explorado sobre aquele indivíduo, sua visão de sociedade e o mundo onde viveu do que poderia ser apresentado em tão pouco tempo. A conclusão foi que de um telefilme de 90 minutos, Carlos se transformou em uma minissérie de 3 capítulos, totalizando assim 330 minutos.

Logo na abertura de cada episódio (ou parte, como preferir), vêm uma advertência dizendo que o filme deve ser visto como uma obra ficcional, devido a "controversas zonas cinzentas na vida de Carlos", além de deixar claro que as relações de Carlos com as demais personagens são totalmente fictícias. A função disso pode ser vista como, além de anular qualquer problema judicial que Assayas poderia ter, dar uma maior liberdade de expressão para o diretor, permitindo que esse monte a efígie de tal personagem de uma maneira autoral, se soltando das rédeas impostas por uma biografia. Liberdade da qual Assayas se utiliza para construir uma imagem quase que heróica, embora absolutamente humana, de uma figura intitulada pela mídia de "terrorista". Na realidade, o único momento em que a obra induz que Carlos seja um terrorista é nas referidas frases de advertência que antecedem cada episódio. Durante todo o tempo, o que vemos é um homem lutando pelos seus ideais de igualdade social, provavelmente a imagem pessoal que Assayas construiu ao pesquisar a vida desse indivíduo.

A elaboração de um épico sempre é um trabalho extremamente delicado, seja por conta das dificuldades técnicas em se realizar uma obra de proporções tão superlativas, seja pela questão de exigir um roteiro que consiga segurar várias horas sem se tornar cansativo ou repetitivo. E o roteiro, assinado por Olivier Assayas e Dan Franck é, sem dúvidas, o ponto mais forte do filme.

Um roteiro que, de maneira brilhante, consegue reunir inserir quantidades absurdas de informações em um mero diálogo sem, em nenhum momento, soar didático. Um roteiro que consegue, mesclando momentos usuais da vida das personagens com cenas intensas de ação. fazer cinco horas e meia passarem mais rapidamente do que muitos filmes fazem com apenas uma hora e meia. E mesmo quando nos aproximamos do fim e as cenas mais intensas começam a rarear, a relação construída entre espectador e personagem é tão forte que não se sente mais falta delas.

Outro grande acerto do filme foi a escolha de seu ator principal. Assayas declarou que precisava de um ator que tivesse "o carisma e os ombros para carregar esse tipo de fillme" e acabou encontrando no venezuelano, tal qual o personagem a ser retratado, Édgar Ramírez a figura perfeita. Ramírez que havia feito papéis menores em filmes como O Ultimato Bourne e Che, ergue aqui uma interpretação memorável, onde ele não apenas modifica seu próprio corpo várias vezes para interpretar as diversas fases do líder revolucionário, como também demonstra possuir um certa fluência em vários idiomas.

E essa questão dos idiomas é algo bem destacável aqui. Um filme francês, feito em parceria com a Alemanha, filmado na Áustria, França, Alemanha, Hungria, Líbano e Marrocos, com passagens que seriam ambientadas na Rússia, Iêmen, Líbia, Argélia, Eslovênia, Síria e Itália, falado em inglês e com alguns diálogos em francês, espanhol, húngaro, italiano, árabe, alemão, russo e japonês. Algo bastante raro de ver em um mercado onde os filmes tendem a ignorar os diversidade cultural de onde se situa e assumir um único idioma, para facilitar a compreensão de um público de nacionalidade específica.

Carlos é a comunhão entre thriller geopolítico (tal qual Syriana ou (quase) qualquer outro filme protagonizado por George Clooney) e saga de anscenção e queda de um gângster (tal qual nos filmes de Martin Scorsese e/ou Robert de Niro). E o que poderia vir a ser um problema devido ao seu lado saga-de-um-personagem-só, acaba não ocorrendo. Os coadjuvantes, que na mão de pessoas menos talentosas poderiam se tornar apenas uma base para os movimentos do verdadeiro protagonistas, são elevados aqui a um patamar de maior respeito, embora sempre vivam à sombra daquele que é o verdadeiro objeto do filme. São figuras no mínimo bidimensionais, dotadas de personalidades complexas o bastante para evitar a alcunha de "o-carinha-que-faz-isso-ou-aquilo", embora apenas tenham a chance de brilhar quando acompanhadas de Carlos.

