domingo, 28 de novembro de 2010

Dez

Não existe forma melhor de retratar um ponto de vista complexo, de forma chamativa e elegante, seja ele voltado para um fim social, ou até mesmo político, do que envolver a arte nessa manifestação. De todas as vertentes que o conceito da "arte" pode nos oferecer, notamos que o cinema é um dos veículos que mais ganha importância, no cenário mundial. Partindo desse princípio, o realizador pode transmitir sua mensagem de forma clara, sucinta e instigante, sem precisar de técnicas aprimoradas, e muito menos de um investimento pesado. Abbas Kiarostami, grande nome do cinema iraniano, comprova cada palavra supracitada, em "Dez".

A globalização proporcionou uma troca rápida de informações, que ignora qualquer dificuldade gerada pela distância dos continentes. Com isso, notamos, diariamente, nos jornais, o dia a dia de diversos países, dando destaque para os conflitos que quase sempre estão presentes, seja pela disparidade dos ideais políticos, ou até mesmo por motivos que envolvem diferentes concepções de crenças religiosas. Por mais que as imagens sejam chocantes, o público acaba tendo uma posição passiva, mediante ao fato desses problemas serem corriqueiros, por mais incrível e irônico que seja. É neste exato momento, que a arte entra em campo para dar um tapa na cara das pessoas que assistem a esse confronto pusilânime, sem ao menos esboçar uma preocupação pelo povo que morre, e pelas famílias que sofrem, afinal de contas, o nosso luxo está garantido, todas as manhãs.

"Dez", belíssima produção de Abbas Kiarostami, mesmo não sendo uma obra-prima, consegue transmitir tudo o que o diretor queria passar, principalmente, por atingir o espectador de uma forma que qualquer noticiário, jamais vai conseguir fazer, mesmo abordando aspectos semelhantes. Usando apenas dois enquadramentos, Abbas Kiarostami nos mostra a vida de uma mulher iraniana, e as suas relações, com diversas pessoas, dentro de um carro. A utilização desse único ambiente é proposital, por criar uma proximidade maior entre personagem e espectador. A lente da câmera, usando esse plano fechado, foca apenas no que é fundamental: o ser humano e o seu comportamento.

A intenção de trazer um caráter semelhante a de um documentário, é justificada pela tentativa de estreitar os laços entre a ficção e a realidade, afinal de contas, cada passageiro ilustra uma questão social diferente, que acaba confrontando a personagem principal, que não passa de uma alegoria do universo feminino, numa sociedade preconceituosa e destruidora. Divórcio, prostituição, religião, e submissão, são alguns dos pontos principais, que são apresentados por cada personagem que senta no banco do passageiro. Por vezes, ouvimos o diálogo, mas uma das pessoas não está sendo mostrada pela câmera. O efeito causado por essa técnica faz com que o espectador dê mais valor às palavras, do que à própria imagem. Essa visão intimista defende a mulher, que, frente à sociedade, sempre é julgada pela imagem, e não pelo que ela realmente é.

O desfecho arrebatador demonstra, em apenas uma frase, que a personagem conheceu todos esses fatores antagônicos, e que tudo isso vai se repetir, num ciclo interminável, até a sociedade se conscientizar. O diretor Abbas Kiarostami traz a realidade para o cinema iraniano, que, sem dúvida alguma, vem crescendo muito, nos últimos anos. Num jogo de alegorias e sentimentos pesados, Abbas mostra o verdadeiro lado cruel da sociedade, que não vemos nos noticiários. Não dessa forma. Terrivelmente emocionante.

Com a Maldade na Alma


O irmão mais novo de Baby Jane. Assim podemos considerar esse Com a Maldade na Alma, que conta com diversas semelhanças com o filme de 1962, seja na direção, em sua protagonista (Bette Davis), em seus roteiristas, em seu estilo semi-noir, em seu tema... Mas mesmo com todas as suas qualidades, ainda se trata de um filme menor.

Aqui a história se inicia com o assassinato do noivo de Charlotte (Bette Davis) durante uma festa, cujo corpo é encontrado pela mesma desprovido de sua mão direita e de sua cabeça, que nunca foram encontrados. Quem cometera o assassinato fica como uma incógnita que a polícia não consegue explicar, assim como o paradeiro da mão e da cabeça, que nunca foram encontradas. Vários anos depois, Charlotte continua tracada em sua casa, guardando o "segredo" criado por ela mesma de que seu pai teria sido o assassino. Porém, a construção de uma ponte e de uma estrada levam o estado a desapropriar sua mansão, rompendo assim a frágil estabilidade existente. Para salvar sua casa, Charlotte pede ajuda a um antigo amigo da família, Dr. Drew (Joseph Cotten) e para sua única parente viva, sua prima Mirian (Olivia de Havilland). Com as três figuras a postos, inicia-se o jogo de intrigas que dita o ritmo do filme.

Essa obra de Aldrich se baseia simplesmente em aparências, assim como seu O Que Terá Acontecido a Baby Jane?. Nas duas obras, as coisas não são exatamente o que aparentam ser. Aldrich guia o espectador em um sentido, para num golpe ligeiro, inverter totalmente o sentido a que esse se dirigia, repetindo tal movimento por tantas vezes que deixa o público com uma, por mais estranho que pareça, agradável sensação de estar completamente perdido. Não se sabe o que esperar de nada e ninguém nesse verdadeiro baile de máscaras, onde algumas caem para ser prontamente substituídas por outras.

O elenco mais uma vez está impecável, coisa já habitual nos trabalhos do diretor. A Charlotte de Bette Davis é praticamente uma versão atenuada da própria Baby Jane, visto que essa é também vingativa, impulsiva e infantil. Joseph Cotten e Olivia de Havilland também se mostram bastante íntimos com seus personagens, mas a grande atuação do filme é certamente a de Agnes Mooreheard como a empregada Velma, que com seus trejeitos espalhafatosos e seu carinho por sua patroa, conseguiu uma indicação ao Oscar como coadjuvante. Detalhe também para a ex-musa Mary Astor, que tem aqui seu último papel no cinema como Jewel Mayhew, a inimiga de Charlotte, que tem uma curtíssima participação em apenas duas cenas.

Com um começo colossal em um magnífico trabalho de mise-en-scène, o trabalho se inicia grande, mas perde forças ao se aproximar cada vez mais e mais de Baby Jane, mas sem ter a crítica direta à hipocrisia hollywoodiana que tinha aquele. Com a Maldade na Alma é um Aldrich grande, mas que não consegue deixar claro para o que veio.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Hotel Monterey


A primeira impessão que se tem dessa obra de Chantal Akerman é que el é nada mais que uma evolução de seu trabalho anterior, o curta O Quarto. Se em O Quarto somos levados a um passeio de 10 minutos pela habitação da diretora através de uma única tomada que se consiste, basicamente, em uma câmera fixa no centro do quarto e girando, para mostrar o que há ao seu redor, em Hotel Monterey o quadro se inverte, ao ser esse filme composto de uma série de tomadas de câmera fixa através de um hotel nova-iorquino constituindo assim os 60 minutos de projeção. Em ambos os casos não há trilha sonora, tornando tais ambientes moradas do silêncio.


Durante uma noite, nós, por intermédio da subjetiva câmera de Chantal nos tornamos hóspedes do quarto. Desde o primeiro quadro do filme, onde se vislumbra o interior do hotel por meio de uma janela, até quando em seguida somos levados ao salão do hotel, para assim pegarmos o elevador, no qual passamos mais tempo do que deveríamos, fazendo mais viagens do que o necessário. Aí já temos um vislumbre da inércia a qual nosso "personagem?" está inserido. Após um bom, e desnecessário, tempo no elevador ele conhece seu quarto. Num primeiro momento, vemos o quarto perfeitamente organizado. Logo em seguida, a câmera está fora do lugar, os abajures mudaram de posição é há roupa espalhada pelo chão. O que mais mudou? Agora há uma pessoa em cena. Uma pessoa alterando o ambiente a sua volta, antes harmonioso, agora caótico. Mas a inércia ainda não terminou, e tal pessoa deixa seu quarto para vagar a esmo pelos corredores do hotel, até permanecer parado em frente a uma janela, pelo o que prece ser várias horas, até o dia amanhecer. Após o qual, tal personagem sobe ao telhado e vislumbra toda uma Nova York a despertar.


