sábado, 4 de dezembro de 2010

O Segredo do Bosque dos Sonhos


O cinema italiano é berço do movimento neorrealista, do qual emergiram alguns conceituados diretores, como Vittorio de Sica e Luchino Visconti, que são responsáveis por obras indispensáveis para qualquer um que queira adentrar numa das mais importantes produções culturais européias. Além disso, o país é tradicionalmente associado a grandes gênios como Michelangelo Antonioni, Sergio Leone, ou mesmo o mais cultuado, creio, Federico Fellini. Tais realizadores compõem o quadro clássico da cinematografia, tornaram-se o que seria sua carteira de identidade. Mas assim como a maioria dos cidadãos, a sétima arte tem suas anormalidades; distorções, bizarrices e perversões estão para o ser humano, assim como o Giallo está para o cinema italiano.

Como qualquer giallo que se preze, “O Segredo do Bosque dos Sonhos” ( conhecido também por Don’t Torture a Duckling , Non Si Sevizia un Paperino, entre outros) carrega muitos elementos presentes no gênero: o mistério, o thriller, a atmosfera minuciosamente construída, as insinuações sexuais, o crime praticado por um assassino desconhecido e uma estilização plástica virtuosa, pretexto esse que abre as portas para uma brutalidade inebriante com sangue jorrando à vontade e violência fervilhando pelos poros. Tais características somaram-se ao talento de alguns grandes diretores (Dario Argento, Mario Bava e Lucio Fulci) e transformam-no em um estilo que consegue ser artístico, mas sem nenhuma gota de afetação. Nesse filme, contudo, Fulci subverte seu estilo convencional para fazer o que talvez seja seu filme mais sensível - não que se desfaça de seu sadismo costumeiro, mas por ser condizente com causas humanas. Pode-se dizer talvez, que ali, bem no fundo, exista uma crítica moralizante. Eu, porém, não acredito nisso. Fulci queria era mesmo não só criticar ou cutucar a moral social (notadamente a religiosidade), mas assassiná-la brutalmente.

Um pequeno vilarejo isolado, que de certa forma remete aos westerns com os quais Fulci trabalhara, é palco de estranhos assassinatos de crianças. A partir da primeira cena em que um esqueleto infantil é desenterrado por uma misteriosa mulher, instaure-se a dúvida. Um personagem após outro vão se mostrando mais suspeitos do que se supunha. Dentre os possíveis assassinos estão uma mulher que pratica voodoos contra crianças; uma atraente estrangeira, por vezes nua, seduzindo meninos com vistas, aparentemente, a perversões sexuais; um padre estranho com relações incógnitas com os meninos; e um louco jurando-lhes a morte. E todos são culpados. Senão por assassinar crianças, por atitudes medievais, egocêntricas e comportamentos animalescos que fazem do vilarejo uma alegoria cabal da imoralidade.

Se Fulci faz da ambientação um cúmplice, faz também, em contrapartida, a câmera tornar-se quase um investigador, daqueles detetives inquietos dos noirs, em busca da verdade, que jamais pararão até encontrá-la. Onisciente e onipresente, a insigne câmera expõe cada banalidade que possa ser uma evidência; é dona do tempo e do espaço. Fulci faz isso sem perder o compasso do lirismo, jamais se afastando de sua índole poética, sem nunca lhe escapar o requinte e, é claro, despejando-se baldes e baldes de sangue.

Não é de se estranhar que Fulci tenha declarado, por diversas vezes, ser esse seu filme favorito de toda sua carreira. Todos os detalhes são incríveis, desde a trilha sonora composta por Riz Ortolani (que também compusera para o filme Holocausto Canibal), até a escolha dos atores, dentre eles a brasileira Florinda Bolkan (que fora descoberta por Luchino Visconti e chegou a atuar, inclusive, ao lado de Marlon Brando).

Não obstante toda essa genialidade da obra, houve quem não gostasse nem um pouco; a igreja excomungou-a, bem como seu diretor. Será que a carapuça serviu?

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