Uma coisa que particularmente me atraiu no filme, e isso de uma perspectiva um tanto quanto subjetiva, é a situação em que as personagens se viram inseridas quando do final dos anos 80. Revolucionários socialistas que passaram toda a vida em meio à Guerra Fria, onde tinham seu lar e abrigo ideológico, mas que de uma hora para a outra vêem tudo ir por água a baixo com o triunfo do capitalismo. Talvez as pessoas mais afetadas pelo surgimento da Nova Ordem Mundial. Uma realidade explorada em Carlos, mas que (creio eu), ainda precisa de alguma obra que o explore de forma definitiva.

Assayas que sempre foi um diretor mais voltados aos dramas internos, faz em Carlos seu primeiro trabalho mais grandioso. Um renascimento artístico de um diretor já consagrado, levando-o a patamares ainda mais elevados? Isso apenas dirá o tempo, e principalmente, os seus próximos trabalhos, nos dirá. Mas, levando em conta, entre outras coisas, a aclamação de Carlos como o melhor filme do ano segundo os críticos da revista Film Comment, ouso dizer que sim.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Casa do Lago - Tempo?



Casa do Lago


Você conseguiria esperar o amor da sua vida, apesar da enorme distância? Este é o tema do filme a Casa do Lago, roteiro baseado no filme asiático Siworae de 2000. A casa do Lago é outro filme romântico entre muitos do cinema, percebe-se a velha história do casal que devido à distância, não pode se unir logo, e somente com envios de cartas eles sentem-se próximos, completos, confortados e apaixonados um por outro.


Keanus Reeves e Sandra Bullock


Porém, este filme tem algo diferencial, a distância dita, não é de um país para outro, ou estado, ou cidade. É o tempo que separa esse casal da união perfeita. Um enredo totalmente louco que poderia ter sido feito somente por asiáticos. E somente, um diretor não nascido nos Estados Unidos para transportar tal ideia para os cinemas americanos.


O filme não se compara nem um pouco com o original. Apresenta falhas, péssima direção, cenas fracas e mal-feitas, interpretações que poderiam ter sido melhores, falas que poderiam ser mais profundas, fotografia ruim. Enfim, o filme era para ser uma grande decepção. Contudo, o roteiro coreano e a linda casa no lago salva a fita de Alejandro Agresti, que com certeza confiou em tais pontos para realizar uma direção tão mal feita.


Cena do filme Siworae


Alejandro poderia ter inovado, ter feito uma obra digna de um roteiro surpreendente. No entanto, não conseguiu. E o único feito a deixar foi das cenas e falas que imaginamos que poderiam ter sido feitas.


Claro, há cenas que se salvam como da explicação da arquitetura da casa no Lago e da pequena paciente conversandocom a personagem de Sandra Bullock. Partes que respectivamente deixam a refletir, sobre questões familiares e a espera. Você pode muito bem saber construir casas, porém lares não. Você pode simplesmente esperar o seu amor. Mas você pode perder uma parcela da sua vida. São cenas boas que nos fazem pensar em único fato: TEMPO. Como saber administrar o tempo ao nosso favor?


Sandra Bullock interpreta Dra. Kate Forster

Será que conseguimos esperar por muito tempo um amor? Será que a distância acaba com os afetos? Será que deixamos de viver esperando o amor? Ok. Creio que tais perguntas são subjetivas. Cabe a você, responde-las. Só não esqueça. Não tente entender o passado, ou prever futuro. Viva o presente. Pois ele sempre será o que será.


Enfim, a produção é uma boa pedida para os fins de noite sozinho em um sofá, onde a tristeza reflete no olhar . Contudo, se for um cinéfilo que faz analise técnicas profundas, talvez seja melhor outra opção, pois o único ponto positivo do filme é o roteiro asiático que nos faz emocionar. Só o roteiro, porque as interpretações e o restante deixam a desejar.


Uma das cenas engraçadas presente no filme




" - Mas se não tomar cuidado, pode passar a vida toda esperando. "



"- Papai sabia construir uma casa, não um lar"

Triângulo do Medo: Teoria



Os escritos a seguir NÃO são aconselháveis para quem não tenha assistido ao filme.

A intenção será especular uma teoria acerca da significação do filme, uma busca pelo “sentido”. Contudo, assim como é preciso deixar a física e o realismo de lado quando se assiste a um filme de fantasia, ou mesmo uma comédia romântica, aqui também se faz necessário em certos aspectos. É preciso abraçar a idéia. Afinal de contas, pressupõe-se um campo mitológico, onírico e irreal, não perdendo, todavia, uma lógica de entendimento, que discorrerei a seguir. Sempre bom lembrar que essa é uma opinião autoral, e ainda mais se tratando de um filme cuja explicação é extremamente subjetiva, não espero que concorde com minha visão. Mas caso tenha sua própria teoria ou ache furos (que certamente deve possuir) na minha, sinta-se a vontade para comentar.

