quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Montanha dos Sete Abutres (1951)


O filme traz a história do inescrupuloso Chuck Tatum (Kirk Douglas, sacana como nunca), um jornalista que já trabalhou nos maiores jornais das principais cidades do país, mas em decorrência de seu comportamento pouco convencional e antiético ele acabou sem emprego. Restando-lhe apenas trabalhar em um jornalzinho de uma pequena cidade. Contudo, quando se dá conta que se passou um ano e ele não conseguira nada que pudesse satisfazer sua ambição, vê em um acidente, um soterramento de uma montanha, no qual um homem ficou preso, sua chance de se dar bem. Ao notar que precisaria de aliados para tirar o máximo de proveito da situação, Tatum constrói relações com algumas pessoas do vilarejo em que aconteceu o desabamento. Relações essas, tão sólidas quanto à própria montanha que desmoronava.

“A Montanha dos Sete Abutres” talvez seja o filme de maior cunho social de Billy Wilder. A obra configura-se como uma crítica ferrenha a uma imprensa calhorda e oportunista, trazendo à tona toda a falcatrua do circo midiático, sobretudo do jornalismo. É, em primeiro plano, uma verdadeira denúncia audaciosa que deveria ser vista todos os dias, não somente pelos urubus da mídia, mas pelos seres humanos também.

Mas afinal de contas, todo esse sensacionalismo e manipulação da mídia são culpa do jornalista que os produz, ou do homem que os consome? É preciso levar em conta que muito antes do advento da imprensa, a humanidade sempre tivera comportamentos estranhos. Durante a Antiguidade Clássica, a maior forma de entretenimento em Roma se dava no Coliseu, o qual era palco de batalhas sanguinolentas, lutas de gladiadores, caçadas, execuções, sangue e mais sangue, morte e mais morte. Atrocidades sem precedentes, no entanto, aplaudidas de pé. A grande aceitação do público é que fazia o espetáculo, encaravam as atrocidades como meros shows, tal qual o diretor mostra em sua obra, uma vez que à medida que se manifesta o interesse do público em ver a “tragédia”, é que o furo jornalístico toma forma de espetáculo.

Alguns filmes que seguiriam o mesmo caminho crítico e versariam sobre o mesmo tema, como Todos os Homens do Presidente e O Informante, pecam pela falta de ousadia, o que A Montanha dos Sete Abutres tem de sobra. Afinal, Billy Wilder rompe com o padrão clássico hollywoodiano da época, opõe-se até mesmo ao seu próprio estilo de comédias românticas, utilizando de aspectos ácidos e cruéis para criar uma obra-prima na qual o cinismo atinge uma dimensão inimaginável.

Além disso, o diretor tomou o cuidado de não generalizar. Se a grande parte dos jornalistas da história se mostra oportunistas e gananciosos, fica a cargo do dono do jornal da pequena cidade representar os jornalistas honestos, que tem algum critério no que fazem. Se o xerife e a própria esposa do soterrado têm sua lógica baseada em cifras, buscando unicamente lucrar com a situação, além dos montes de pessoas ignorantes que se aglomeravam para assistir o “espetáculo” e comercializar, Wilder também mostra personagens com boa índole, como o pai do soterrado, que apesar da miséria e sofrimento parece notar a canalhice oportuna em torno da tragédia.

De modo quase profético Wilder previu os extremos que chegaria o sensacionalismo midiático, só não previu que o uso excessivo desse recurso inconsequente acarretaria em sua própria banalização. Nos dias de hoje, ninguém mais se importa com as milhares de tragédias que se vê na mídia a cada segundo – de enchentes e deslizamentos à estupros e assassinatos.Tudo isso saturou. Já não causa interesse, nem comoção, talvez um suspiro, e olhe lá.

Um comentário:

B disse...

Dr. Soup, pode me adicionar no msn? biayres_@hotmail.com