terça-feira, 21 de setembro de 2010

Trilogia do Apartamento: O Inquilino


Ao ler a sinopse, qualquer um imaginará que se trata de um filme comum de terror. E imaginará mal; pois este filme inebriante do Polanski, aproxima-se muito mais de uma análise psicológica do ser do que de uma ficção fantasiosa, de modo que a patologia aqui apresentada diz respeito à essência humana e o fulcro disso tudo é uma esquizofrenia sem precedentes.

Trelkovsky – interpretado pelo próprio Polanski - aluga um apartamento que pertencera até pouco tempo a uma mulher que se via internada, devido à uma tentativa de suicídio. Diante disso, o rapaz visita-a e aos poucos passa a ficar instigado, tornando-se escravo de repentes de mimetismo que englobam mudanças de comportamento, mudança de hábitos e até mudanças de aspectos físicos. Trelkovsky começa, a partir de então, a tornar-se íntimo dos antigos amigos da moradora, passa a fumar a mesma marca de cigarros e adotar seus hábitos, vestir-se como ela. Ao reparar que ninguém parece se importar muito com a morte dela, e vendo que ela iria irremediavelmente para o esquecimento, inconscientemente, ele adquire essa síndrome do espelho, como se não pudesse deixá-la morrer. Assim, Trelkovsky fagocita a falecida para que através dele, como um parasita, ela sobreviva.

Não obstante o foco ser estritamente voltado para Trelkovsky, pouco se sabe sobre seu passado, sobre o motivo de seu isolamento; sobre ele não ter contato com amigos, parentes, ou quem quer que seja, ou até sobre o que se sucedera para que ele repentinamente se mudasse para Paris. Em vista disso, observa-se que a tendência psicótica da personagem já estava ali “inquilinada”, e apenas desencadeou-se por motivos inexatos, os quais Polanski, enquanto diretor, não faz a menor questão de pormenorizar ou responder.

Enquanto ator, se a atuação de Polanski é perfeita nesse sentido, se ele encarna realmente a personagem, aparentando estar no inferno em vida, é porque de fato está. Sua esposa fora assassinada brutalmente durante as filmagens, tornando-se isso, bizarramente, um mote para o terror psicológico em vida que se vê no filme; Aqui a arte imita a vida, e a vida, por sua vez, se torna arte.

Um dos temas centrais da Trilogia do Apartamento, que engloba ainda Rosemary's Baby e Repulsion, é nitidamente a claustrofobia. Todos os filmes se passam em grandes metrópoles com atmosferas sombrias que, a todo instante, exalam poeira para fora da tela. Tudo é concreto, edifícios, paredes, corredores apertados, cafés e cinzas; Um arrocho existencial. Tudo isso serve de preâmbulo para subverter a paranóia adormecida dentro do indivíduo, trazendo-a, assim, à tona e desembocando-se na insanidade. Para Polanski o apartamento ganha vida, e o único propósito dela é esmagá-lo - como na cena de Repulsion em que mãos saem das paredes. Uma leitura mais transtornada, que se vale acima de tudo das imensas referências ao satanismo nos filmes do diretor, diria que, para Polanski, a metrópole é satã.

Um comentário:

vitor silos disse...

Infelizmente nunca vi esse filme até hoje, mas acho que deve ser fantástico, Polanski é muito talentoso.

Vitor Silos
www.volverumfilme.blogspot.com