terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A História do Mundo - Parte I


Comédia é um dos gêneros mais complicados de ser feito. Como se fazer rir já não fosse difícil o bastante, ainda é necessário inserir algum conteúdo para que nao fique de todo fútil. Esse conteúdo vem normalmente por meio da crítica/sátira. Chaplin critica a sociedade capitalista, Monty Python critica a sociedade americana, até mesmo Rowan Atkinson critica o coletivismo e o moralismo. Mas certamente, a mais interessante de todas essas críticas é a de Mel Brooks, que utiliza seus filmes para satirizar os próprios filmes, e consequentemente, carregar seus filmes de uma deliciosa metalinguagem. E por dominar completamente tal recurso de linguagem e conseguir extrair um humor delicioso dele, Brooks merece respeito.

Depois de satirizar os filmes de terror em O Jovem Frankenstein, faroestes em Banzé no Oeste e até o cinema mudo em A Última Loucura de Mel Brooks, agora a atenção do cineasta recai sobre os épicos históricos. Um panorama dos mais diversos momentos da história do homem é o que se traçaria. Traçaria, visto que ser fiel aos acontecimentos não é nem nunca foi a intenção de Brooks. Dividido em segmentos, A História do Mundo - Parte I é exatamente isso, a primeira parte da história do mundo, mas claro, contada da perpectiva insana de Mel Brooks.

O primeiro segmento se intitula "A Aurora do Homem" e é uma perfeita referência a obra-máxima de Stanley Kubrick 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Enquanto no filme de Kubrick, um grupo de símios descobre a arma, no filme de Brooks eles descobrem um outro elemento, talvez ainda mais importante para o ser humano. Ou melhor, para o homem. Uma curiosidade é que 2001 é aclamado por muitos (inclusive eu mesmo nesse muitos) como o melhor filme de todos os tempos, mas o roteiro de Kubrick em parceria com o autor de ficção científica Arthur C. Clarke não foi agraciado com o Oscar, tendo esse ido parar nas mãos do roteirista de Primavera Para Hitler, um tal de Mel Brooks...

O segundo segmento é "A Idade da Pedra", que evoca o curioso fato de que tal filme fora lançado no mesmo ano de A Guerra do Fogo, obra-prima de Jean-Jacques Annaud e considerado a melhor abordagem cinematográfica já feita desse período histórico. A descoberta do fogo, do matrimônio, da arte e da comédia vem sob a narração marcante de um dos maiores nomes da história do cinema, do teatro e do rádio, ninguém menos que o próprio Orson Welles. Um fato a se destacar.

O terceiro segmento e o mais breve de todos faz uma singela sátira a Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille no ponto que se foca no momento em que supostamente Moisés teria recebido os dez mandamentos diretamente de deus. Ou seriam quinze os mandamentos? Já no quarto e mais longo segmento, somos levados diretamente para o auge do Império Romano, onde seguimos os passos do "filófoso stand-up" Comicus enquanto esse se encontra com um César obeso e alcóolatra, sua esposa devassa e diversas outras figuras bizarras até terminar encontrando Jesus na sua última ceia, logo antes de receber a visita de Leonardo da Vinci que pintará o retrato dos apóstolos à mesa.

O quinto segmento é um musical digno de vaudeville que conta, mais ou menos, sobre uma festa com ares carnavalescos feita pela igreja para a diversão do clero. Um espetáculo de música, dança e alegria, bem aos moldes de Primavera Para Hitler no filme homônimo, com direito até a bailarinas aquáticas em uma referência aos balés de Busby Berkeley. Estamos falando, é claro, da Inquisição Espanhola. Por último, a Revolução Francesa, pelos olhos da monarquia, retratando acima de tudo o evento da fuga do aqui chamado Rei Luis da França, e sua substituição por um sósia, visando assim ludibriar os revolucionários. Nesse segmento acabou por surgir uma das populares frases já escritas por Mel Brooks, copiada e reverenciada em dezenas de outras obras: "It's good to be the king".

Para terminar, nada melhor do que algumas cenas de A História do Mundo - Parte II. Aqui acabamos por ver o balé no gelo de Adolf Hitler, um funeral Viking e, é claro, a conquista espacial judia, com suas naves em forma de Estrela de Davi, já prevendo o próximo filme de Brooks, Spaceballs, que viria a satirizar o cinema espacial, principalmente Guerra nas Estrelas.

Um humor delicioso, mas um tanto mal visto por alguns menos avisados que podem interpretar como sendo vazio e próximo do típico besteirol norte-americano, é o ingrediente-chave de um filme subestimado de um diretor também subestimado. Triste.

E agora, só nos cabe esperar a parte II desse filme que, bem ao estilo Brooks de se fazer humor, jamais virá.

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