sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pequena Miss Sunshine


Irrita-me profundamente que Pequena Miss Sunshine seja talvez um dos filmes mais idolatrados dos últimos tempos. O tom altissonante e a preocupação exacerbada em passar sua mensagem de auto-ajuda, além de por si só já ser patético, vale-se ainda do pior dos erros que um filme pode cometer: negar a si mesmo. Todo e qualquer filme carrega mensagens implícitas. Na União Soviética, com a revolução de 1917, praticamente toda a produção cultural passou a ser voltada para a panfletagem, tal qual também muito acontecera nos EUA na época da Guerra-Fria. Apesar de ambos os propósitos serem questionáveis, em termos artísticos, eram ao menos sinceros em suas pretensões. Em contraponto, como confiar em um filme que intenta ora a diversão, ora o moralismo, ora a auto-ajuda?

O filme parece tentar colocar-nos um sorriso no rosto, seja com comicidades baratas, seja com lições de incentivo: “Seja você mesmo”, “Não se importe com as aparências” e por aí vai. Isso em si não seria o grande problema, visto que até mesmo livros de auto-ajuda têm seus árduos admiradores, e, não se espantem, há quem os considere literatura, forma de arte. Todavia, é assombroso com que fervor sua escola pseudo-cool-indie é defendida, desde as roupagens; as técnicas bobas típicas desse tipo de filme; a afetação estética; até citações desmedidas de intelectuais, tais quais Nietzsche, Proust, sem, no entanto, expressar o menor conhecimento sobre o assunto. É nítido (ou nietzschedo – nesse caso) o imenso apelo em agradar os seus semelhantes, sua vontade de ser cultuado, de ser aceito. Apesar de pregar o oposto, o “parecer” atropela o “ser” nesse road movie enganador.

Não fume – diz o filme. Desculpe-me, Dear Sunshine, não consigo o entender com esse cigarro na boca.

Sem sair da fórmula independente, a narrativa trata de uma família e suas relações conturbadas. Composta por personagens excêntricos cuja influência de Wes Anderson beira um espelho. Já os diretores, que trabalhavam com propagandas televisivas, parecem não ver diferenças entre ambos, pois se mantiveram fiéis à sua concepção. Basta lembrar-se da cena do sorvete, que nada mais é do que um comercial estendido. Sem jamais perder a frase-lema: “Um real perdedor é quem tem tanto medo de não vencer, que acaba nem tentando”. Variações dessa frase, mais do que impregnadas no conceito de realização, são lançadas bruscamente em todos os instantes julgados como oportunos, ou seja, em todos os instantes mesmo.

Acaba sendo um filme que representa uma geração – longe de isso ser um elogio. A cena final é a tradução perfeita da nova era: pessoas dançando esquisitamente, sem saber o exato porquê, e ainda esperando aplausos (alguns aplaudem). Quando a vejo, sinto vergonha de estar vivo. Citaria uma frase de Nietzsche para terminar, mas me recuso a fazê-lo; ele teria vergonha de figurar ao lado de algo como esse Miss Sunshine. Infelizmente os seus adoradores não se dão conta disso. É como ver o abismo. O abismo.

2 comentários:

Lauci Lemes disse...

Caro Doutor, acho que tens toda razão, mas tem um lado da mesma moeda que analisou pouco, "o retrato de uma geração", e essa é a importância do filme, essa geração de meia-idade perdida e ridicula, assim como foi "Grand Canyon - Ansiedade de uma Geração" de Lawrencw Kasdan, para o Inicio dos 90. A diferença é, enquanto Kasdan foi pretencioso na mensagem, o outro (ai que discordo de ti) teve o exagero e o despropósito como diversão e as mensagens piegas são mais umas piadas dessa geração perdida.Pois o filme termina como começou, e essa é a grande mensagem, que ele não explicitou: "Auto-ajuda o caralho, continuamos a ser os mesmos bostas, mas pelo menos sabemos disso agora"! Ai vai de cada um. Abraço!

Dr. Soup disse...

Querido Lauci, a mensagem final que percebi foi: “continuamos a ser os mesmos bostas, aceitemos isso, mas podemos contar com nós mesmos agora”, o que não deixa de ser auto-ajuda barata. Mas, de qualquer forma, é provável que eu tenha perdido a atenção no final; afinal aquela dançinha deturpou minha mente por um bom tempo.