Que a personagem-chave da obra seja a própria Chantal é explícito. A Chantal recém-chegada à Nova York na qual ela moraria por alguns anos, completamente perdida em sua inocuidade. O mais incrível em relação a isso é a forma com que ela consegue passar tal visão. Não há sons, não há textos. Há apenas imagens, mas essas imagens falam por ela. Assim como ela faria em Jeanne Dielman, onde as imagens reinam quase que absolutamente, aqui ela conta uma história a partir da mera estética. Na realidade, ela não conta a história, ela induz o seu público a captar a história.


E como em todo filme de hotel, há de se ressaltar a frivolidade do ambiente. Vemos pessoas das quais não conhecemos absolutamente nada, nem vamos conhecer. Em um hotel, as pessoas deixar de ter personalidade e se tornam meros objetos decorativos. Pessoas vêm e vão, e nada, nunca acontece.

Repulsa ao Sexo

Depois de receber boas críticas pela sua primeira produção, "A Faca na Água", o diretor Roman Polanski decide sair da Polônia, por motivos políticos, e vai até a Inglaterra, onde produz o primeiro filme da antológica "Trilogia do Apartamento". Formada por "Repulsa ao Sexo", "O Bebê de Rosemary" e "O Inquilino", a trilogia é extremamente reconhecida, dentro dos gêneros suspense/terror, principalmente, pela forma que o diretor perturba o espectador. No primeiro filme, "Repulsa ao Sexo", notamos a direção precisa e contundente do Polanski. Roteiro, atuação, fotografia, trilha sonora, enfim...todos os quesitos são bem trabalhados, e o produto não poderia ser outro, a não ser: sensacional. Deixando de lado os serial killers, fantasmas, espíritos, entre outros coadjuvantes que são responsáveis por acrescentar os traços do gênero na produção, Polanski nos entrega outra fonte de pavor: a degradação psicológica.

Ainda considerado como um dos grandes filmes da sua filmografia, "Repulsa ao Sexo" consegue atordoar o espectador, ao mesmo tempo em que o atrai, cada vez mais, até o desfecho. A premissa se baseia na vida de Carol Ledoux (Catherine Deneuve), uma inocente menina que vive com a irmã, num apartamento, e que trabalha num salão de beleza perto de onde mora. No entanto, a dependência da irmã é colocada em risco, quando a mesma tem que viajar, e, por conseguinte, deixar Carol sozinha, por dias. Aos poucos, a inocente menina vai descobrindo outro lado da sua personalidade. Um lado extremamente obscuro, que vai trazer sensações e reações que ela nunca imaginou, dando destaque para a alucinação sem controle. De fato, uma viagem insana pela mente da protagonista, que resultou em um dos melhores filmes de terror psicológico, que já fizeram.

Com um roteiro que consegue caminhar fora do convencional, Roman Polanski explora, de ponto a ponto, os traços que o enredo oferece. O primeiro ato, mesmo sendo lento, é fundamental para mostrar ao espectador, o caráter de cada personagem, e o modo no qual eles se comportam. A inocência de Carol Ledoux, brilhantemente interpretada pela Catherine Deneuve, é o ponto principal da trama. A protagonista representa a perfeição. Não tem relações amorosas, é perfeccionista, é correta, e, além disso, é muito bela, fisicamente. Não vemos defeito algum nela, durante o primeiro ato, e isso é brilhantemente programado pelo diretor, para o decorrer do desenvolvimento. Aos poucos, Polanski vai insinuando a degradação da personagem perfeita, a partir da essência sexual, de diversas formas possíveis. Quando Carol ouve sua irmã transando, a câmera se aproxima e foca no seu olhar. O olho é a janela da alma, e o enquadramento demonstra que a personagem fica inquieta, mediante à situação que a constrange. É a pureza lutando contra o desejo.

Os takes curtos vão passando, e aos poucos, a face obscura de Carol começa a ser predominante. E justamente nesse ápice, que o trabalho de câmera é miraculoso. Além das diversas passagens subliminares, as lentes das câmeras registram, de perto, as alucinações da protagonista. Essa proximidade é extremamente proposital, e traz um efeito claustrofóbico, devido à limitação do enquadramento. Além disso, quando ela entra nesse estado de transe, Polanski faz questão de retirar a trilha sonora e deixa apenas o badalar dos sinos, ou o barulho do ponteiro do relógio. Enquanto Carol se contorce pelos impulsos sexuais, o espectador fica extremamente perturbado pela atmosfera criada. Imagem e som, causando um efeito surreal.

Voltando para a outra parte da produção, a fotografia do Gilbert Taylor, que chegou a receber uma indicação no BAFTA, cria uma estética deslumbrante. Não digo isso apenas pelo fato de ser preto e branco, mas sim, pela utilização da iluminação em certas cenas, além de outras representações dignas dos elogios recebidos. As rachaduras nas paredes, as mãos saindo por todos os lados, ilustrando o desejo que tenta se aproximar de Carol, demonstram um trabalho consciente do diretor, em transformar um simples apartamento, num local onde o pecado fala mais alto. Juntamente com a fotografia, temos o belo trabalho do Chico Hamilton, com a trilha sonora. Gradativamente, a melodia suave vai se transformando em notas pesadas, que ilustram, em boa parte do filme, a mudança da protagonista, frente ao que acontecia.

Um trabalho surpreendente. O diretor domina cada quesito, e consegue fazer com que cada um tenha um valor primordial sob o outro. Perturbador, intenso e envolvente. É difícil não ficar boquiaberto, frente ao produto de alto nível. Polanski começa muito bem a "Trilogia do Apartamento", e já demonstrava que não era um diretor qualquer. Singularidade e Roman Polanski caminham lado a lado.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Religulous




Infortunadamente, em nossa sociedade as ditas "minorias" tendem a sofrer preconceito. Mulheres, judeus, negros, homossexuais... Mas acima de todos esses, existe uma minoria que sofre com o preconceito acima de todas as outras: os ateus. As pessoas crêntes em uma divindade superior tendem a se sentirem particularmente ofendidas com a existência de ateus, algo como "como ele ousa duvidar de algo que EU sei que existe?". Todo ateu tem alguma história em relação à preconceito sofrido por sua condição "religiosa".

Bill Maher é um ateu radicado. Tal como Richard Dawkinsn ele acredita que a maior desgraça que já recaiu sobre o ser humano é a religião. Todos hão de concordar que se, subitamente, todas as religiões desaparecessem, muitas guerras iriam perder completamente o sentido. É nesse ponto que o documentário tenta chegar.

Religulous é um filme de propaganda. Da mesma forma que Leni Riefenstahl fez O Triumfo da Vontade para propagar as idéias nazistas e Walt Disney fez A Face do Fuehrer para propagar as idéias anti-nazistas, Larry Charles faz Religulous para propagar as idéias ateístas. E isso é feito por meio do diálogo entre Bill Maher e diversos líderes religiosos, diálogos esses que tem como objetivo mostrar o quão ridícula e irracional é a crença no sobrenatural. É um filme extremamente ofensivo, pricipalmente se você for um cristão, ou muçulmano, ou judeu, ou... ou se você seguir qualquer religião.

Os diálogos do filme são típicos de discussão de boteco. Certamente você já se viu em meio a discussão entre ateus e teístas, com cada um tentando provar seu ponto de vista. É exatamente esse tipo de discussão na qual o filme se foca, ele tenta fazer a mente do espectador e convertê-lo ao ateísmo.

Na parte técnica, o documentário se destaca pela montagem. Legendas são inseridas em meio aos diálogos para complementá-los, sempre de forma brilhante. Da mesma forma, trechos de filmes são inseridos para exemplificar o que se é dito (ou para apenas se fazer graça), graça essa que você provavelmente não gostará caso você não for um ateu.