De antemão, aviso que não é um filme fácil, principalmente se você tiver preguiça de pensar. Trata-se de um filme instigante, daqueles que requerem persistência, análises minuciosas e, sobretudo, muita atenção. Não por acaso, os acontecimentos acontecem; há uma lógica por traz deles. Christopher Smith, diretor que desde já é uma promessa, convida-nos a desvendar as pistas deliberadamente apresentadas. Não que não se possa apreciar o filme sem um entendimento mais aprofundado; é justamente o contrário: é lindo ver os detalhes que o cineasta constrói; as referências, os belos travellings entrecruzando os corredores, por vezes de costas, por vezes de frente, perambulando feito um rato em um labirinto, tal qual o labirinto mental de transtornos no qual a personagem principal, Jess, encontra-se imersa, e, acima de tudo, a sublime forma com que ele refilma seu próprio filme por diferentes ângulos e enquadramentos.

O título “triângulo” refere-se ao famigerado triângulo das bermudas e as lendas em torno dele. Existe a suposição de que as leis da física não se aplicam ao triângulo, tendo-se em vista os diversos eventos anormais que acontecem naquela região, como o não funcionamento de uma bússola, além do sumiço de embarcações e aviões. É desse contexto que o filme se vale, visto que em alto-mar – no triângulo – estranhos eventos acontecem: sumiço repentino do vento; tempestades elétricas e, por fim, o aparecimento de um novo navio, uma espécie de navio-fantasma, em cujo interior transcorrem os maiores devaneios da trama. Uma vez que as leis da física não são plenamente respeitadas, minha teoria parte do princípio de que ali, em algum momento, houve uma distorção do tempo, um dobramento sobre si mesmo. Assim, o passado poderia se encontrar com o futuro (passado e futuro relativos, obviamente), o que explica as desventuras de Jess.

Não se trata, contudo, de uma sobreposição circular; mas de um helicóide, de modo que os acontecimentos se repetem, mas ainda assim se movimentam no tempo. Ora, nota-se a multiplicação da matéria: os pássaros, os amuletos, os bilhetes e as próprias pessoas. Isso só seria possível se houvesse uma progressão linear (como o movimento retilíneo de um helicóide), repetindo, ao mesmo tempo, a trajetória dos acontecimentos (como o movimento circular uniforme de um helicóide). Classificá-lo meramente como ciclo é deveras reducionista.

Diferentemente do tempo, as referências ao “O Iluminado”, do Stanley Kubrick, são uma constante no filme. O navio fantasma é o próprio hotel. Há nele inúmeras referências: os corredores, o quarto de número 237, o espelho, o machado, o fato de estar vazio, o fato de nele a personagem principal querer matar todos. Tantas referências não poderiam ser em vão. Penso que essa seja, talvez, a pista mais importante do filme, que sugere a insanidade adquirida pela personagem. Isso explica o que teria acontecido com a primeira Jess (até seu nome soa parecido com Jack do Iluminado, não?).

Após enlouquecer e matar todos, de alguma forma, por meio da distorção helicoidal do tempo supracitada, essa primeira Jess encontrou-se consigo mesmo no passado. Ao ver que ela mesma, no passado, não era tão boazinha com seu filho quanto se supunha, acaba por se assassinar. Vê-se aqui, pela forma que tratava seu filho e pela forma a sangue-frio que matou seu eu-do-passado, o temperamento forte dela e o que ela é capaz de fazer. Gerou-se, assim, um paradoxo: como ela pode ter voltado no passado e matado a si mesma se para voltar ela teria que primeiro ter ido, e se ela morreu, não pode ter ido e jamais voltado para se matar. Essa é a explicação que fez os fenômenos helicoidais de viagem no tempo tornarem-se cíclicos, em uma nova realidade ciclo-helicoidal, em outras palavras, uma espécie de inferno eterno.

