sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Jogos Viris



Jan Svankmajer é um mestre da construção de imagens. Seus trabalhos baseiam-se puramente na imagética, não há, pois, uma preocupação crítica ou qualquer outra forma de otimismo em querer mudar a sociedade, até porque, para Jan, a vida em sociedade é mera convenção. Costumeiramente, explora em seus trabalhos a natureza humana, valendo-se da mais pura inventividade artística. Por conta disso, talvez, teorias sinistras acerca de seus trabalhos surgirem buscando nas entrelinhas metáforas mirabolantes de todos os tipos – pomposamente chamadas de “conteúdo crítico-político”, diria até que essas teorias são mais criativas que o próprio diretor. Prometo qualquer dia enviar-lhe uma “curta” carta comentando cada uma delas para que ele possa se divertir tanto quanto eu me divirto assistindo seus curtas.

Jogos Viris é um dos mais belos exercícios de criação do diretor. Assim como seus demais filmes, é impregnado de seu humor negro, sua comicidade maluca e seus delírios atormentados. No curta, através de uma mistura de imagens de arquivos, stop-motion e encenações reais, Jan remonta uma partida de futebol para expor, como de costume, alguns comportamentos humanos ridículos, devido aos quais o diretor certamente deve rolar de rir; não há, no entanto, como já disse, um espírito crítico de subverter as bases sociais ou, quem sabe, uma expectativa – que obviamente se frustraria – em esperar que a população veja “suas críticas” e mude de postura, que é exatamente o objetivo das críticas, pois do contrário seriam mais vazias que qualquer comédia romântica. Não é necessária outra coisa senão muito otimismo para isso. Seus filmes, na verdade, são para um grupo bem seleto. E Jan convida-nos a rir com ele do ridículo do mundo.

Corrobora essa tese a ironia, intrinsecamente bem humorada, refletindo o estado cômico do diretor quando fez a obra. Ironizando o título e o próprio esporte cuja fama remete à virilidade, os jogadores parecem bailarinas em campo. A torcida, por sua vez, vibra caoticamente em torno do nada. Toda a partida de futebol é absurda, como não podia deixar de ser, uma vez que Jan é adepto ferrenho da arte surrealista, tendo estudado na escola de artes de Praga e se especializado na técnica do stop-motion. Contam-se os pontos do jogo de acordo com o número de mortes em campo, mortes essas que se dão das formas mais absurdas: esvaindo jogadores por uma torneira, recortando-os com tesouras, triturando-os feito carne. Culmina o jogo, assim, em um inevitável 11 a 11, se é que me entendem.

Interessante notar que cada objeto utilizado para as mortes são utensílios da casa do espectador. Seja o trem e a agulha que se encontram na gaveta, ou os utensílios culinários, tampas de panelas, torneiras de chops, abridores de garrafas. Isso demonstra que o espectador se vê dentro do jogo, não é a toa que todos os jogadores, bem como o juiz, têm exatamente o seu rosto. Seria, talvez, uma alegoria para a alienação humana, talvez uma lembrança do quão patética é a lógica da apreciação do esporte, visto que os espectadores confundem-se com os jogadores, imaginando-se jogar a partida, quando de fato estão na verdade estáticos encarando um retângulo. Svankmajer faz questão de mostrar e, a rigor, minudenciar cada guloseima que o espectador devora, cada garrafa que por ele é aberta e que em seguida se converte em um instrumento mortal de seu desejo, que só em sonho enquanto assiste sua tela inventiva é que se realiza. Afinal, quem nunca desejou matar alguém? Só não o matou por haver uma ética social a ser respeitada, ética essa que não encontra respaldo na natureza humana, uma natureza regida pelos impulsos, que tentamos desesperadamente conter. O que é a vida senão um jogo de trivialidades e pretensões frustradas?

Mas enfim, divagações de bêbado à parte...

Transcorrido certo tempo, o jogo passa a acontecer na própria casa do espectador – tal elevado se torna o grau da utopia, mas ele não se dá conta, continua encarando a TV, em uma espécie de analogia ao mito da caverna de Platão. Ao final, Svankmajer, desmascarando a natureza humana e a grandeza das banalidades, desvenda a essência humana: assim como em toda a existência, a única coisa que de fato importou durante o jogo foram os petiscos para beliscar e todas as variações existentes do álcool. Obra-Prima.

Obs: pra quem não o conhece, recomendo que confiram pelo you tube. Caso gostem, toda sua coleção se encontra disponível no site da Amazon por preço de banana; aproveitem!

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