Durante todo o filme temos a impressão de que ele não tem sentido. Qual seria o público-alvo da obra? Ateus? Mas eles já compartilham do ponto de vista, não precisam ser convencidos de nada. Teístas? Seria no mínimo bizarro alguém se converter graças a um filme que visa ofendê-lo particularmente. Mas o público-alvo do filme é basicamente o teísta infeliz de sua condição, aquela pessoa que crê em uma divindade mais por comodidade do que por qualquer outra coisa. O objetivo do filme é exatamente mostrar a essa pessoa que ela não está errada em seus pensamentos e que o ateísmo é sim uma via a seguir.

Outro objetivo paralelo da obra é estimular a união entre os ateus, visto que muitos têm vergonha de assumir sua condição. Um claro filme de propaganda, que tem seus inúmeros defeitos, mas que acerta em sua montagem e em seu humor.

Ascensor para o Cadafalso

Grande parte dos amantes da sétima arte sabe que o cinema francês passou por um período extremamente conturbado, durante e após o término da Segunda Guerra Mundial. No entanto, o que se encontrava em um péssimo estado, conseguiu se reerguer de forma magistral. Em meados da década de 60, jovens críticos de uma revista, se organizaram para mudar a concepção do cinema francês, que desagradava os conterrâneos. Eis que surge a Nouvelle Vague francesa, um dos principais movimentos do cinema mundial. Os grandes pioneiros: Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, François Truffaut, entre outros, produziram grandes obras, que buscavam a fuga dos aspectos do cinema comercial. No entanto, como toda obra, temos os protagonistas e os coadjuvantes. Bem menos reconhecido que os realizadores supracitados, temos Louis Malle, um diretor que produziu o seu primeiro filme no ano de 1958, chamado "Ascensor para o Cadafalso". De fato, sua estreia passou bem despercebida, comparada com o alvoroço causado pelos primeiros filmes de Godard e Truffaut, "Acossado" e "Os Incompreendidos", respectivamente.

"Ascensor para o Cadafalso" não é apenas um noir que funciona muito bem, mas é, também, um dos filmes que mais faz relação com as características peculiares da Nouvelle Vague francesa. As lentes da câmera de Malle estão focadas nos jovens. Os mesmos têm atitudes impensadas, e em momento algum, temem as consequências. Tudo na vida de um jovem é mais divertido, quando ele corre algum tipo de risco. Viver loucamente, desafiar os limites, e sempre experimentar coisas novas. É com base nessa questão, que, "Ascensor para o Cadafalso" retrata, por meio dos personagens mais novos, a ousadia dos pioneiros do movimento supracitado. Belíssima relação com a Nouvelle Vague. Pode ter passado despercebido, mas, sem dúvida alguma, "Ascensor para o Cadafalso" é um filme sensacional, que não se restringe apenas aos requisitos básicos do gênero.

A premissa consiste num possível plano perfeito, elaborado por um casal - Jeanne Moreau e Maurice Ronet - que visa matar o dono de uma empresa. No entanto, o que havia sido planejado com muita precaução, acaba dando errado, quando dois jovens - Georges Poujouly e Yori Bertin - acabam atrapalhando uma das etapas do plano. O que seria um crime perfeito, acaba virando uma confusão indescritível. Resta agora saber as proporções que essa intervenção causou, e, obviamente, quem vai receber a culpa por todo esse alvoroço. O elenco agrada pelas atuações, dando destaque para a interpretação de Jeanne Moreau com os seus belíssimos diálogos. Em certos takes, a atriz caminha pelas ruas, ao som de uma ótima trilha sonora, sendo uma das grandes cenas marcantes da produção.

Louis Malle dirige, com precisão, os estragos do efeito dominó presente no filme, resultando num produto tão bom quanto os outros que surgiriam, anos depois. O roteiro não falha, e todas as cenas são muito bem organizadas, entregando, de pouco em pouco, as pistas para os personagens. Como sabemos, muitos filmes entregam a resposta para o espectador, desde o começo, entretanto, isso não faz com que a atmosfera noir seja prejudicada, muito pelo contrário. O espectador, que segue de cúmplice, acaba sendo surpreendido com o belo desfecho, mesmo achando que sempre esteve no controle da produção. Justamente nesses momentos, que percebemos o trabalho consciente do diretor. Louis Malle desliza a câmera com perfeição, sempre encontrando os melhores enquadramentos. Estreante? Definitivamente, não parece.

Para acompanhar o desenvolvimento da trama, somos presenteados com um agradável banquete visual e sonoro. Henri Decaë entrega uma belíssima fotografia para o filme. Nos takes noturnos, notamos a beleza dos ambientes urbanos, principalmente nas longas avenidas que costumam aparecer em boa parte dos filmes da Nouvelle Vague. São ambientes típicos, que realçam a formosura do país. Antes de falar sobre o próximo aspecto, gostaria de deixar bem claro que prefiro apreciar mais a fotografia, do que a trilha sonora. No entanto, temos Miles Davis cuidando desse quesíto, ou seja, o trabalho vai além das expectativas. São poucos os filmes que conseguem balancear tão bem a imagem e o som. "Ascensor para o Cadafalso" não foi feito sem ambição, de forma alguma. Agradável em tudo.

A fase decadente do cinema francês foi superada pelos jovens cineastas. Louis Malle pode não ter recebido o mesmo crédito que os outros realizadores supracitados, entretanto, um estreante que dirige um filme como "Ascensor para o Cadafalso", definitivamente, merece o nosso respeito.

Demência 13

Francis Ford Coppola, diretor de obras memoráveis, como por exemplo: a trilogia de "O Poderoso Chefão", o caótico "Apocalypse Now", e, talvez, o menos comentado de todos, mas ainda assim brilhante, "A Conversação", começa a sua filmografia com um gênero que, até então, só tornou a repetir a dose, na adaptação do famoso romance de Bram Stoker. No ano de 1963, o americano dirigiu "Demência 13" - lembrando que o número "13" foi acrescentado, apenas para diferenciar a obra de Coppola, da obra de John Parker, realizada em 1955 - um slasher B de curta duração, em torno de 75 minutos, que conta com o lendário Roger Corman, na produção do seu primeiro filme. De fato, não foi uma estréia que já demonstrava o que estava por vir, mas ainda assim, é interessante notar o comportamento do diretor em sua primeira viagem.

É impossível comentar sobre o nascimento desse grande diretor, sem tocar no nome de Roger Corman. Quando Coppola estudou cinema na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ele chegou a dirigir diversos curtas-metragens, mas nada muito chamativo. Anos depois, começou a trabalhar com um dos grandes nomes do Cinema B, que já foi citado anteriormente, escrevendo roteiros e até mesmo operando nas suas produções. Corman abriu as portas para Coppola, tendo um papel de padrinho, no começo da sua jornada no mundo da sétima arte. "Demência 13" chega a resgatar alguns aspectos das produções da época, como por exemplo: pequena duração, elenco desconhecido, e a típica violência gráfica, mas ainda com doses acentuadas.

O enredo se baseia numa maldição que assombra o castelo Haloran, palco de acontecimentos inexplicáveis, e moradia de uma nobre família irlandesa. Depois da morte de Kathleen, uma jovem menina que se afogou no lago do castelo, enquanto brincava com o seu irmão, a vida deles nunca mais foi a mesma. Todos os anos, sua mãe e seus irmãos seu reúnem para celebrar essa triste data, entretanto, por já ser mais velha, a matriarca acaba desenvolvendo alguns problemas psicológicos. O que não passava de mais uma celebração rotineira, acaba virando um caos indescritível para a família. Um assassino está à solta, no castelo, mas ninguém sabe o que ele realmente quer.