É importante ressaltar que esse ciclo não acontece apenas no navio, envolve desde a embarcação no barco com os “amigos” até quando ela volta e opta por re-embarcar no barco. Essa é a trajetória do ciclo. O mistério é: o que motiva Jess a retornar ao barco, e por conseqüência, ao ciclo, após ter voltado para casa? A explicação encontra-se em uma das cenas finais, em que Jess – por culpa do destino em sua sádica vontade divina, talvez – sofre um acidente de carro, no qual seu filho morre. Assim, movida por culpa e remorso ( eu não diria amor), decide retornar ao ciclo propositalmente para que possa rever seu filho novamente. Daí Jess desculpar-se com o marinheiro, abraçando-o e pedindo perdão. Ele diz que não há o que desculpar, mas ela sabe bem que terá de matá-lo se quiser rever seu filho. Ademais, quando questionada se de fato gostaria de ir na viagem, ela, de modo profundo, olha para as outras pessoas no barco, como se dependesse deles sua decisão. Afinal de contas, sabe que terá que matá-los também.

Outro fator que deve ser considerado é a amnésia, proveniente do acidente de carro. Desde o início, quando entra no barco, Jess parece extremamente confusa. Não obstante, é somente após dormir que Jess não se lembra mais do ciclo, esquece-se de que já passou por tudo aquilo e assim acaba por repetir tudo da mesma forma – escrevendo o bilhete, deixando o colar cair, etc. Lembre-se de que, não à toa, Jess dorme por mais de duas horas no barco, também dorme na praia após conseguir retornar. Mostram-se pistas, a todo instante, que lhe sugerem que já estivera em tal lugar, por isso sua sensação constante de deja vu que ela repete diversas vezes.

Um questionamento que vi em muitos fóruns foi: de onde surgiram tantas Jess’s? Descreverei o trajeto, a partir do início, que de acordo com minha teoria, melhor se encaixa. A primeira Jess, que maltrata seu filho e chega a dizer que quer um tempo só para ela, decide ir viajar com os amigos e opta por deixar seu filho na escola ao invés de levá-lo. Como a Jess que nos é mostrada é uma já imersa no ciclo, duas são as possibilidades que explicam o percurso da primeira Jess : ou ela levou seu filho para a escola, ou ela sofreu o acidente de carro e ficou atordoada, não se lembrando bem de onde deixara seu filho. Em qualquer dos casos, Jess embarca e após a distorção do tempo no triângulo das bermudas, enlouquece no navio. Talvez propriamente por passar por essa distorção ou pela provável perda do filho no acidente. Assim, todos os rastros (por rastros, entenda-se: a chave, o colar, o bilhete, entre outros) são implantados, ainda que sem objetivo prévio. Mas nunca nos é mostrado a Jess original; a que conhecemos no início chamarei de 1ª Jess. Essa é a Jess que deixa os rastros para o segundo grupo, é a Jess que lança uma outra Jess para fora do navio. A Jess atirada para fora do navio chamarei de Jess Anterior, essa é a Jess que atira nas pessoas do grupo da 1ª Jess, no teatro. É quem provavelmente deixou os rastros para a Jess do 1º grupo. Os rastros para a Jess Anterior foram deixados pela Jess com sangue no rosto, da qual não sabemos toda a trajetória. Sabe-se, no entanto, que a Jess com sangue no rosto é quem assassina dois integrantes (o casal), no quarto 237, do segundo grupo. E a Jess do segundo grupo, aquela que ao invés de ser estrangulado por Victor, torna-se alvo da arma da Jess do 1º grupo, se tornará também uma Jess com sangue no rosto, e, pela lógica, assassinará o casal apenas do 5º grupo a chegar. Percebe-se, pois, que há uma ordem: Jess Com Sangue no Rosto > Jess Anterior > 1ª Jess (a que se mostra desde o princípio) > 2ª Jess > 3ª Jess. O ciclo não se restringe ao navio, ao contrário do que talvez pense o espectador no momento em que assiste.

Tanto o nome do navio quanto o quadro em sua parede são referentes à lenda de Sísifu, um homem, da mitologia grega, condenado a carregar uma pedra montanha acima só para vê-la rolar para baixo, repetidas e infinitas vezes. Tal castigo deve-se ao fato de Sísifu ter enganado a morte – justamente o que Jess tenta fazer para salvar seu filho, que, na verdade, morrera no acidente de carro. Talvez seja então a explicação, para a realidade de punição cíclica alternativa, de cunho mitológico. O fato é que pouco isso importa. Vale mesmo a diversão de tentar montar o quebra-cabeça que, diferentemente de Inception, não vem com enfadonhas instruções detalhadas dos lugares de cada peça.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Premiação GLS divulga seus indicados

O Prêmio Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Glaad) homenageia anualmente os artistas e produções com temática homossexual. Artistas e produções essas que ajudam no crescimento e na aceitação dos homosexuais na sociedade. Nesse ano o grande destaque entre os indicados é o filme Minhas Mães e meu Pai (Você pode saber mais sobre esse filme lendo a crítica postada também nesse blog). Parabéns aos responsáveis pela premiação e aos indicados, e vamos todos lutar contra o preconceito a opção sexual. Confira os indicados.

