quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Mosca (1986)



Existem filmes que ficam pouco tempo em nossas cabeças. É como se o desuso ofuscasse-os quase que completamente. Em contrapartida, alguns poucos filmes parecem ser carregados de uma proteção anti-esquecimento. Filmes esses, que inevitavelmente marcam nossas vidas para sempre. Seja pela carga dramática, seja pelas cenas grotescas, “A mosca” do diretor David Cronenberg é um deles.

Cronenberg é um cara estranho. Amante do conhecimento científico e das artes literárias - duas coisas bem distintas, diga-se de passagem – chegou a cursá-las na faculdade, chegando a terminar apenas a segunda, a qual se reflete sobremaneira em seus filmes, sobretudo no Naked Lunch, em que são esboçados também seus devaneios com uma engenhosidade assombrosa. “A Mosca”, ao lado de Naked Lunch, talvez seja sua obra mais sincera, uma vez que usa de muito conhecimento científico, afinal, apesar de bizarra, não deixa de ser uma ficção científica, mas também não deixa de usar seu conhecimento literário: referência a Kafka é uma constante em quase todos seus filmes.


Nessa refilmagem do filme “A Mosca da Cabeça Branca” de 1958, Cronenberg apresenta uma visão dilemática da relação entre uma jovem jornalista ambiciosa, Verônica (Geena Davis), e um exímio cientista, Seth Brundle (Jeff Goldblum), que conseguira criar uma máquina de tele-transporte. Contudo, ao testá-la, consigo mesmo como cobaia, acidentalmente recombina seu DNA com o de uma mosca. Assim, aos poucos ele começa a mudar incessantemente, e à medida que suas transformações físicas vão se acentuando, a forma que os outros se relacionam com Seth, inclusive Verônica, também muda.

Mas por que bem uma mosca? Já vi muitas pessoas que sentem afeição por baratas, ratos, mas moscas? O único propósito de uma mosca é não ter propósito. Ficam ali zumbindo um barulho cuja freqüência é ensurdecedora; são oportunistas; tomam nossas sopas; têm uma agilidade, um esquivo, dignos de ganhar um oscar; não há Raid, não há havaiana que dê conta; É uma estúpida de uma forte. Como alguém pode gostar de algo assim, ou pior, identificar-se com isso? Cronenberg consegue o que poderia se supor ser impossível.

Talvez a façanha deva-se, em grande parte, por conhecermos o lado humano do personagem, além de suas virtudes, seus erros, suas pretensões, seus defeitos humanos, antes da transformação. E para funcionar, a transmutação é conduzida de forma gradativa. A deterioração de sua condição humana segue seu ritmo, progressivamente, e é triste ver a sua fragilidade diante da situação, vê-lo lutar inutilmente.

Em certa entrevista, o diretor canadense fez uma analogia entre o que é mostrado em um filme e a realidade fora dele. Disse ele que ao se fazer uma comédia com uma pessoa escorregando em uma casca de banana não se pode mostrar a realidade, a qual poderia envolver fraturas cranianas e espinhas quebradas, deve-se fazer o que for apropriado para o filme, no caso, apenas o efeito cômico da queda e não suas conseqüências reais. Ora, sendo assim podemos concluir que o efeito que o diretor quer é exatamente o oposto do riso, já que o que mais se vê em seus filmes são tripas escorrendo, artrópodes asquerosos e mutações genéticas sinistras. E nesse sentido, o terror que a mistura da realidade com a fantasia proporciona é chocante e inesperado.

Não se trata de um simples filme de terror propriamente dito. É irônico ver que o que de fato assusta não são as cenas escatológicas, mas sim o quão repugnantes são as relações humanas; Entre pêlos, vísceras, vômito, torna-se cada vez mais difícil manter sua humanidade quando todos à sua volta o tratam como mosca.

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