Coppola demonstra que sabe trabalhar com os gêneros suspense/terror, mesmo demorando um bom tempo para engrenar num ritmo compatível, mediante ao fato da lentidão do primeiro ato. O diretor utiliza de uma fotografia escura e uma trilha sonora pesada, para enriquecer a atmosfera lúgubre dos takes. Sem dúvida alguma, um aspecto que veio do aprendizado com Roger Corman. No entanto, podemos notar certo despreparo na montagem. Por vezes, certos takes desnecessários, que antecedem o ápice do suspense, acabam prejudicando extremamente, o efeito desejado.

Se por um lado Coppola peca em certas cenas, por outro, ele consegue melhorar o nível da produção de forma incomparável. A oscilação é nítida, e acaba prejudicando o produto final. Alguns momentos positivos estão associados aos trechos em que os diálogos e as atuações têm uma combinação extremamente agradável. Quando Billy - Bart Patton - comenta com Kane - Mary Mitchel - sobre o seu sonho, e começa a descrevê-lo, o espectador chega a sentir um desconforto prazeroso. É uma pena que Coppola dirigiu "Demência 13" tão cedo, afinal de contas, imagino que teríamos uma obra-prima em mãos, caso ele tivesse produzido depois do seu memorável amadurecimento cinematográfico.

Outro aspecto extremamente interessante, que demonstra a influência de grandes diretores nas obras de Coppola, é a utilização do MacGuffin, conceito que estava presente em boa parte dos filmes de Alfred Hitchcock. O MacGuffin consiste num objeto que serve de pretexto para dar andamento ao filme, tendo papel coadjuvante, com o passar do tempo. Em "Psicose", o dinheiro roubado é o MacGuffin, que só serve para levar a personagem de Janet Leigh, até o hotel dos Bates. No caso de "Demência 13", o objeto em questão é o testamento da família, que interessa a personagem de Luana Anders. No decorrer do filme, esse assunto é soterrado, frente ao mistério que circunda o castelo de Haloran. Alfred Hitchcock já era extremamente reconhecido, e Coppola foi um dos diversos diretores que se inspiraram em suas obras-primas.

Com um roteiro bem mediano, que acaba prejudicado pela duração, Coppola dá inicio à sua filmografia, demonstrando o seu aprendizado, e as influências dentro do seu cinema. Como foi dito anteriormente, o filme oscila e não dá espaço para um desenvolvimento mais detalhado, que, de fato, ajudaria muito no produto final. Uma estréia morna que não demonstrava uma ascensão tão significativa. Coppola acertou no cinema, quando decidiu expor o seu talento, em vez de ficar submisso aos mestres que o rodeavam. Nós agradecemos por isso.

Oscar de melhor filme para Toy Story 3. Será?



Pelo menos é o que querem a Disney e a Pixar. A animação que tem o recorde de bilheteria em 2010 ($ 1.062.806.932 segundo o IMDB) vem sendo muito elogiada. Com o Oscar de animação e a indicação a melhor filme praticamente garantidas, os produtores querem mais. Foi lançada uma campanha publicitária para colocar Toy Story 3 na briga pelo Oscar de melhor filme. (Para a academia apenas qualidade não basta, e a publicidade deve ajudar muito). E as chances são grandes, já que apenas “A Origem” de Christopher Nolan se compara em qualidade. Nessa campanha serão feitos cartazes do filme fazendo referências a produções que já venceram o Oscar. Aqui podemos conferir os cartazes de “Shakespeare Apaixonado” e “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”. Serão feitos ainda cartazes de “O Silêncio dos Inocentes”, “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, “Amor Sublime Amor”, “Sindicato de Ladrões”, “O Poderoso Chefão Parte 2” e “Titanic”.



No ano passado “UP – Altas aventuras” conseguiu sua indicação para melhor filme, e nesse ano a Pixar espera vencer. Criatividade é o que não falta para a Pixar, que demonstrou que um campeão de bilheterias pode ser também um excelente filme. Uma obra prima em meio à falta de criatividade do cinema atual. Toy Story 3 já entrou para a história com a maior bilheteria de animações, será que vai entrar para história também como o primeiro filme de animação a vencer o Oscar de melhor filme? É esperar para ver (eu ficaria muito feliz com isso).

Os Quatro Heróis do Texas


Ao contrário do que possa parecer, esse não é um filme de Robert Aldrich. Na realidade, esse é um filme do Rat Pack dirigido por Robert Aldrich. Ou, caso você prefira, digamos que é um filme do Aldrich feito sob encomenda. Escolhido muito provavelmente por ser uma peça de faroeste, gênero que consagrou o diretor mesmo não sendo o tema da maioria de seus filmes, Aldrich consegue, mesmo sob o controle do grupo financiado pela máfia italiana, colocar seu estilo em alguns momentos, sobretudo na sencaciona abertura onde acompanhamos Frank Sinatra e Dean Martin primeiro juntos, combatendo o bando liderado pelo ilustre Charles Bronson, e em seguida sozinhos, lutando um contra o outro em meio ao nada. Esse é o primeiro e único momento em que reina o estilo Aldrich de cinema. Daí pra frente o filme se mostra a típica mistura de ação e comédia que caracteriza os filmes do Rat Pack, com direito até mesmo a uma participação especial dos Três Patetas, em sua terceira formação.

Para aqueles que não sabem, o Rat Pack foi um grupo de atores muito popular entre os anos 50 e 60, cuja formação mais clássica contava com Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop e pelo qual também passaram as mulheres Shirley MacLaine, Lauren Bacall e Judy Garland. O filme mais significativo do grupo acabou sendo Onze Homens e um Segredo, de 1960 e dirigido po Lewis Milestone. Aqui, nesse Os Quatro Heróis do Texas, o grupo está reduzido apenas a Sinatra e Martin, mas mesmo assim domina inteiramente o filme.

Século 19, poucos anos após o término da guerra civíl, palco tradicional da grande maioria dos farostes. No árido Texas, Joe Jarrett (Dean Martin), passageiro em uma diligência que transporta cem mil dólares para serem depositados pela Ferrovia em um banco na cidade de Galveston, Texas, conhece Zack Thomas (Frank Sinatra) que também estava diligência, só que como como segurança. Porém,, a diligência acaba sendo atacada pelo bando de Matson (Charles Bronson), um pistoleiro cruel. Matson, contratadado pelo dono do próprio banco, Harvey Burden (Victor Buono), acaba sendo infeliz em sua missão, deixando Jarret e Zack disputando a posse da grana. Jarret consegue passar a perna em Zack, mas acaba indo até Galveston para depositar o dinheiro em uma conta no seu nome no mesmo banco a que ele iria pertencer, o banco de Harvey Burden. Acontece que Zack Thomas é que controla toda a cidade, e com a chegada de Jarrett seu monopólio se vê ameaçado, afinal, ele passa a investir no mesmo negócio que ele queria, um cassino em uma barcaça de rio.

Uma curiosidade sobre o filme é que o mesmo deveria ser o primeiro filme de Hollywood a possuir uma cena de nudez, no caso, a nudez das atrizes Anita Akenberg e Ursula Andress. Porém, por conta da censura imposta pelo estúdio quando da montagem do filme, tais cenas acabaram excluídas da versão final da obra. Mesmo assim, tal obra esbanja sensualidade, sobretudo nos decotes ousadíssimos usados pela própria Akenberg durante quase todo o filme.

Os Quatro Heróis do Texas é um filme totalmente artificial e simples, do qual não se há muito sobre o que dizer. Um mero exemplo de entretenimento se sobrepondo à arte. Este foi o primeiro faroeste que contou com a participação de Frank Sinatra, e também o último, visto que o mesmo deve ter percebido que esse não era bem seu território. Se em seu filme anterior, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Aldrich critica Hollywood, chamando-a de hipócrita, aqui a mesma se vinga dele, mostrando como se faz para retirar a liberdade artística de um diretor.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Que Terá Acontecido a Baby Jane?