Melhor Filme
Burlesque
A Mentira
A Menina que Brincava com Fogo
Minhas Mães e Meu Pai
Scott Pilgrim contra o Mundo

Melhor Filme com distribuição limitada
Howl
O Golpista do Ano
La Mission
Patrik 1.5
Undertow

Melhor Série de Drama
Brothers & Sisters
Degrassi
Grey´s Anatomy
Pretty Little Liars
True Blood

Melhor Série de Comédia
Glee
Greek
Modern Family
Nurse Jackie
United States of Tara

Melhor Episódio em série sem personagem LGBT
Bored to Death (HBO) - Innocence"
Law & Order (NBC) - "Klaus & Greta"
30 Rock (NBC) - "Queen of Mean"
Drop Dead Diva (Lifetime) -"Samaritan"
Law & Order: UK (BBC America)

Melhor Documentário
8: The Mormon Proposition
Edie & Thea: A Very Long Engagement
Prodigal Sons
Sylvester
Out. The Glenn Burke Story

Melhor Reality Show
The Fabulous Beekman Boys
Girls Who Like Boys Who Like Boys
Sundance Channel
Project Runway
Top Chef: Just Desserts
TRANSform Me

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Minha Terra, África


Em um país francófono não-identificado da África Subsaariana, de vegetação típica de savana e sistema político em crise, imerso em uma guerra civíl. Nesse ambiente, retrato inverso de um lugar inócuo, Claire Denis nos conta a história de Maria Vial, interpretada por Isabelle Huppert, uma fracesa que vive na África há um bom tempo cuidando da plantação de café da família, provavelmente uma fazenda remanescente do período colonial. A guerra civíl eclode às vésperas da colheita, o que leva todos os trabalhadores a fugirem em busca de refúgio. Maria insiste em permanecer e sai em busca de novos trabalhadores, contrariando as ordens da embaixada de que todos os franceses deixem o país e a vontade de seu marido, interpretado por Chistopher Lambert, o eterno Highlander, que pretende vender a fazenda e usar o dinheiro para recomeçar a vida na Europa.

Embora seja um filme claramente alternativo (o que é alternativo?), White Material, título muito superior ao nacional e que se refere à "coisas de branco", goza de elementos mais ligados a um cinema comercial (o que é comercial?). Exemplos disso são a quebra da linha cronológica, optando por iniciar o filme por sua cena final e a partir daí resgatar toda a história como se fosse um grande flashback, a ausência quase que completa de tomadas contemplativas, que estão se tornando quase que um clichê no cinema de festival, notar os exemplos de Um Doce Olhar e Tio Boonmee, Que Pode Recordar suas Vidas Passadas, premiados em Berlim e Cannes resectivamente, e, acima de tudo, e necessidade de dar uma importância anormal à sua protagonista. Se num primeiro momento Maria parece ser apenas uma pessoa normal tentando (sobre)viver em meio ao caos que se instalou no país, logo percebemos a necessidade de importância em cima de tal personagem, à partir do momento em que o líder da resistência se abriga em sua fazenda, tornando Maria uma pessoa de suma importância até mesmo dentro do cenário nacional. Recurso típico de Blockbusters.

Outro elemento a ser ressaltado é a figura de Manuel, filho de Maria e André e interpretado por Nicolas Duvauchelle. Um personagem que apenas aparece quando nos aproximamos da metade do filme e que não muito mais aparece. Porém, existem algumas peculiaridades a serem ressaltadas. Uma delas é o relacionamento de Manuel com seus pais. O jovem, de seus 17(?) anos, nutre uma relação muito mais estreita com seu pai que com sua mãe, fato bem ilustrado no momento em que rebeldes tomam toda a sua roupa. Enquanto sua mãe corre para acudi-lo, seu pai passa a frente e lhe dá a calça para vestir, protegendo sua nudez de sua mãe numa atitude insensatamente exagerada. A outra é o próprio Manuel, uma criatura de efígie européia, mas alma africana, combinação um tanto quanto atípica e que, tal qual a outra peculiaridade citada anteriormente, fica pouco trabalhada na obra.

