quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Jogos Viris


Em Jogos Viris, a atenção de Svankmajer recai sobre o mundo do futebol através de um fã do esporte que se fecha em seu pequeno apartamento, completamente forrado com referencias futebolísticas para assistir a uma partida na televisão. Porém, o jogo que se vê não é lá muito comum, visto que o sistema de pontuação marca não os gols convertidos, mas sim os adversários mortos em campo. Com todos os jogadores possuíndo a mesma fisionomia do espectador, somos apresentados às mais bárbaras e cruéis formas de assassinato, sempre se consistindo em destruir completamente a face do oponente, levando-o à morte. Quando a bola é chutada para fora do estádio e cai no pequeno apartamento em que começamos o curta, isso não é problema para os jogadores, que vão até lá para terminar a partida. Ou seja, até que o último deles caia morto.

Diferente da maioria dos trabalhos do diretor, nesse curta não parece haver nenhum objetivo que não o do mero entretenimento. Svankmajer, que sempre critica a sociedade humana de um modo bem duro em seus filmes, parece simplesmente se esquecer dessa racionalidade para fazer um filme que, no máximo, critica a selvageria dos gramados e a alienação de quem assiste tv, que ao sustentar seu vício, sequer percebe o que ocorre ao seu redor. Certamente, o próprio diretor é um fã do esporte, e por isso concebe um filme tal qual este, que se torna uma mera diversão relacionada ao tema.

Mas o mais interessante da obra é o estilo nela empregada. Svankmajer concilia filmagem em live-action com imagens de arquivo retratando pessoas assistindo jogos de futebol em estádios e animação em stop-motion com massinha. Mas o mais interesse fica a cargo das animações dos jogadores em campo, feitas em stop-motion, mas empregando a técnica do recorte sobre fundo estático, idêntica à utilizada por Terry Gilliam em algumas animações para o Monty Python, deixando Jogos Viris com um tom de homenagem à trupe, não apenas pelo estilo de animação mas pelo humor negro levado ao extremo.

Em um site qualquer por aí, vi uma perfeita definição sobre a obra desse cineasta que dizia algo como "Disney+Buñuel=Svankmajer". Realmente, tal definição retrata bem a aura e o estilo desse autor, mas infelizmente nesse curta tal mistura não é homogênea, puxando mais para o primeiro fator que para o segundo. Mas nada que as referências pythonescas não equilibrem de volta à harmonia.

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