A obra-prima de Robert Aldrich. O ápice de sua carreira. A convergência de todo o seu talento. Todo diretor tem sua obra máxima e no caso de Aldrich tal obra veio no ano de 1962, nove anos após o início de sua carreira de diretor. O Que Terá Acontecido a Baby Jane? é a evolução de Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Se no filme de 1950 havia uma crítica ao ostracismo que recai sobre os ídolos do passado, tal qual ocorrera com Norma Desmond, aqui essa crítica atinge um outro patamar, evidenciando a forma com que o esquecimento corrói e degride a consciência do indivíduo, através da figura de Jane Hudson. Ou melhor dizendo, de Baby Jane.

O ano é 1917. Baby Jane é uma jovem atriz de vaudeville aos moldes de Shirley Temple. Seu sucesso a torna a filha predileta de seu pai, que não ousa em demonstrar que prefere ela à sua outra filha, a jovem Blanche Hudson. A mãe, mais consciente, faz a jovem Blanche prometer que quando ela for a irmã famosa, coisa que viria a ocorrer, não trataria sua irmã ou seu pai da mesma forma que eles a tratam hoje. Agora vamos para 1935, quando Blanche Hudson é uma talentosa e prestigiada atriz de Hollywood, que consegue vários papéis por ano e coisas do tipo, mas uma cláusula em seu contrato exige que a cada filme feito com Blanche, um filme deveria ser feito com Jane, coisa que não muito agrada ao estúdio, visto que a ex-atriz-mirim agora não tem o mesmo prestígio que tinha em sua infância. Porém, em um fatídico dia, ao término de uma festa e ao voltarem para a casa comprada por Blanche e que pertencera ao astro Rodolfo Valentino, Jane atropela Blanche enquanto essa abre o portão, deixando-a paraplégica, presa em uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida. E é aí que a história realmente começa.

Jane, interpretada por Bette Davis, e Blanche, interpretada por Joan Crowford, se odeiam tal qual suas intérpretes. Na realidade, boa parte da naturalidade vista do ódio existente entre Jane e Blanche vem do mesmo sentimento que há entre Davis e Crawford. Em uma das cenas, Bette Davis realmente chuta a cabeça de Joan Crawford, que acaba necessitando de curativos. Em resposta, Crawford coloca pesos no bolso para uma cena em que Bette Davis a arrasta, causando um estiramento nas costas dessa. Como Joan Crawford era casada com um dos executivos da Pepsi e inclusive ela mesma possuía um cargo de chefia na empresa, Bette Davis exigiu que fossem instaladas máquinas de refrigerante (da coca-cola, óbvio) por todo o set. Quando anunciada a lista de indicados ao Oscar, o nome de Bette Davis estava entre as nomeadas para a estatueta de Melhor Atriz enquanto o de Joan Crawford não, o que levou essa a iniciar uma árdua campanha contra a vitória da primeiar e que terminou com Joan Crawford subindo ao palco para receber a estatueta de Melhor Atriz no lugar da vencedora Anne Bancroft por O Milagre de Anne Sullivan. Histórias como essas ajudam a dar um ar quase que idolatrável ao filme, além de ampliar as excepcionais atuações dessas duas lendas do cinema.

Enquanto o ódio de Joan e Bette é desmotivado, o de Jane e Blanche tem motivos bem claros. Blanche não gosta de Jane pela forma como essa a tratara e ainda trata, Jane não gosta de Blanche pois sente que a irmã usou o prestígio que ela conseguira na infância para alavancar sua carreira até ultrapassá-la. Blanche não gosta de Jane pois essa teria tirado toda sua liberdade ao deixá-la paraplégica. Jane não gosta de Blanche pois essa teria tirado toda sua liberdade ao ficar paraplégica. Nesse ambiente pesado e conturbado, Aldrich ainda consegue inserir outros personagens, tão bizarros quanto os protagonistas, na trama (coisa recorrente nos seus filmes, a inserção de personagens no decorrer da história. Maidie Norman como a empregada Elvira, amiga de Blanche e Victor Buono como o pianista Edwin Flagg, papel que lhe rendera uma indicação ao Oscar como coadjuvante, são os mais notáveis.

Como em todo filme de Aldrich, não pode faltar o final surpresa. Elemento esse usado e abusado nos filmes modernos, mas ao contrário desses, onde a surpresa é fazer uma brincadeirinha com o espectador, rindo do mesmo ao jogar dezenas de elementos que indiquem esse final e ele não perceber, no filme de Adrich, a surpresa está em contradizer tudo o que o sempre foi afirmado e ratificado, demonstrando que nada, absolutamente nada é o que parece ser, e que os conceitos de bem ou mal são meramente vagos. Se o filme construiu toda uma índole maniqueísta durante seus primeiros 120 minutos de projeção, é nos 10 minutos finais que ele se redime, mostrando que até mesmo ele não era o que parecia ser.

Há duas evoluções que ocorrem em paralelo na trama. A primeira, é a lenta e gradativa evolução da violencia, que inicia como um simples desgostar e que após aguns dias se transforma numa verdadeira tortura física. A segunda é a evolução da insanidade de Jane Hudson. Muito provavelmente é o agravar desse segundo elemento que motiva o agravar do primeiro, mas tal qual tudo nessa obra, não podemos afirmar isso com plena certeza. Aldrich em meio a isso consegue manter perfeitamente a ordem evitando que o filme se torne um suspense sanguinário, coisa para o qual pende, para se manter em um terror psicológico, ampliando e muito o nível artístico da obra.

Aldrich não se contenta em mostrar, ele quer explicar exatamente tudo o que está acontecendo. Nenhum ato de Jane contra Blanche é infundado. Tudo o que uma irmã faz para a outra tem um motivo claro e detalhado. Essa obsessão (positiva) de esclarecer o que ocorre chega ao seu ápice com a personagem de Flagg, que mesmo tendo sua primeira aparição na metade do filme, tem todo o seu passado, sua vida e sua personalidade perfeitamente trabalhados por meio de diálogos que revelam todo o necessário sem cair na banalidade. Uma aula de como se passar informações que muitos cineastas modernos precisam aprender.

Embora as atrizes devessem lutar de igual a igual, fica clara a forma com que Bette Davis engole Joan Crawford nesse filme. Sua presença, seu timbre de voz, suas nuances, tudo nessa atriz exala superioridade e magnificência. Bette Davis demonstra ser uma das melhores, se não a melhor, das atrizes que Hollywood já viu. Sua Baby Jane não é sádica, ela é apenas uma criança num corpo de senhora, que faz as coisas por impulso e em seguida se arrepende. Sua infantilidade é tão extrema que se torna aterrorizante. E Davis consegue captar isso e transmitir para o espectador de maneira invejável.

Filmes desse tipo não se vêem mais atualmente. Quase nenhum diretor nos dias atuais prefere trocar baldes (ou até mesmo caminhões-pipa) de sangue artificial por um "mero" terror psicológico. Muitos espectadores, mais afoitos, também trocariam um filme mais profundo por uma mera diversão. Em 1962, Robert Aldrich já criticava e quase que profetizava o fim de Hollywood, que cairia diante de sua própria hipocrisia, e nos tempos atuais cada vez mais vemos esse fim, ou pelo menos o fim da qualidade, por assim dizer, se aproximando de nós. E mediante isso tudo, resta apenas uma pergunta a se fazer: O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Curta-Metragem de Animação - Oscar 1932

Todo mundo adora os Curtas de Animação. Embora seja a mais democrática das categorias do Oscar, por indicar e premiar produções sem distinção de nacionalidade e por ter boa parte de seus títulos disponíveis gratuitamente no youtube até mesmo antes da premiação, é uma das menos populares, com muitas pessoas até mesmo desconhecendo o mercado de curta-metragens animados ou conhecendo muito pouco. Para difundir mais tal categoria, pretendo aqui lançar análises curtas de, num primeiro momento, todos os indicados na categoria, em todos os anos. Claro que alguns desses títulos são mais raros e certamente não estarão disponíveis na rede. Nesses casos, ao invés de uma ligeira resenha, fica uma breve sinopse e algumas outras coisas que eu encontrar sobre o mesmo.