A última observação que faço fica sobre a própria direção de Claire Denis e a forma com que ela usa a camera, incorporando para si toda a instabilidade socio-política dessa nação desconhecida ao mesmo tempo em que, de maneira análoga à dos personagens, procura incessantemente um lugar no qual se fixar. Uma busca que talvez tenha faltado ao filme como um todo. Ou então que simplesmente foi infeliz em seu objetivo.

Sobre o direito de auto-criticar



Com o passar do tempo, tudo muda: o universo se expande, os planetas giram, a mente subverte-se. E mudando bruscamente a postura usual do blog, não venho aqui para afirmar, mas para negar. Venho, na verdade, fazer uma auto-correção. Há algum tempo, escrevi sobre o filme de Nolan, Inception, e lembro-me bem de ter desfilado uma série de elogios acerca de sua obra, todavia, negá-los-ei agora. É preciso esclarecer que, em minha concepção, não há o menor aviltamento nisso; pelo contrário, como todo ser que tem por hábito o questionamento, não tomando afirmações (mesmo que tais saiam de si mesmo) como verdades absolutas, sinto-me feliz em poder fazer auto-críticas e mudar de opinião. Aliás, você, leitor, há de concordar comigo que também mudou. Certamente não é mais o mesmo de tempos atrás, da mesma forma, seu gosto deve-se ter refinado bastante. De minha parte, afirmo que negarei a mim mesmo até o meu último instante de vida. Ou talvez não.

Em todo caso, esclarecerei os principais motivos que me levaram a tal mudança após, é claro, uma revisão da obra em questão:

1) O Didatismo: Convencionou-se julgar o filme de Nolan como inteligente. Em meu ponto de vista, inteligência corresponde à capacidade de compreensão do cérebro, ao digerir a assimilar fatos e circunstâncias e, nesse sentido, o filme de Nolan fracassa miseravelmente. Como não digerir algo que já se vem minuciosamente detalhado? Não obstante a pretensão intelectual (Oh, vejam vocês, ele colocou um sonho dentro de um sonho!), tudo que se precisa saber para que se compreenda Inception é escancarado o tempo todo, como se o cineasta pedisse permissão aos espectadores para que avance com a verdadeira trama, a qual só se inicia após seu prólogo interminável. Com efeito, perde-se talvez mais da metade do filme com explicações pormenorizadas de uma mecânica inventada por Nolan – que de onírico, paradoxalmente, não há nada.

2) Fuga da Imagem: Primordialmente, o cinema não se caracteriza por outra coisa senão a imagem. Afinal de contas, o som - por exemplo, desde o nascimento da sétima arte, mostrou-se dispensável para sua existência. Existe, na verdade, uma relação de protocooperação entre ambos – e também outros elementos, na qual, mediante boa utilização, o cinema pode evoluir, mas nunca se subordinar a esses tais elementos. O roteiro de uma película, como provou Godard, não é elemento indispensável. Da mesma forma, tomando-se o tal conteúdo do filme (apesar de o cinema em si já ser conteúdo) como principal elemento, poder-se-ia muito bem ler apenas o roteiro que estaria de bom tamanho. Sem a imagem, entretanto, seria impossível a existência do cinema enquanto cinema; seria outra coisa que não cinema. Se houvesse apenas a história, seria livro/roteiro. Apenas o som, seria música. Por outro lado, o cinema sem imagem seria como uma tartaruga sem casco. Nolan, com seus cortes frenéticos, como se quisesse fugir da imagem, nunca a deixando assumir seu estado pleno de imagem, assemelha-se mais a um malvado caçador de tartarugas, metaforicamente, cortando sem piedade não seus planos, mas a tartaruga, por conseqüência, o cinema. Afirmo, pois, que Inception é a pura manifestação do anti-cinema.

3) Personagens-pretexto: As personagens do filme, durante toda a missão que foi assistir inception novamente – e também após ela, são lembrados por mim meramente pela função que assumem. Na verdade, eles configuram-se como instrumentos para que o diretor presunçoso pudesse fazer sua empreitada dentro dos sonhos. O fato é que Nolan precisava de alguma desculpa para tornar o onírico algo lógico; precisava ainda de alguém para explicar de forma didática o que estava acontecendo ao espectador, para que Cobb não dialogasse consigo mesmo os grandes discursos explicativos. Sendo assim, o diretor, genialmente, criou a arquiteta (entre outros personagens-pretexto), que é capaz de fazer os sonhos não serem mais exatamente sonhos e, ao mesmo tempo, de fazer as perguntas que os espectadores desatentos fariam, garantindo-lhe então o entendimento e provavelmente a aprovação do grande público. Ademais, assim como em outros blockbusters como 11 Homens e um Segredo, os personagens são apresentados um a um, e mais importantes do que eles próprios são as funções que exercem. Funções essas cuja explicação, também sobremaneira minudenciada, delimita os trilhos pelos quais o filme pode movimentar-se daí em diante, destruindo a possibilidade de uma eventual reviravolta, tornando-o previsível e enfadonho, o que talvez explique a ação desenfreada como recurso de desespero do diretor. Ou talvez não.

