quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Irreversível



Quando Irreversível foi lançado no Festival de Cannes em 2002, Gaspar Noé era um dos cineastas mais promissores da atualidade. Como hoje você já sabe, ele infelizmente não atendeu às expectativas. Infelizmente...

Nesse filme, escrito pelo próprio Gaspar Noé, temos as personagens de Alex (monica Bellucci), Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel). Pierre e Marcus são melhores amigos. Pierre fora casado com Alex, mas após o divórcio, Marcus passou a namorar Alex. E, surpreendentemente, agora os três são melhores amigos. Um argumento totalmente banal, mas que rendeu um roteiro bom, na medida do possível, com a trama retratada no filme se passando em apenas um dia: o dia em que Alex é estuprada em um tunel de Paris.

Para compensar seu próprio roteiro falho, Gaspar Noé faz um trabalho de direção magnífico, contando a história de trás para frente, brincando com as expectativas do público. Ao mesmo tempo, essa escolha mostra, de certa forma, que na vida, não há esperanças. Nos primeiros minutos, já sabemos tudo o que vai acontecer daí em diante na história, de modo que não temos espaço para torcer pelo sucesso dos personagens.

A fotografia do filme é, inicialmente, nauseante, com a câmera se movendo em um ritmo alucinado, de forma com que não sabemos exatamente o que se passando ao redor, mas com o tempo pega-se o jeito e percebe-se que a própria câmera é um personagem. O tempo todo levada nas mãos, ela acompanha o ritmo do filme, se mostrando calma nos momentos calmos e agitada nos momentos mais agitados. Tudo isso com um tom avermelhado na primeira metade do filme, dando um visual à parte para o submundo de Paris e indicando que a trama está marcada pela cena do estupro, ocorrida em um tunel vermelho.

Durante essa mesma metade pós-estupro, nossos ouvidos são bombardeados por um estilo de trilha sonora composta por ruídos de baixa frequência que estão lá com o único objetivo de desnortear ainda mais o espectador. Uma idéia simplesmente brilhante.

Outra coisa notável no filme é o fato de ele inteiro ser rodado em planos-sequência. Temos longas tomadas de mais de 10 minutos onde não há cortes, com a câmera acompanhando os personagens e reforçando a tese de ela mesma ser um personagem. (não um personagem real, um observador)

Três cenas em especial causaram certo alvoroço no público. As duas primeiras por sua extrema violência. Na primeira, Pierre esmaga a face de La Tenia com um extintor de incêndio. Na segunda, La Tenia estupra Alex e logo em seguida a espanca até deixá-la em coma. Uma cena que chocaria apenas pessoas de estômago extremamente fraco, como as que passam mal nas cenas de violência de Salò, por se tratarem de cenas essas extremamente supervalorizadas, já que a violência do filme de Pasolini não corresponde nem de perto à aura cult que paira sobre o filme. A terceira cena é uma suposta "cena tórrida de sexo" segundo alguns críticos entre os personagens de Vincent Cassel e Monica Bellucci (marido e mulher na vida real) em que eles apenas rolam nus em uma cama. Sinceramente, a impressão que me fica é que as pessoas têm uma noção muito vaga de o que é "ser chocante" e que ainda falta uma obra definitiva sobre esse tema.

Mas, de um modo geral, Irreversível é um filme obrigatório e, certamente, a obra-prima de Gaspar Noé. Um excelente trabalho de direção que compensa a história ruim.

2 comentários:

Leonardo disse...

Ta ai uma coisa que eu nunca consegui entender...Por que as pessoas se impressonam tão facilmente com cenas de violência e de sexo, como se fossem coisas de outro mundo que não deveriam aparecer nos filmes...Em Salo que você citou no final eu pensei: Ta, e onde que estão as cenas chocantes?

Jorge disse...

Haha, eu também pensei isso em Salò. Decepcionante... Agora estou baixando Begotten pra ver se esse é realmente chocante, mas não estou com muitas expectativas...