A categoria de Curta-Metragem de Animação surgiu somente na quinta edição do Oscar, realizada em 1932 sob o nome de Short Subjects (Cartoons). Naquele ano já se iniciava a hegemonia de Walt Disney na categoria, coisa que perduraria por um longo tempo. Mas vale ressaltar que Walt Disney não dirigia seus filmes. Todas as suas indicações foram como produtor. E essas indicações não foram poucas. Apenas nesse ano foram duas, que viriam a se juntar às outras 57 indicações que ele viria a receber. Nesse ano também ele recebeu sua primeira estatueta. Primeira das 22 que ele ganhou em sua carreira. Com três indicados na categoria na época, a terceira indicação acabou ficando com a Warner Bros. E os indicados acompanhados de suas respectivas resenhas seguem abaixo:


Flores e Árvores

Lançado a 30 de julho de 1932 pela United Artists logo antes de Mentiras da Vida com Clark Gable e Norma Shearer no Grauman's Chinese Theater, Flowers and Trees foi não somente o primeiro curta-metragem animado a vencer o Oscar como também a primeira produção inteiramente feita a cores a ser distribuída comercialmente. Inicialmente o filme deveria ser feito em preto-e-branco, mas após Disney ver os testes de Herbert Calmus no recém-criado sistema Technicolor, ele decidiu que Flowers and Trees seria uma perfeita primeira experiência no formato. Esse curta é um legítimo exemplar da série Silly Simphony, uma série de 75 curtas que durou de 1929 a 1939, sendo esse o exemplar de número 29. A partir de então, todos os Silly Simphonies lançados posteriormente mantiveram o esquema a cores.

O enredo é totalmente simples, a primavera começa em um bosque com os pássaros a cantar, as flores a desabrochar e os cogumelos a crescer. Nesse cenário paradisíaco, uma "árvore-macho" se apaixona e conquista uma "árvore-fêmea", porém, uma terceira árvore, de aspecto petrificado, acaba por invejar tal relação e se opõe aos dois. Em uma briga entre as árvores, a floresta acaba entrando em chamas e pássaros e flores começam a combater o incêndio. A simplicidade da trama é compensada por uma beleza ilídica com que a história é contada, em um ambiente irreal, mas de um esplendor estonteante. Como em quase todas as histórias da Disney, o maniqueísmo aqui é tão forte que chega a ser quase que incômodo, e também há um requinte de sadismo, típico do entre-guerras, que faria com que certas passagens, nos dias atuais, seriam vistas com maus olhos e tornariam o filme uma vítima da dita "classificação indicativa", como nos momentos em que a árvore antagonista, após uma queda, aparenta ter morrido e toca-se uma marcha fúnebre ao fundo, ou então quando ela realmente morre e os abutres passam a rondar seu cadáver. Coisas desse tipo, que eram recorrentes nos curtas da época, hoje iriam causar um impacto negativo naqueles mais, digamos, "conservadores?".


Mickey's Orphans

Primeiro curta da série estrelada por Mickey a ser indicado ao Oscar conta a história (em preto-e-branco) de uma noite de natal em que Mickey, dublado pelo próprio Walt Disney, Minnie e Pluto encontram na porta de sua casa uma cesta, deixada por uma velha senhora, na qual encontram-se alguns gatinhos órfãos. Dezenas deles, na realidade. A simplicidade aqui é evidente, seja no roteiro comum, seja nas técnicas de redução de custo, usadas por Disney e que futuramente também seriam utilizados nos desenhos da Hanna-Barbera, sobretudo nos da série Jambo e Ruivão, que são a reutilização de cenários e a repetição de quadros. Para tanto, basta fazer os personagens em paralelo aos cenários e posteriormente sobrepôr-los e utilizar bastante de movimentos repetitivos, onde uma mesma sequencia de frames pode ser reutilizada várias vezes. Embora não pareça, isso represent uma economia grande, que em um curta de 7 minutos, pode chegar a 25% da obra. Também há o mesmo estilo de sincronia entre ação e trilha sonora de O Vapor Willie, o primeiro trabalho sonoro da Disney. Mickey's Orphans, ou Os Órfãos de Mickey, é um daqueles típicos curtas que você devia costumar assistir quando criança nas manhãs de domingo, só que com o diferencial de ele ser preto-e-branco.


It's Got me Again

Pra encerrar os indicados, nada mais justo que um curta da clássica Merrie Melodies. Nessa história também totalmente simples que rendeu uma indicação ao Oscar para Leon Schlensinger, produtor que viria a receber outras 5 indicações para o prêmio. Aqui, a história fala sobre uma casa, onde 15 minutos após a meia-noite, os ratos saem de suas tocas e começam a baderna, até despertarem a atenção de um gato, que investe contra eles, mas que termina sendo expulso da casa a tiros de agulha de toca-discos e a queimaduras com um maçarico, mais uma vez a crueldade do entre-guerras reinando. Com um estilo quase que idêntico ao da Disney, esse curta lembra em muitos aspectos, e muito provavelmente o influenciou, os desenhos de Tom e Jerry, seja pelos personagens, seja pelos requintes de sadismo. Feito inteiramente em preto-e-branco e lançado a 13 de Maio de 1932, seu título se deve à canção homônima de Bernice Petkere e Irving Caesar que toca no início do curta.

O Último Pôr-do-Sol



Após duas trocas de gênero, passando de Faroeste para Noir e de Noir para Guerra, Robert Adrich retorna para o gênero que deu início à sua carreira com esse faroeste, onde ele troca a figura de Burt Lancaster pela épica carranca de Kirk Douglas. Sete anos após o sucesso de Vera Cruz, é lançado esse O Último Pôr-do-Sol cujos sucesso e qualidade em nada se equiparam ao de Vera Cruz. Com uma trama em certos pontos até que semelhante com a do filme de 1954, porém com um roteiro muito mais artificial e frágil do que o daquele.

Dessa vez temos a figura do caubói Brendan O'Malley (Kirk Douglas) que chega ao casa dos Breckenridge, onde vivem Belle (Dorothy Malone) e seu marido beberrão John (Joseph Cotten). Belle, um antigo amor de Brendan, está se preparando para iniciar uma jornada junto de seu marido para conduzir o gado até o Texas. No rastro O'Malley está o xerife Dana Tribling (Rock Hudson), que tem algumas razões de cunho pessoal para capturá-lo. Ambos se juntam ao casal em sua jornada, mas a situação complica quando aumenta o interesse de Dana por Belle e de Brendan pela jovem Melissa (Carol Lynley), filha de Belle.

Assim como em Vera Cruz, a maior parte da trama aqui se desenvolve em meio à uma jornada através do deserto do México, no qual os personagens vão se descobrindo e um leque de relações vai se abrindo. Porém, como dito anteriormente, o roteiro apresenta uma superficialidade incômoda e alguns buracos nos quais as atitudes dos personagens, totalmente divergentes da situação na qual estão inseridos, parece apenas cooperar para o desenvolvimento da trama, mostrando-os como figuras quase que sem personalidade, em certos pontos. Logo no início da trama, num diálogo entre Brendan e John, o primeiro expõe suas condições para adentrar na jornada do segundo, sendo elas "Um quinto do seu rebanho e a mão de sua esposa", condições essas aceitas pelo bêbado, visto que se ele recusasse, não haveria desenvolvimento da trama. Um pouco mais a frente, Dana fecha acordo com um grupo de saqueadores dando a eles um quinto do rebanho, "O quinto de Brendan", que por sua vez abaixa a cabeça e aceita. Tais passagens, embora sirvam para a evolução do enredo, acabam por tirar a credibilidade do mesmo.