Pelo "sim" ou pelo "não", Inception é uma grande picaretagem pretensiosa; e isso não há auto-crítica que desfaça.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Um Doce Olhar


A terceira parte da atípica trilogia semi-autobriográfica do turco Semih Kaplanoglu conta mais uma vez a história de Yusuf, seu alter-ego. Em Ovo (Yumurta) de 2007, conhecemos um Yusuf adulto, poeta de pouco sucesso e dono de um sebo, que retorna ao vilarejo onde cresceu para o funeral de sua mãe. Em Leite (Sut) de 2008, Yusuf é um adolescente que sonha em ser poeta, mas não consegue entrar nem na faculdade nem no serviço militar. Nesse Um Doce Olhar (Bal, ou então Mel em uma tradução literal), Yusuf, interpretado pelo tão jovem quanto talentoso Bora Altas, é um garoto de seus 6 anos que tem dificuldades de leitura na escola e que acaba vendo sua infância ser destruída num infortúnio que abatera sobre seu pai.

Ovo-Leite-Mel é um trilogia absurdamente peculiar. Kaplanoglu conta a história de três Yusuf's diferentes, que na verdade são um só. Uma história contada de trás para a frente, começando pela fase adulta e regredindo até a infância, mas sem deslocamentos temporais. Exemplo disso é o fato de Um Doce Olhar ser ambientado em 2009, o que indica que os três Yusuf's compartilham o mesmo presente.

Kaplanoglu faz um filme extremamente calmo, mas objetivo. Não há simbolismos, e quando há, ele fica explícito, como nos três momentos relacionados a um copo de leite, título do filme que retrata sua adolescência. Num primeiro momento, sua mãe, Zehra, lhe entrega um copo de leite para que o garoto tome. O pai, Yakup, passa a sua frente e o bebe primeiro, indicando a pressão de Zehra para que seu filho cresça logo, mas a oposição de Yakup, que prefere preservar a infância e a inocência do filho. Num segundo momento, quando Yakup não está presente, Zehra mais uma vez força o filho à maturidade, mas este a rejeita, colocando uma pena dentro do copo de leite para que não precise tomá-lo. Por fim, quando o jovem Yusuf sabe que seu pai não mais retornará, ele pega o copo de leite sobre a mesa e deliberadamente o toma, aceitando assim o fim de sua infância.

Como pode-se notar na atitude narrada acima por parte de Yakup em preservar a infância do filho, é com o pai que Yusuf mais se identifica, tendo um relacionamento muito melhor com este do que com sua mãe. Kaplanoglu também ilustra isso através de duas passagens de simbolismos explícitos. Num primeiro momento, Yusuf vai até seu pai para lhe contar um sonho que tivera. O pai, por sua vez, diz que sonhos não devem ser espalhados livremente por aí e instrui o filho a sussurá-lo em seu ouvido. Algum tempo depois, Zehra vai até Yusuf para contar um sonho que teve e ali mesmo, em pleno e bom som, no meio da cozinha, o narra, para o incômodo do garoto. Uma prévia para o que viria a seguir, de Yusuf se tornar um poeta. Todo o lirismo daquele momento com o pai, onde o garoto aprende a verdadeira importância dos sonhos sendo posta em contraste com a visão da mãe, para o qual um sonho é algo absolutamente banal.

Logo no primeiro momento, Um Doce Olhar já indica o ritmo que seguirá, quando numa cena completamente desprovida de falas e composta quase que inteiramente de uma única tomada estática, vemos o pai de Yusuf, um apicultor que sai à floresta em busca de novas colméias, visto que suas abelhas estão desaparecendo, sofre um acidente do qual, muito provavelmente não sobreviverá. Um artifício bastante utilizado (vejam o exemplo clássico de Beleza Americana) onde contar o final logo na primeira cena ajuda a intensificar o sofrimento dos personagens, passando longe de uma indesejada pieguice.

