segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Crítica: A Epidemia





É fato que não se fazem mais zumbis como antigamente. Nos dias de hoje, com o advento da globalização e a aniquilação do espaço pelo tempo, os zumbis modificaram-se e, assim como os humanos, eles correm contra o tempo. Cada vez mais os zumbis estão frenéticos: pulam, correm, voam, resolvem equações logarítmicas (vide o recente zumbilândia, por exemplo). Esqueceram-se de que o conceito de zumbi é justamente ser um ser cujas condições de vida são precárias; eles não estão inteiramente vivos para fazer as manobras que andam realizando, de modo que os zumbis não são mais propriamente mortos-vivos, mas vivos-mortos.

É bem verdade, contudo, que os zumbis não são os mais prejudicados por essa expropriação - os vampiros que brilham e os lobisomens sem pêlos que o diga. Mas nesse caso, posso dizer que The Crazies mantém a concepção de zumbis intacta, até porque não se trata de zumbis propriamente ditos, e o maior monstro do filme é de fato o governo norte-americano.

The Crazies é um filme que cumpre seu papel antes mesmo de ser lançado. A notícia de que mais um entre os inúmeros remakes recentes estaria por vir era mesmo de assustar. Sobretudo ao saber que seria de uma refilmagem de ninguém menos que George Romero, que talvez figurasse agora entre remakes, digamos, muito ruins como “A Hora do Pesadelo”. Porém, minha predileção para filmes de zumbi falou mais alto. Muni-me de muita coragem e enfrentei o que provavelmente seria pior do que ser comido vivo por zumbis. Mal sabia eu que estava diante de uma homenagem ao ato de conceber o cinema, mascarada de remake fajuto.

A premissa é demasiadamente simples. Nada se difere dos muitos filmes de zumbis que se vê por aí. Resumidamente, envolve uma pequena cidade que foi assolada por uma arma biológica devido ao descuido do governo norte-americano, e assim, resulta em uma epidemia de uma mutação, na qual as pessoas se transformam em zumbis. Embora muito simples, a história é muito bem elaborada, com algumas cenas realmente boas como a do lava-rápido. O diretor Eisner consegue escapar das muitas armadilhas do gênero e consegue manter um ritmo de tensão perfeito, ainda que por vezes ameace tender para o clichê, como é a cena em que justo quando se precisa do carro ele não funciona. No entanto, os clichês, diferentemente de muitos filmes de zumbi, elevam a trama, não sendo, portanto, gratuitos. Ainda assim, há de haver críticos recitando aquele velho discurso nada original de que o filme peca pela falta de originalidade, que não traz nada de novo. O que não é verdade. Como se já não bastasse o filme ser extremamente bem feito, todo o enredo aqui é meramente um disfarce para o que a obra tem de melhor: as referências.

De modo geral, o filme consiste, basicamente, em um amontoado de referências. Referências essas extremamente efêmeras, mas em grande quantidade. Mas não pense que são aquelas referências tímidas. São toscamente cópias escancaradas de planos dos mais variados filmes. The crazies por si só não existe, ele é um zumbi parasita obrigatório, nada mais é do que recortes de cenas de outros filmes, as quais foram montadas num contexto zumbilesco. É tão descarado que chega a ser original por conta disso. Eisner satiriza a própria sátira.

Qual não foi o meu espanto quando, repentinamente, brota-se espontaneamente na tela uma das cenas antológicas de 2001: Uma Odisséia no Espaço, ou quando constatei a cena do restaurante de Pulp Fiction, ou Alucinações do Passado, enfim, são referências aos montes. São rápidas e certeiras, e ainda que não acrescente em nada na história, são um colírio para qualquer amante da sétima arte. Confesso que ri feito um psicopata, embora muitas se passem em partes tensas, sérias e aterrorizantes do filme. Com certeza the crazies não é lá uma obra-prima, mas deve funcionar muito bem como um jogo entre amigos em um dia chuvoso, disputando-se qual adivinha mais referências. Eu, particularmente, farei questão de comprá-lo quando sair em DVD, só para ter o prazer de ficar apertando pause e tentando descobrir de que filme a cena está sendo plagiada. É diversão garantida, para os cinéfilos, é claro.

4 comentários:

Gui Barreto disse...

Sabe que desde que fiquei sabendo que esse filme seria lançado, tô morrendo de vontade de assisti-lo..adoro zumbi...de qualquer forma assistiria, mas seu texto me instigou mais ainda...não vejo a hora...valeu pela dica...ótimo texto...abrs

pseudo-autor disse...

Esse Epidemia é um que está passando o trailer no cinema com o ator Timothy Oliphant?

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Lauci Lemes disse...

Aí Doc, gosta de Zumbie tem que ler "The Walking Dead" HQ sensacional que agora em outubro vira série estadunidense. Vale a pena.
Exelente texto como sempre, fiquei com vontade de ver!

Andressa disse...

O filme é muito bom...mas não se trata de zumbis...e sim de pesseoas vivas infectadas por um virus produzido pelo governo