quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Império dos Sonhos


A grande maioria das músicas têm como objetivo contar algo, seja um evento, um período da vida de um indivíduo, um momento histórico, um diálogo, uma declaração de amor ou qualquer outra coisa que o compositor tenha em mente no momento em que escreve a canção. Porém, alguns tipos de música não se apegam a essa visão racional. Um exemplo bom é Tocata e Fuga, do compositor alemão Johann Sebastian Bach. Nessa obra, não há enredo, não há história, não há nada, apenas a perfeita e harmoniosa sucessão de notas que pedem que cada pessoa que a ouça crie sua própria interpretação. E todo mundo adora.

Nas artes plásticas, mais especificamente, na pintura, quando se utiliza desse mesmo artifício de deixar a mensagem, normalmente transmitida através das cores utilizadas, do cenário retratado ou da forma com que as personagens são desenhados, para interpretação livre de quem a observa, dizemos que tal obra é abstrata. Dentre os maiores expoentes desse estilo, está o russo Wassily Kansdisky. Embora alguns de seus trabalhos tenham uma influência visível do surrealismo, ele ainda se mantém firme no abstrato, criando uma série de figuras aparentemente disconexas e atribuíndo a elas um tema, cabendo a quem a vê criar uma ligação entre o que está sendo visto e o tema proposto. E muita gente odeia (e inclusive tornou-se quase que lugar-comum satirizar o abstratocionismo ou, mais recentemente, a chama "arte contemporânea").

Já no cinema, essa mesma idéia artística de deixar o filme em aberto para interpretações livres causa opiniões extremamente divergentes. Talvez por o cinema ser uma arte mais fechada e corrompida, exemplo disso são os filmes que visam o puro entretenimento serem idolatrados e o código de ética que a Hollywood pré-anos 60 seguia. Fazer cinema é caro. Muito mais caro que compor uma música ou pintar o quadro, e por isso é necessário agradar o público para conseguir que o dinheiro investido retorne, evitando assim o prejuízo, e consequentemente, a falência. Talvez por isso seja tão difícil assim ousar dentro dessa arte restrita, mas mesmo com essa dificuldade, alguns nomes conseguem se destacar por quebrar padrões.

Em 1928, Luis Buñuel realizou em parceria com o pintor surrealista Salvador Dalí um curta-metragem intitulado Um Cão Andaluz. Nesse curta não existe enredo, não há trama, muito menos diálogos. A única coisa presente é uma sucessão de imagens absolutamente surreais e aparentemente desprovidas de um sentido. Ainda hoje há uma enorme divergência sobre a qualidade de tal obra, sendo considerada por alguns como um dos maiores filmes já feitos, enquando outros a consideram uma gigantesca bobagem. Coisa que ilustra bem como a maioria das pessoas não está aconstumada a esse tipo de abordagem que induza a uma interpretação não específica. Isso também justifica as hordas de fãs que idolatram cineastas didáticos como Steven Spielberg, Christopher Nolan e James Cameron.

Se Um Cão Andaluz não existisse, certamente Império dos Sonhos também não existiria. David Lynch já demonstrava ser um cineasta pouco ortodoxo desde o bizarro Eraserhead. Depois, passando por alguns filmes mais convencionais como o melodrama moralista O Homem-Elefante e a visão desoladora da monotonia interiorana de Veludo Azul, ele apenas viria a retornar aquela insensatez do início de sua carreira em Cidade dos Sonhos. Insensatez essa que atingiu o seu ápice em Império dos Sentidos, que assim como pelos últimos 78 anos aconteceu com Um Cão Andaluz, gerou opiniões totalmente diversificadas, tocando os dois extremos opostos de obra-prima e lixo completo.

Porém, ao contrário do filme de Buñuel, o filme de Lynch apresenta no mínimo uma base um pouco mais tradicional e linear. O filme começa com um casal encontrando o corpo de uma prostituta. Corta para um gramofone apresentando uma novela de rádio. Corta para um casal de poloneses conversando num quarto de hotel. Corta para outro quarto de hotel com uma mulher chorando enquanto assiste tv. Corta para a tv que passa Rabbits, um curta de Lynch feito especialmente para a internet. Corta para uma sala, onde dois possíveis mafiosos levam uma estranha conversa em polonês. Corta para uma senhora caminhando em um jardim.

A partir daí a trama segue uma linha um pouco mais tradicional. Essa senhora vai até a casa de uma atriz (Laura Dern) e a questiona sobre um papel que ela apenas viria a receber no dia seguinte. Quando ela recebe o papel, nem sequer aparenta ter se lembrado da conversa no dia anterior, assim como em todo o resto da trama. As filmagens seguem até o momento em que o diretor (Jeremy Irons) revela que o roteiro não é exatamente original, mas se trata da refilmagem de um filme alemão que nunca foi terminado, sendo este desta vez adaptado de um conto cigano polonês que dizem ser amaldiçoado. Supostamente, o filme original havia sido cancelado devido aos dois atores principais terem descoberto algo na história que acabou lançando a maldição sobre eles, coisa que culminou em sua morte.

Nesse momento, todo o filme perde o sentido. Tempo, espaço, continuidade, personalidades... Tudo é reduzido a escombros pelo roteiro abstrato de Lynch. Roteiro esse que na realidade nunca existiu em sua forma completa. Lynch escrevia as cenas de forma aleatória conforme as filmagens iam ocorrendo, de modo que nem ele mesmo sabia que forma o filme iria tomar até o resultado final, tornando Império dos Sentidos um organismo vivo e pulsante, que ao invés de ser criado por alguém, criou a si mesmo. Essa aparente falta de objetividade levou a um resultado magnífico, do ponto que em meio ao caos absoluto, vislumbram-se as idéias de Lynch, como a atriz perdendo sua personalidade para a personagem, ela se vendo presa no filme, loops temporais, histórias de infância, conversas em família e todo o tipo de coisa que Lynch pudesse imaginar. Em meio a isso temos o típico terror instaurado pelo diretor, sobretudo a partir dos sons que pontuam o filme.

Na realidade, acima de tudo, o filme segue totalmente a lógica de um sonho (e desde quando sonhos seguem alguma coisa?), se utilizando de mudanças de foco que em uma narrativa tradicional seriam completamente absurdas, como quando uma personagem agoniza, às vésperas de morrer, mas a câmera prefere focar a importância no diálogo de moradores de rua sobre como chegar em Pomona. Tão ridículo quanto genial.

Lynch acabou por escolher utilizar no filme uma iluminação hora demasiada artificial, hora demasiado natural, câmera instável, closes excessivos, zoons amadores e outros detalhes que onferiram à obra uma estética puramente experimental. E maravilhosa, diga-se de passagem. Mas agora, interpretar o filme já é outro problema. Se era tudo parte da maldição da história cigana ou apenas imaginação da protagonista, ninguém sabe. Certamente nem mesmo Lynch sabe. Mas, cá entre nós, isso não faz a menor diferença.


"Sometimes you forget whether it's today, yesterday, or tomorrow."

Um comentário:

dasmodel disse...

Excelente análise, você conseguiu resumir de forma clara e não pedante ou presunçosa [como a maioria dos que falam sobre o filme] os sentimentos de quem viu e gostou, conseguiu disser o que eu não consegui.