Um Doce Olhar, ou Mel como eu prefiro, é um ótimo exemplar de um cinema extremamente minimalista, poético e, tal qual dito anteriormente, lento, mas objetivo. Sua escassez de simbolismos que poderiam ter sido utilizados em enorme quantidade o torna uma obra deliciosamente simples. Típico filme de festival, vindo diretamente das montanhas do norte da Turquia, às margens do Mar Negro, se assemelha em vários aspectos com outro vencedor de um grande festival em 2010, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, vencedor do prêmio máximo em Cannes. Semelhanças essas no tom poético, na calma narrativa, na simplicidade da produção e no ar contemplativo com o qual as paisagens são retratadas, mas enquanto o tailandês aborda um tipo de realidade fantástica carregada de simbolismos, o turco é bem mais direto em seu hiper-realismo.

Por último, vale ressaltar a fotografia de Baris Ozbicer, indicada ao European Film Awards na categoria, sobretudo nas tomadas internas, onde a iluminação dos ambientes remete à obra do pintor holandês Johannes Vermeer.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Indicados ao BAFTA 2011



A British Academy of Film and Television Arts (BAFTA), considerado o Oscar inglês, divulgou seus indicados. O recordista de indicações é o filme O Discurso do Rei, com 14. Confira a lista:


Melhor Filme
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

Melhor Filme Britânico
127 Horas
Another Year
Four Lions
O Discurso do Rei
Made In Dagenham

Melhor Estreia de um Diretor, Produtor ou Roteirista Britânico
Clio Barnard e Tracy O'riordan (The Arbor)
Banksy e Jaimie D'cruz (Exit Through The Gift Shop)
Chris Morris (Four Lions)
Gareth Edwards (Monsters)
Nick Whitfield (Skeletons)

Melhor Diretor
Danny Boyle (127 Horas)
Darren Aronofsky (Cisne Negro)
Christopher Nolan (A Origem)
Tom Hooper (O Discurso do Rei)
David Fincher (A Rede Social)

Melhor Roteiro Original
Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
Minhas Mães e Meu Pai
O Discurso do Rei

Melhor Roteiro Adaptado
127 Horas
Os Homens que Não Amavam As Mulheres
A Rede Social
Toy Story 3
Bravura Indômita

Melhor Filme em língua não inglesa
Biutiful
Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Io Sono L'amore
De Deuses e Homens
O Segredo dos Seus Olhos

Melhor Animação
Meu Malvado Favorito
Como Treinar o Seu Dragão
Toy Story 3

Melhor Ator
Javier Bardem (Biutiful)
Jeff Bridges (Bravura Indômita)
Jesse Eisenberg (A Rede Social)
Colin Firth (O Discurso do Rei)
James Franco (127 Horas)

Melhor Atriz
Annette Bening (Minhas Mães e Meu Pai)
Julianne Moore (Minhas Mães e Meu Pai)
Natalie Portman (Cisne Negro)
Noomi Rapace (Os Homens que Não Amavam as Mulheres)
Hailee Steinfeld (Bravura Indômita)

Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale (O Vencedor)
Andrew Garfield (A Rede Social)
Pete Postlethwaite (Atração Perigosa)
Mark Ruffalo (Minhas Mães e Meu Pai)
Geoffrey Rush (O Discurso do Rei)

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams (O Vencedor)
Helena Bonham Carter (O Discurso do Rei)
Barbara Hershey (Cisne Negro)
Lesley Manville (Another Year)
Miranda Richardson (Made In Dagenham)

Melhor Trilha Sonora
127 Horas
Alice no País das Maravilhas
Como Treinar o Seu Dragão
A Origem
O Discurso do Rei

Melhor Fotografia
127 Horas
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Melhor Montagem
127 Horas
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social

Melhor Direção de Arte
Alice no País das Maravilhas
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Melhor Figurino
Alice no País das Maravilhas
Cisne Negro
O Discurso do Rei
Made In Dagenham
Bravura Indômita

Melhor Edição de Som
127 Horas
Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Melhores Efeitos Visuais
Cisne Negro
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
A Origem
Alice no País das Maravilhas
Toy Story 3

Melhor Maquiagem
Cisne Negro
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1
O Discurso do Rei
Made In Dagenham
Alice no País das Maravilhas

Melhor Curta
Connect
Lin
Rite
Turning
Until the River Runs Red

Melhor Curta de Animação
The Eagleman Stag
Matter Fisher
Thursday

Melhor Estrela em Ascensão
Gemma Arterton
Andrew Garfield
Tom Hardy
Aaron Johnson
Emma Stone