quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um Olhar do Paraíso (2009)






À primeira vista, “The Lovely Bones” tinha tudo para dar certo. Como diretor ninguém menos que Sir Peter Jackson, o mesmo de uma das trilogias de maior sucesso da história do cinema: Senhor dos Anéis. Um bom elenco, uma direção de arte e fotografia impecáveis. Mas é apenas na primeira cena que o filme dá provas concretas de tudo que poderia ser e que não foi.

A história, baseada no livro de Alice Sebold, é sobre uma garota pré-adolescente, Susie Salmon ( Saoirse Ronan), que é tragicamente assassinada por um vizinho serial-killer (Stanley Tucci). Mas não acaba com a morte. A garota é enviada a um lugar cartesianamente localizado entre a terra e o paraíso, e de lá narra sua história. Seria lógico que a obra ao menos tocasse no tema religioso, o qual é de cunho intrínseco ao assunto, mas isso não se concretiza, talvez pela necessidade da aprovação do público. Necessidade essa, que se repete no final do filme no que diz respeito ao desfecho do assassino.

No Brasil o título ficou como “Um Olhar do Paraíso”.
Segundo o dicionário, uma definição correta de paraíso é: Lugar de delícias, onde, ao que reza a bíblia, Deus colocou Adão e Eva; Lugar aprazível. Já para a percepção de Peter Jackson, um lugar aprazível sim, de delícias não. Não vejo como um lugar no qual se é obrigado a observar o sofrimento corroendo as entranhas de sua família possa ser um lugar de delícias. Há, no mínimo, um paradoxo inicial. Porém, essa contradição é facilmente rebatida mais a frente, embora a protagonista tenha chegado a usar a palavra “heaven”(paraíso, céu) para dizer onde estava por mais de uma vez. O roteiro trata de dizer que aquele não é o paraíso, mas sim um lugar transitório para se chegar ao mesmo. Se pareceu confuso, é porque é.

Após um belíssimo primeiro ato que acaba no instante em que a garota percebe estar morta (uma das melhores cenas, diga-se de passagem), Peter Jackson fica absurdamente confuso na condução do filme. Tentativas frustradas de mudança da atmosfera de quando em quando parecem tão falsas e artificiais quanto o dito “Paraíso”.Algumas cenas, na verdade, são risíveis como a tentativa de dar ares cômicos onde não existe comicidade alguma, para isso, o diretor lançou mão de personagens-aberrações sem qualquer profundidade, tal qual a avó de Susie (Susan Sarandon, por incrível que pareça, ela encarna esse papel ridículo). Tudo isso seria dispensável.

O que salva a obra de ser um fiasco e distingue esse dos demais filmes do gênero,é, que nesse aqui o enfoque não é destinado a captura do assassino, aos motivos que o levou a fazer isso ou a morte da menina propriamente dita, mas sim, em sua repercussão, nela mesma, em seus familiares e até no garoto pelo qual Susie sofre uma paixonite adolescente. Ainda que haja episódios nesse sentido do desenrolar da trama, nem por isso a obra deixa de ser exclusivamente voltada à história tocante de amores e infortúnios. De fato se analisarmos o filme tecnicamente, pouco se acresce, porém, o objetivo do filme é estritamente sentimental, vê-se que não pretende sair fora do coração. E nisso a estética poética exacerbada de Jackson é acertada.

As atuações são bem convincentes. Tucci está genial e só não levará a estatueta do Oscar porque Christoph Waltz está concorrendo. Saoirse está não menos que brilhante, com interpretações sólidas e eloqüentes em um papel que exigia muito. Mark Wahlberg está tolerável, e nada mais.

Por fim, é um filme que poderia ter sido mais, muito mais. E a impressão que fica no fim das contas, ao pensar no filme, são as cenas memoráveis do suposto paraíso criado. A artificialidade do paraíso de Jackson é tamanha que chega a parecer que foi retirada dos Wallpapers do Windows. Se esse é realmente o paraíso, eu me contento em ir pro inferno.

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