segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O psicofisiologismo da Disney

Estimados leitores, já que o assunto em pauta aqui no blog tem sido, indiretamente, a Disney, visto o post sobre os finais felizes e o top dos anos 40, que você pode acompanhar clicando sobre os nomes, trago-lhes hoje um novo conceito e algo a se pensar. O conceito em questão é o de psicofisiologismo, que como o nome sugere, trata-se da associação de características mentais, da identidade psicológica, com os aspectos físicos.

Esse recurso foi muito utilizado pelo ilustríssimo senhor Walt Disney, consagrado como um dos mestres das animações. Eu, humilde apreciador da sétima arte, não pretendo aqui desmerecer seu trabalho, tampouco criticá-lo. Pretendo apenas mostrar alguns fatos que julgo serem importantes, para que então cada um possa tirar suas próprias conclusões.

Partindo do princípio de que a maioria dos filmes de Disney era destinada ao público infantil, pressupõe-se que seriam repletos de valores positivos. Contudo, há de se levar em conta algumas sutilezas (im)perceptíveis que o walt disney lançava mão. Proponho aqui analisar alguns dos ditos “grandes clássicos” que muitas pessoas cresceram assistindo, mas antes de falar dos filmes, preciso mencionar os desenhos.

Nota-se que não há grandes laços familiares próximos nos desenhos; Todos são no máximo sobrinhos ou tios. Não há relações afetivas ou favores desinteressados; Tudo gira em torno de um jogo de interesses e, via de regra, esse interesse é o dinheiro. O Exemplo mais falado disso é o personagem Tio Patinhas, exemplo clássico do burguês que faz de tudo para acumular dinheiro. Note que apesar de cometer ações moralmente condenáveis, o Tio Patinhas não só sempre termina mais rico do que começou, como também, para maior espanto, nunca sai perdendo.

Em “Tarzan”, um homem branco cai em uma selva, uma sociedade diferente da dele, e nela Tarzan, como o bom homem branco, sobrepõe-se a todas as adversidades, torna-se superior a todos os demais e ainda, como se não bastasse, se torna “rei”. Manda e desmanda no lugar. No século dezenove algo muito parecido aconteceu de verdade. Os brancos europeus, de “raça pura”, inspirados pelas teorias cientificistas do determinismo e as distorções das teorias de Darwin e Mendel, passaram a se considerarem superiores aos demais. Com essa mentalidade, acrescida da ganância capitalista, juntaram-se à mesa com charuto e café, abriram o mapa mundi e fizeram a partilha da África entre si. Essa festinha ficou conhecida como Conferência de Berlin.

Desconsiderando as diferentes sociedades que ali viviam, fadaram a África a um futuro de miséria e guerras tribais. Tudo que de ruim se vê no continente hoje é reflexo dessa partilha dos tarzãns europeus. Isso me leva a refletir: por que passar esses valores em um filme? Seria isso inconscientemente? Seria, de fato, uma tentativa de transmitir valores imperialistas? Uma tentativa de fazer os adultos do futuro acharem normal esse tipo de ganância capitalista descomedida?

Mas se por um lado na grande maioria dos filmes os homens brancos são idealizados, por outro, uma enorme parcela dos vilões são negros e magros, como em Rei Leão, em que o único leão diferente (leia-se negro) é o vilão. Em “Branca de Neve” a rainha má é a única a vestir um longo vestido preto com um roxo cadavérico, mas nem se compara com a assustadora malévola coberta de preto, que por vezes parece mais um urubu, ou então o Jafar do Aladim. Isso só para citar alguns; raros são os que fogem à regra.

Sr. Disney certamente lera muito Freud, e entendeu bem o papel do inconsciente. Em crianças, cujo cérebro pode-se comparar com uma esponja, é inegável que esse tipo de associação perdura em suas mentes até então inocentes, forçando-as, malvadamente, a crescerem com as concepções distorcidas. Provavelmente é esse tipo de criança que roubava meu lanche na escola por eu ser magro e diferente – pra não dizer escroto.

Alegro-me, contudo, ao saber que de uns tempos pra cá alguns realizadores de animações vem mudando isso. Afinal, estou falando em um estúdio que revolucionou as animações, estou falando da Pixar. O estúdio aborda frequentemente temos sobre diferenças, mas, diferentemente da antiga Disney, não a condena, incentiva-a. Muitos dos vilões dos filmes são de aspectos físicos tão – ou mais – bonitos do que os heróis. Toy Story, por exemplo, em que os grandes vilões dos últimos filmes eram na verdade criaturas insuspeitáveis: um velhinho com uma enxada na mão e um ursinho cor-de-rosa. Com uma profundidade incrível, com motivos para agirem de tal forma.

Talvez, então, eu possa esperar otimistamente que num futuro próximo não haja pessoas que roubem lanches de crianças indefesas, mas que haja pessoas cujas visões de mundo sejam menos preconceituosas em relação não só a cor e diferenças, mas em todos os sentidos que a palavra pressupõe. Obs: Devo citar também o belíssimo trabalho do estúdio Ghibli, cuja distribuição e divulgação dificilmente chega ao Brasil, infelizmente.

Um comentário:

Anônimo disse...

muito interessante esse post, realmente esses desenhos/filmes, acabam influenciando a criança que esta em fase de crescimento ...