Em uma terra desolada, com homens frios e cruéis, porém em sua maioria honrados, que exibem as cicatrizes ainda fresca da guerra civíl, mulheres fortes e bravas, que são disputadas a tapa, ou melhor, a tiros, e muito, muito calor, Brendan e Dana desenvolvem um relacionamento que se inicia hostil, mas que ao passar do tempo, vai se tornando quase que uma amizade. Brendam é um pistoleiro. Ou matador, chame como quiser. Em uma dessas missões, acabou matando um homem, cuja esposa viria a se matar 3 dias após a morte desse. Essa esposa era a irmã de Dana, que perdera esposa e 2 filhas na guerra civíl. Dana, um xerife de uma pequena cidade do Texas, consegue um mandato de prisão contra Brendan e parte até o México para capturá-lo. Porém, tal mandato de nada vale em território estrangeiro, e agora ele precisa esperar até que a cavana cruze o Rio Grande para poder prendê-lo.

Tal como dito (ou subentendido [ou não]) anteriormente, O Último Pôr-do-Sol parte de um argumento interessante para um desenvolvimento frio, que apenas a partir da metade, onde a relação entre xerife e matador é menos hostil torna-se mais interessante, e acaba resultando em um roteiro fraco e vago. A direção de Aldrich como sempre deixa sua marca, com tomadas magníficas, tal qual na cena final do duelo, onde por um instante, em um jogo de câmera, ambos os envolvidos caminham sobre o leito de um trilho de trem, simbolizando a tênue linha que separa vida e morte em tal momento. Um faroeste menor de Aldrich, mas que nem por isso pode ser considerado pior. Menos bom, talvez.

domingo, 21 de novembro de 2010

Estômago



Mais uma produção brasileira que faz acreditar que o cinema brasileiro pode ir além dos filmes favelas. Estômago é uma fita do diretor Marcos Jorge que narra a historia de Raimundo Nonato um imigrante nordestino que chega a cidade grande em busca de oportunidades. Ao chegar à metrópole encontra as dificuldades que imigrantes enfrentam ao primeiro contanto com o “novo mundo”, porém com as habilidades que possui e desenvolve, logo passará de cordeiro a leão.

A película apresenta dois Raimundos Nonatos, o primeiro chegando à cidade grande e o segundo em uma prisão. Nestas duas narrativas, acompanhamos a história de Raimundo como também tentamos descobrir o que ocorreu para a prisão dele.

Na primeira narrativa, observamos Raimundo chegando à cidade grande sem dinheiro e apenas uma mala. Ele acaba indo parar em um boteco e neste aprende a cozinhar. Logo, ele chama atenção de um italiano da região que o oferece um emprego em um restaurante. Neste novo local Raimundo aprende as singularidades da cozinha. Conhece receitas, sabores, métodos e o queijo gorgonzola, uns dos elementos principais do filme.

Neste novo mundo, Raimundo conhece Iria, uma prostituta boa de boca que se apaixona por suas coxinhas. Logo eles criam uma intimidade, contudo ele não é correspondido da mesma forma pela prostituta, porém não desisti e continua ao lado dela, mesmo ela rejeitando um beijo. (¬¬).

Na outra narrativa, temos o Nonato que chega a prisão e logo conquista os companheiros e a confiança do manda-chuva através de seus dotes culinários. Nonato transforma uma gororoba em um prato digno do melhor restaurante. E assim ele consegue uma cama e segurança.

É nestas duas tramas que chegamos ao meio do filme perguntando: “O que ocorreu com ele? Por que foi preso se ocorria tudo tão bem?

O filme é com certeza uns dos melhores produzidos atualmente pelo Brasil. O roteiro é bem contado e mostrado, sempre focando em Raimundo. Tem identidade cinematográfica, uma característica pouca encontrada hoje em dia nos filmes brasileiros. Além claro de ser um filme com ritmo, provido de boas interpretações como de João Miguel (uns dos queridinhos do cinema brasileiro) e um filme que consegue transitar tanto no drama como na comédia. Ademais, o filme foge dos padrões brasileiros, apesar de apresentar aspectos que a maioria das produções brasileiras mostram, a fita consegue deixar esses pontos subentendidos.

É uma produção que nos intriga até o fim, fazendo que nos retorcemos na poltrona esperando ansiosamente pelo curioso desfecho de Raimundo Nonato.

As Sombras de Goya



Neste As Sombras de Goya, Milos Forman usa o grande pintor Francisco Goya como plano de fundo para narrar dois importantes momentos históricos da Espanha: A Inquisição e a Revolução Francesa.

O filme foi dura e desmerecidamente criticado. As acusações de falha de roteiro e ritmo são completamente descabidas. O roteiro é bem escrito e traz três personagens excelentes para levar a história. O ritmo também é bom e sabe dar um ótimo ritmo à trama. A verdade é que se trata de uma obra inferior de Forman, certamente, cuja estrutura narrativa jamais deveria ser comparada à de sua obra-prima, Amadeus.

O filme se divide basicamente duas partes, na primeira, temos a Inquisição à todo vapor na Espanha, matando e torturando a torto e direiro. Na segunda, passada 15 anos depois da primeira, temos a Revolução Francesa recém instaurada tomando conta da Espanha.

Nesse cenário caótico, um personagem se destaca, e não é o de Goya. Lorenzo, interpretado por Javier Bardem, é um personagem egoísta, manipulador, que está sempre do lado mais forte para conseguir obter vantagens. Na realidade, um personagem que poderia ter ares de vilão, é, na verdade, muito mais do que isso. Ele é um sobrevivente. Ele fica do lado mais forte para poder viver e com seus luxos. Seus escrúpulos são inferiores ao seu egocentrismo. Isso fica ressaltado no momento em que ele abandona essa atitude para se aliar a um ideal. Um personagem extremamente bem criado e interpretado.

Na parte técnica, o filme também brilha. direção de arte impecável e figurinos maravilhosos contribuem para uma reconstituição perfeita da Espanha do século XVIII. Mas o destaque principal vai para a direção de Milos Forman. Usando tomadas geniais, dignas do diretor de primeira grandeza que é, ele consegue tornar um filme que poderia ser extremamente ruim em uma obra maravilhosa. Alguns exemplos de cena são a tomada em que é acompanhada toda a linha de produção de uma das famosas serigrafias de Goya, a cena em que os franceses chegam na Espanha deixando pilha de cadáveres por de passam mostrando que o terror apenas tinha mudado de nome e, a minha preferida, a primeira cena após Goya perder a audição, uma tomada magnífica onde não há qualquer tipo de ruído externo, apenas a fala de Goya e os ruídos por ele produzidos.

As Sombras de Goya funciona tanto quanto filme de arte quanto como filme histórico. Embora o ritmo da trama caia um pouco na segunda parte, puxando um pouco para o melodrama, não é nada que torne a obra algo insupertável.

Repetindo vários elementos presentes na filmografia de Forman como o manicômio como símbolo da decadência do ser humano e a nudez como artefato de humilhação (algo bastante errôneo, ao meu ver), As Sobras de Goya é mais um maravilhoso filme deste que é um dos maiores diretores da atualidade.

sábado, 20 de novembro de 2010

Folhas Mortas



No início de sua carreira, Robert Aldrich conseguia manter uma incrível média de dois filmes por ano, porém, tamanha prolificidade não viria a durar muito, com um dos motivos para tal certamente sendo a perda de qualidade implicada pelo mesmo. Embora tenha lhe rendido o Leão de Prata de Direção no Festival de Berlim, Folhas Mortas é, na opinião desse que vos fala, o filme menos interessante da carreira de Aldrich até então. Não que seja um filme ruim, mas o mesmo apresenta uma angustiante escassez de qualidades.

Millicent Wetherby é uma mulher de meia-idade cuja vida carece de amor e afeto. A existência solitária de Millicent muda quando ela conhece Burt Hansen, um carismático jovem. Tão cedo quanto Burt a conquista e pede sua mão em casamento, suge a desconfiança de que o noivo de Millicent sofre de sérios transtornos mentais. As coisas complicam ainda mais para Millicent quando uma mulher alegando ser a primeira esposa de Hansen bate à sua porta.

