segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Dinheiro (1983)



No universo diegético de Bresson o mundo é uma lata de ervilhas, na qual cada ser humano é uma rugosa e insensível ervilha, que assim o é por conta das condições terríveis que provavelmente deve ser morar em uma lata de ervilha. O que o diretor faz, na verdade, é esmagar a lata. Expressando-se por meio da certos exageros da realidade, mas sempre muito plausíveis, ele expõe friamente o que é o mundo em sua essência. Por esse motivo não há sorrisos, afagos, ou demonstrações afetivas no filme, e nesse sentido, O Dinheiro é uma punhalada certeira, um verdadeiro chute no saco.

Inspirado num conto de Tolstoi, o filme traz como personagem-chave o dinheiro, mais precisamente uma nota falsa que entra em circulação. A jovem ervilha que fabricara a nota, gastou-a em uma loja. A ervilha dona da loja, por sua vez, maliciosamente repassou a nota para uma terceira ervilha que fora em seu estabelecimento. Esta gastou a nota em um restaurante onde finalmente é descoberto que a nota é falsa e, inocentemente, ela é levada sob custódia. A segunda ervilha, dona do estabelecimento, nega sequer já ter visto a terceira ervilha, e assim, perdido o julgamento, a ervilha é enlatada.

Mais adiante, a ervilha é solta, mas ante sua situação, sem emprego, família, ou qualquer sustentação psicológica, cai na vida de crimes. Chegando, por fim, a cometer um assassinato. Aliás, aqui entra, talvez, a maior genialidade da obra. Bresson, pregador do movimento minimalista, recusa-se a mostrar o assassinato, na cena ouve-se apenas um ruído estrondoso enquanto a lente de Bresson recai em um outdoor de um Motel, à la Psicose. Em seguida a ervilha assassina entra em um apartamento e lava sua mão na pia, sem nunca ser visto seu rosto, apenas o sangue que escorre com a água da torneira, subentendendo-se assim que houve um assassinato. Porém, toda essa sutiliza, deve-se em partes pela proposta do diretor, que é desmascarar a farsa do dinheiro. A sutileza do assassinato corresponde à mesma sutileza que o infortúnio do dinheiro causa, falsamente aparentando ser bem menos maléfico do que de fato é. Algumas cenas mais a frente, o assassino já deserdado de qualquer conceito moral que possa parecer ter, comporta-se como um verdadeiro cavalheiro diante de uma idosa mulher, ajudando-a a colher frutas frescas em uma natureza quase irreal, completamente diferente do frio ambiente inicial. Isso metaforiza a atração que o dinheiro proporciona enquanto apunhala pelas costas.

Enquanto expoente do cinema minimalista, Bresson poupa tudo que considera dispensável, omitindo assim, detalhes que são de essencial importância na obra, mas que não necessariamente precisam ser mostrados, apenas mencioná-los está de bom tamanho – pensa o diretor. Não espere, portanto, qualquer resquício de uma possível trilha sonora ou de atuações excepcionais. Na verdade, Bresson deixava bem claro aos seus atores para não demonstrar emoções faciais, tal qual uma ervilha, eu diria. Os atores aqui são meramente figurativos, funcionam como um canal para que a mensagem (essa sim, de importância máxima no cinema bressoniano) possa ser transmitida. Sem luxos ou adornos excessivos.

A fotografia é construída de tons nauseantemente frios, com marrons sutis e com verdes cor-de-vômito, que remetem à cédula do dinheiro e, ao mesmo tempo, retorce o estômago, causando certa repulsa mental. E mesmo que inconscientemente, a associação do vômito com o dinheiro, ou melhor, de que dinheiro é algo sujo, algo negativo, é inevitável. Mas mesmo sendo sujo, mesquinho e muquirana, quando se comparado com as ervilhas de Bresson, o personagem mais humano do filme é, sem dúvidas, o dinheiro.

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