quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dimensões do Diálogo


Considerado por muitos a obra máxima de Jan Svankmajer e também uma das maiores animações já feitas, Dimensões do Diálogo é, tal qual o título induz, uma bizarra, perturbadora e em alguns momentos grotesca análise da diáletica entre os indivíduos através da ótica do cineasta tcheco. Para tanto, ele divide o curta em três partes distintas, com cada uma abordando um estilo de discurso, em comum, todas retratam uma impossibilidade de comunicação.

Na primeira parte, intitulada Conversa de Fato [tradução livre], somos apresentados a três cabeças humanas formadas uma por alimentos, uma por utensílios e outra por materiais didáticos. Uma cabeça encara a outra e a devora, digerindo-a por alguns instantes e posteriormente regurgitando-a. A cabeça regurgitada se volta para a terceira cabeça e repete o processo. Essa terceira, por sua vez, faz o mesmo com a primeira, fechando assim um círculo que é repetido diversas vezes até que não haja mais o que ser destruído. As três cabeças tiveram suas partes reduzidas a pedaços tão ínfimos que já não é mais possível discernir qual é qual.

O que Svankmajer propõe nesse segmento pode ser interpretado como uma metáfora para o diálogo entre três distintos núcleos sociais. As pessoas ditas "orgânicas", que prezariam pela saúde do corpo e pela natureza humano instintiva e emotiva, as pessoas "mecânicas", que podem ser vistas como o proletário que prioriza a sociedade acima de tudo, e as pessoas "científicas", que dariam prioridade para a razão. No início, não há interação entre essas três figuras, mas quando a sociedade se sobrepõe à individualidade, a razão se sobrepõe à sociedade e a individualidade se sobrepõe à razão, cria-se um ciclo vicioso que se transforma numa via de diálogo, levando as três figuras, por meio da conversa e da argumentação, até um patamar de estabilidade intelectual, onde todos possuem a mesma figura, e os novos indivíduos que surgem compartilham dessa mesma imagem. Eis a sociedade utópica de Svankmajer, a comunhão entre razão, individualidade e coletivismo.

No segundo segmento, intitulado Diálogo Passional [tradução livre], temos um casal de figuras de argila postas sobre uma mesa. No início, eles apenas se encaram. Logo, surge o toque, que evolui até o ponto em que os corpos começam lentamente a se fundir, até virarem uma massa disforme, porém harmoniosa, jogada sobre a mesa. Logo percebemos que aquela massa é na realidade um casal imerso em atividade sexual. Após alguns instantes nisso, os corpos novamente se separam, porém um pedaço da matéria que os compõe sobrou na mesa, não fazendo parte a nenhum dos dois. Logo, essa matéria se mostra também dotada de vida e parte em busca de atenção daqueles que o criaram, porém, nenhum dos dois pretende cuidar daquele fruto do incidente. Com um lançando a responsabilidade sobre o outro, a batalha não tarda a acontecer e quando ela ocorre, novamente os corpos se unem numa massa disforme, porém, ao invés de harmoniosa como da primeira vez, aqui têm-se uma massa caótica e incômoda em sua forma.

Dessa vez, a mensagem de Svankmajer é clara. Embora em um primeiro momento a paternidade seja vista com bons olhos, na percepção de que o filho é um pedaço de cada um dos pais, que num momento de perfeita comunhão se separou, dotou-se de vida e tornou-se um indivíduo à parte, no momento seguinte é questionada a negligência paterna e como essa negligência pode tornar o amor em ódio. Por outro lado, pode-se criar uma segunda visão de como os filhos destroem a felicidade de seus pais, por serem algo inesperado e do qual ninguem pretende assumir responsabilidade. Um segmento incômodo, mas que deixa abertas as interpretações para quem assiste.

O terceiro segmento se chama Discussão Exaustiva [tradução livre, mais uma vez] e se consiste em duas cabeças que são postas sobre uma mesa, uma de frente para a outra. De suas bocas, saem objetos que se comunham, como por exemplo lápis e apontador, pão e manteiga, sapato e cadarço e escova de dentes e pasta. Porém, quando elas trocam de lugar, essa harmonia se quebra, e elas começam a mandar objetos que não combinando, dando início a um caos que conforme avança, vai destruíndo as duas figuras, até deixá-las lançadas sobre a mesa, totalmente deformadas.

Aqui temos o cineasta abordando a forma como as relações humanas se degradas, tendo um início harmonioso, onde as coisas fluem de maneira pacífica, porém quando todas as possibilidades de interação foram exploradas e os indivíduos se vêem forçados a procurar novos meios, a paz desaba e o caos reina, levando os envolvidos até a completa exaustão, seja ela física ou psicológica.

Como sempre, Svankmajer genial demonstra por meio de figuras que há uma primeira vista parecem meramente surreais uma pesada visão da degradação do ser humano moderno.

Um comentário:

Danilo Cerqueira disse...

Os curtas de Svankmajer são excelentes!!! Poucas vezes vi o cinema numa linguagem tão incisiva e surpreendente.