Em um argumento interessante, com várias possibilidades de abordagem, mas que é fracamente explorado, Aldrich aparenta não saber aonde que chegar. A abordagem se inicia focando na diferença de idade entre os protagonistas, onde a personagem de Joan Crawford recusa os pedidos de casamento da personagem de Cliff Robertson dando como justificativa a diferença de idade entre ambos, porém seu casamento ocorre mesmo assim, formando quase que uma antecipação da revolução sexual que viria na década seguinte. Após o casamento, Millicent começa a descobrir que quase tudo o que Burt lhe dissera era mentira e a obra começa a tomar ares de suspense, bem ao estilo Aldrich de se fazer cinema. Porém, mais uma vez há um tipo de reviravolta na trama quando as mentiras de Burt são justificadas pelo fato de o mesmo possuir algum tipo de neurose.

Aldrich passa uma boa imagem de um filme profundo tal qual um pires, no qual nem mesmo as atuações excepcionais do casal principal, Joan Crawford e Cliff Robertson, são capazes de erguer o nível. Assim como muito do que se vê hoje, Folhas Mortas trata-se de uma maravilhosa embalagem desprovida de conteúdo, onde Aldrich aparenta não ter objetivo. Porém, olhando por uma outra ótica, uma ótica que dispense o objetivo, tal análise pode muito bem se inverter. Desconsiderando a necessidade de desenvolvimento da trama, podemos considerar Folhas Mortas como um bem realizado e conduzido trabalho sobre o relacionamento humano entre um casal, digamos pouco ortodoxo, no qual se misturam esposa mais velha, ainda um tabu na época, com neurose, ainda um tabe nos dias atuais.

Sob essa visão, Aldrich realizaria um interessante trabalho de personagens, explorando o tema e lançando uma visão pessoal a respeito do mesmo, o que faria com que, na opinião de alguns, esse viesse a se tornar um dos melhores filmes de sua carreira. Apenas lamentável ainda o fato de a juventude de Millicent, disperdiçada em meio aos cuidados de seu pai doente, seja tão pouco e superficialmente abordada. Folhas Mortas é um romance folhetinesco, mas não que isso seja necessariamente ruim. Na realidade, a qualidade de tal obra pode variar entre dois extremos a partir de o que cda espectador espera de um filme. Por realizar uma obra assim tão complexa que leva uma crítica a se iniciar negativa e terminar positiva tal qual essa, Robert Aldrich merece respeito.

Top 10: Tim Burton

Entre os diretores que apareceram nos últimos 25 anos, um dos que conseguiu mais admiradores foi Tim Burton. Fã de filmes de terror, Tim Burton tem como característica principal os filmes sombrios, porem com belas histórias. Sempre com excelente visual, suas obras marcaram o cinema recente. Sou um fã Tim Burton, e compartilho aqui com vocês aqueles que considero serem seus 10 melhores filmes. Vamos a eles:


10 A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005). Refilmagem de um clássico de 1971, esse filme traz um Willy Wonca mais perturbado por problemas familiares e mais sarcástico. O visual colorido ganhou um toque especial nas mãos de Tim Burton. Acredito que sou um dos poucos que considera esse bem melhor que o original, tanto no visual como no roteiro menos infantil, e principalmente nas músicas muito mais divertidas. Destaque para as referências a “2001 uma odisséia no espaço” e “psicose” após a cena do tele transporte.


9 Alice no País das Maravilhas (2010). Essa nova versão da história de Lewis Carrol se tornou a sexta maior bilheteria da historia do cinema, com mais de 1 Bilhão de dólares arrecadados. O filme não mostrou novamente a pequena Alice, como uma simples refilmagem, e sim deu continuidade a história. Dessa vez, Alice tem 19 anos, e retorna ao lugar que esqueceu ter estado. Grande elenco com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter e Anne Hathaway. O destaque fica por conta do visual espetacular e da tecnologia 3D que nos leva para dentro do país das maravilhas.


8 Batman - O Retorno (1992). Após a boa aceitação de “Batman”, de 1989, Tim Burton fez seu segundo filme do homem morcego, desta vez com Pinguim e Mulher-Gato como vilões. Com um super elenco que contava com Michael Keaton, Cristopher Walken, Danny DeVito e Michelle Pfheifer, o filme tem uma boa trama, mostrando a corrupção em Gothan. Destaque para Michelle Pfheifer como mulher-gato. Jamais outra atriz fez ou fará uma atuação melhor como essa incrível vilã.


7 Os Fantasmas se Divertem (1988). Primeiro grande filme de Tim Burton, conta com estrelas como Michel Keaton, Alec Baldwin, Geena Davis e Winona Ryder. Uma hilária história de fantasmas, onde sustos e risadas se alternam. Destaques para a atuação cômica de Michel Keaton como Beetlejuice e para a maquiagem (que rendeu ao filme um Oscar nessa categoria).


6 A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999). Um excêntrico investigador é mandado para o condado de Sleepy Hollow para desvendar uma série de estranhos assassinatos em que todas as vítimas são encontradas sem a cabeça. Terceira parceria entre Tim Burton e Johnny Depp, conta ainda com Christina Ricci e Christopher Walken no elenco. Um filme que alterna bem fantasia, terror e cenas engraças. Venceu o Oscar de melhor direção de arte.


5 Batman (1989). Esse filme teve uma enorme importância por consolidar os filmes baseados em quadrinhos como sucesso garantido de bilheteria. Michel Keaton interpretou o homem morcego, e Jack Nicholson fez o papel do coringa, o grande vilão das histórias do Batman. Apesar da desconfiança dos fãs antes do filme ser lançado (a maioria questionava Tim Burton e Michel Keaton), o filme foi sucesso de público (com mais de 400 milhão de dólares arrecadados) e deixou os fãs satisfeitos. Oscar de direção de arte.


4 Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007). Musical sombrio cheio de suspense, baseado em um premiado musical da Broadway. Mais uma vez o papel principal ficou com Johnny Depp. Sua excelente atuação como o barbeiro que volta a Londres para se vingar lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator. Helena Bonham Carter também esteve excelente como Mrs. Lovett, dona de uma loja de tortas que usa carne humana (merecia também uma indicação ao Oscar). Como é comum nos filmes de Tim Burton o visual do filme é impecável, e venceu o Oscar de direção de arte.


3 Ed Wood (1994). Considerado o pior diretor de todos os tempos (na minha opinião injustamente), Ed Wood dedicou sua vida ao cinema, fazendo o possível para levar as telas suas obras bem peculiares, sempre com pouco tempo e dinheiro para filmar. Nesse filme de Tim Burton a história desse excêntrico diretor, muito bem interpretado por Johnny Depp. O destaque do filme fica por conta de Martin Landau, interpretando o lendário ator Bela Lugosy em final de carreira (Landau venceu o Oscar por esse papel).


2 Edward Mãos de Tesoura (1990). Clássico da sessão da tarde e consequentemente da infância de muita gente, Edward mãos te tesoura é um dos mais belos filmes de fantasia, mantendo o tradicional visual sombrio do filmes de Tim Burton. O amor impossível entre uma garota e uma estranha criatura que tem tesouras no lugar das mãos. Apesar do tom de fantasia, o filme traz uma questão muito importante, o preconceito com o que não parece “normal”. Excelente elenco com Johnny depp, Winona ryder, Dianne Wiest, Alan Arkin e a participação mais do que especial de Vincent Price, em seu último filme.


1 Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003). Um dos filmes mais injustiçados da história do Oscar (teve uma mísera indicação em trilha sonora), Peixe grande é certamente o auge da carreira de Tim Burton. O filme é ao mesmo tempo bonito, engraçado, e mostra a complexidade das relações familiares. Ed Bloom (interpretado por Ewan McGregor quando jovem, e por Albert Finney quando velho) é um grande contador de histórias. Mas seu filho Will (Billy Crudup) o considera um mentiroso. Nos divertimos nas histórias extraordinárias contadas por Ed Bloom, e nos emocionamos com a relação de pai e filho. Peixe grande é um dos melhores filmes desse século, e acredito que no futuro será considerado uma grande obra prima (eu já considero).