quarta-feira, 24 de março de 2010

O Livro de Eli (2010)


Em meio a tantos filmes sobre o apocalipse, cataclismos, tragédias globais, e degradação da raça humana, esse segue a mesma cartilha tão idolatrada por hollywood e apenas engrossa a lista. Assemelha-se muito com a estética do filme “A Estrada”, mas falha na incompetência dos diretores e acaba por se perder em meio a tantos filmes iguais. Mas apesar disso o filme proporciona algumas reflexões razoáveis acerca do tema religioso.

Fiquei em um dilema: Falar ou não qual é o tal livro que Eli carrega? Digo isso pois logo na primeira cena que se fala do livro já notei de qual se tratava. Contudo isso não é dito explicitamente. Mas como não vejo suspense algum em torno disso já revelarei, sem mais rodeios, que se trata da Bíblia Sagrada. Na verdade o filme se resume em: Tenha Fé. Acredite em Deus, seja cristão que nada lhe acontecerá, e leia a bíblia que é o livro da salvação. Isso fica claro de qualquer ângulo que se vê ao filme, evidencia-se isso pelo imbatível Eli (Denzel Washington) que vence todos os desafios imagináveis, derrota dez homens armados ao mesmo tempo, apenas com um facão, sobrevive a tiros e tiroteios e ao final ainda é capaz da maior façanha de todas. Não direi exatamente do que se trata para não atrapalhar a surpresa milagrosa, mas tenha em mente que é algo absurdo. Seria tudo isso graças á bíblia?

Eli (Denzel Washington) é um homem solitário que vive vagando pela Terra há 30 anos, em um mundo pós-apocalíptico rumo ao Oeste. É, também, senhor de uma fé inabalável e lê todos os dias ao mesmo livro que carrega consigo. Embora sempre tenha muitos problemas pela estrada, ele consegue manter-se firme até chegar a uma cidadela. Lá, um homem, Carnegie (Gary Oldman), comanda a cidade, e o mais interessante é que esse homem não se trata do mais forte. A lei é outra. O homem é um dos poucos que domina a, agora, arte da leitura. Sua cultura e sua capacidade de manipular colocam-no no topo da hierarquia da cidade. Leitor incansável, seu maior desejo é apoderar-se da bíblia, pois acredita que com ela poderá controlar ainda mais pessoas e expandir seu “império”. Sim, usei o termo império não à toa. Essa crença do personagem tem muito fundamento, visto que na Idade-média muitos povos foram conquistados por meio de causas religiosas. Em uma outra cena deixa-se subentender que a guerra que dizimou quase toda a população e que destruiu completamente a civilização da forma como conhecemos teve motivos religiosos também, e por isso, todas as bíblias foram queimadas, restando apenas a que Eli carrega.

Além disso o filme possui muitas cenas de ação, em sua grande maioria, dispensáveis. Sem quaisquer motivos começam brigas sanguinolentas com armas improvisadas nas quais, Eli se sobressai e sai sem sequer um arranhão. Simplesmente espantar um gato pode ser o estopim de uma luta mortal da qual apenas um sairá vivo. Mas embora dispensáveis algumas cenas são interessantes. Uma em especial traz Eli e alguns companheiros cercados em uma casa e do lado de fora Carnegie e seus capangas. Ambos os times possuem armas e começam um tiroteio. Nesse instante a câmera começa a passear pelo cenário, zigue-zagueando de dentro para fora da casa em plano-sequência, sem se focar em nenhum deles, apenas vagueando pelo tiroteio aleatoriamente. E é, sem dúvidas, uma das melhores cenas do filme todo juntamente com algumas boas sacadas, como aquela na qual Eli faz uma citação poética e a garota, embasbacada, pergunta se é do livro que ele carrega, ele responde: É Johnny Cash.

Em um filme com apelo comercial desse calibre não poderia faltar a mocinha bonita (Mila Kunis), a iracema pós-moderna, a virgem dos lábios de mel que ainda que nunca tenha lavado os cabelos na vida, eles são perfeitos e bem cuidados, o rosto angelical, completamente fora das coordenadas. Foge dos padrões esperados apenas fisicamente, pois seu trato psicológico é deprimente. No mais a paisagem apocalíptica é satisfatória, assim como a maquiagem e os efeitos especiais que, por algumas vezes, são eficientes e não dispensáveis. Muitos enquadramentos perspicazes e planos bem aproveitados. Enfim, se você, leitor, conseguir fingir-se de bobo por duas horas, acaba valendo o ingresso.

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