quarta-feira, 2 de junho de 2010

Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977)




Buñuel e sua Via Láctea de simbolismos.


Falar em Buñuel é falar em cenas aparentemente sem sentido, em situações absurdas, em acontecimentos bizarros e em surrealismo. Falar em surrealismo, por sua vez, é falar em Salvador Dali e Freud, em inconsciente e psicanálise, e em filosofia e um bom papo de boteco. Por isso, para alguns filmes de Buñuel como “Um Cão Andaluz” e “Idade do Ouro”, as teorias mais aceitáveis de uma racionalização do entendimento são advindas das filosofias dos bêbados. Levando em conta todos esses fatores, e estando eu sóbrio – ou quase – me vejo no direito de fazer uma análise fundamentada em meras suposições. O intuito, pois, não é delimitar
perfeitamente cada entrelinha dentro de uma lógica cartesiana, mas sim tentar entender discretamente os tantos “porquês” que a mente do diretor nos propõe.

À queima-roupa talvez possa parecer uma tarefa árdua que exige uma sublime resignação interpretar Buñuel e sua Via Láctea de simbolismo, mas com o tempo se tornar instigante buscar o subtexto nos enigmas. Especificamente este derradeiro trabalho, “Este Obscuro Objeto do Desejo”, pode passar a impressão de que a premissa seja demasiada simples levando-se em conta os filmes supracitados, mas não se engane, a pseudo-simplicidade pode ser um balde de água fria em sua cabeça.



Basicamente o filme gira em torno das desventuras amorosas e da relação contratual entre um homem um tanto velho e rico, Mathieu (Fernando Rey), e uma bela moça virgem, Conchita (Carole Bouquet e Angela Molina), nos quais as características são modeladas a partir do padrão determinista, em que se impõem os desejos.

A trama desenvolve-se a partir da perplexidade de alguns passageiros em um trem, quando se deparam com Mathieu jogando um balde de água em Conchita sem motivos aparentes. Assim, eles interrogam-no para descobrir o motivo de tal atrocidade.

Antes de tudo é preciso entender que o filme pode ser desmembrado em dois planos interpolados e opostos. A oposição se dá entre o plano das relações pessoais e o terrorismo que se apresenta nas cidades. Para os personagens o que diz respeito ao terrorismo e qualquer outro aspecto que não faça parte de si mesmos é irrelevante, bem como para os espectadores. Utilizando técnicas de automatismo, Buñuel compõe a narrativa de forma que até mesmo os espectadores se esqueçam - ou não dêem devida importância – para esse segundo plano, que vem a ser de fundamental significância.

O terrorismo aqui é metaforizado como a importância das coisas externas e a falta de preocupação com elas remete ao egocentrismo dos personagens. Nessa visão, toda atitude por mais altruísta que possa parecer é, na verdade,um desesperado grito por se fazer passar por altruísta em compaixão com seu próprio egoísmo: no fundo, todos pensam em si mesmos e no prazer próprio de fazer bem aos outros.

A construção sutil dos personagens também está vinculada ao determinismo, doutrina na qual as circusntâncias externas determinam inexoravelmente a natureza dos seres vivos. Dessa forma, Mathieu é constituído de forma homogenia, alegórica, sem nunca sair do padrão tipicamente burguês (tão criticado pelo diretor), e todas as suas atitudes correspondem a esse meio social. Ele não se importa em pagar para ter o que quer e isso devido ao seu materialismo psicológico que é designado pelas suas origens sociais. Outro exemplo é evidenciado pela Conchita, que é interpretada por duas atrizes diferentes. Uma representa todo o “Glamour” francês, e a outra o lado mais “Caliente” espanhol. É como se os fatores externos fossem um retrato do que os personagens realmente são por dentro.


Para entender o título convém retornarmos 15 anos no passado e atravessarmos o Atlântico. No filme “O Anjo Exterminador”, em uma conversa sobre o questionamento da virgindade, surge o seguinte diálogo: - Ela é virgem? – Sim, ainda conserva esse objeto. Agora que já se sabe a que objeto do título faz alusão, o cartaz do filme torna-se ainda mais claro. A “boca” fechada do cartaz e o “objeto obscuro” do título comprovam o quão restrita é a relação dos dois personagens. Mathieu restringe-se a querer Conchita e pretende atingir seu objetivo nem que tenha que comprar “esse obscuro objeto do desejo” que ela representa para ele. Conchita, por sua vez, parece apenas querer ser amada, e manipulá-lo de todas as formas possíveis para conseguir isso. Ela não tem pretensão alguma de se entregar, mas o seduz mesmo assim, subjuga-o sem jamais lhe dar a satisfação de conseguir o que tanto deseja. Chega ao extremo de torturá-lo fingindo se entregar a outro homem em sua frente, mas no dia seguinte o procura e o ver infeliz é ter a certeza de ser amada para ela. Ambos são mesquinhos. Ambos não enxergam além do próprio nariz.

E como qualquer análise que se faça de algum filme de Luis Buñuel não deve ser totalmente linear, quebrarei aqui a expectativa, pedindo que esqueçam tudo dito anteriormente. Todo o estudo acima feito parte do princípio duvidoso de que a narração seja verdadeira. Não esqueçamos que praticamente toda a história é narrada através de Flash Backs contados por Mathieu. O mesmo homem estereotipado por Buñuel em diversas ocasiões como sendo o burguês de aparências, cuja maior preocupação é o pensamento alheio a seu respeito. Se nem mesmo o diretor confia nele, por que devemos, nós, confiarmos? De fato toda a história aparenta ter uma dose grande de exageros. Segundo ele próprio “Essa mulher é a pior mulher da Terra”. E quantos fatos foram omitidos? Quantos distorcidos? Quantos não foram se quer foram contados? Enfim, resta-nos apegar então no desfecho da história: Nele Buñuel subverte toda a realidade em um baque final, sem deixar dúvidas, sem deixar rastros.