quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ajami


Ajami é um bairro de Jaffa que tal qual seu próprio nome induz (Ajami vem do árabe Ajamiyya que significa algo como "estrangeiro") é uma terra onde convivem cristãos, judeus e muçulmanos. Ajami faz parte da antiga cidade de Jaffa, cidade portuária israelense e uma das cidades mais antigas do mundo. Antiga cidade, pois em 1950 Jaffa foi incorporada à cidade de Tel Aviv, que passou a se chamar Tel Aviv-Yafo. Mas isso não chegou aos ouvidos de nós, seres ocidentalizados, que continuamos chamando a cidade apenas de Tel Aviv.

Ajami (o filme) é o perfeito retrato de Ajami (o bairro), a começar pelo enredo que narra eventos da vida de moradores da comunidade, passando pelos próprios "atores" que nada mais são do que moradores, que nunca haviam tido qualquer experiência com dramaturgia até o momento e terminando nos diretores, Scandar Copti e Yaron Shani, um palestino nascido e criado em Ajami e um judeu israelita, respectivamente.

Um excelente material na mão, podendo abrir para um complexo estudo sobre o relacionamento entre três grupos sociais tão distintos que são forçados a conviver juntos, mas que é trabalhado de uma maneira extremamente ridícula. As poucas referências lançadas à sociedade de Ajami ficam reduzidas mediante uma supervalorização da violência daquele bairro, como se o filme quisesse ser algum tipo de Cidade de Deus, mas feito por pessoas que não possuem o menor talento na direção se comparadas à Fernando Meirelles.

Exemplo da falta de montagem é a tentativa vergonhosa de realizar algum trabalho mais complexo na parte da montagem. Não contentes em dividir a obra em capítulos, com cada um abordando um problema dos personagens retratados (coisa que funcionou incrivelmente bem), os diretores resolveram também quebrar a linearidade da obra, misturando aleatoriamente os pedaços do filme com algumas sequencias totalmente lineares, deixando a obra absolutamente confusa, como um quebra-cabeça malfeito onde você parece estar montando uma obra de Kandinsky até colocar a última peça e se ver diante de um Rembrandt. Ajami é exatamente assim, apenas após a última peça que o filme faz sentido. E, para piorar ainda mais as coisas, um estilo documental interessante, mas que acaba por fazer a não-linearidade soar totalmente fora de contexto.

E como a cereja do bolo, temos o melodrama dos personagens que só fazem sofrer, seja por conta da mãe prester a morrer, do vizinho assassinado, do filho assassinado, do irmão assassinado ou de qualquer outra tragédia piegas que os acometa. Além de um personagem que aparentemente "prevê" as tragédias ao seu redor, mas que acaba, num lapso de bom senso, tendo um final à altura de sua mediocricidade. Ajami é, como dito anteriormente, um disperdício de material. Uma ótima possibilidade de trabalho jogada no lixo. Um gigantesco cartucho queimado por nada. Não me surpreende ter sido indicado ao Oscar em um ano que também agraciou o tão ruim quanto A Teta Assutada com tal honra. Prova de que cada vez menos, o Oscar pode ser considerado parâmetro de qualidade. Aliás, alguma vez pôde?

2 comentários:

Alyson Xyzyx disse...

Nossa! Num tinha lido nada em relaçao ao filme, que tenho aqui comigo a tempos, mas não tinha parado pra ver e agora deu curiosidade, mesmo que o texto só rebaixe o mesmo.

Abraços!

Jorge disse...

Mentalize que eu estou errado e que você vai provar que eu estou errado, dessa forma você assistirá ao filme procurando as suas qualidades e no final, certamente o considerará uma boa obra, afinal, é sempre melhor assistir à um filme bom do que a um filme ruim.

;)