domingo, 28 de fevereiro de 2010

Longe Dela (2006)


Aos 29 anos, a canadense Sarah Polley (de “Minha vida sem Mim”) mostra ter um futuro promissor. Estréia na direção com um filme singular, com sentimentalismos até não poder mais. O filme, em si, já vale como certificado de que Sarah Polley tem tudo para ser uma grande diretora, visto que aborda um tema traiçoeiro, daqueles que tem tudo para dar errado, de forma ímpar. Muitos diretores inexperientes não conseguiriam conduzir um filme desse peso, outros, errariam a mão. Mas não é o que se vê neste aqui, “Longe dela” é longe disso.

A história é sobre a vida de Fiona (Julie Christie) e Grant (Gordon Pinsent) que são casados há 44 anos e cultivam o ápice do amor cego e apaixonado, suprem, mutuamente, a mais pura afeição em sua forma mais comovente. Eis que um dia, após um corriqueiro passeio na neve algo parece errado para Fiona. Seria talvez um sintoma de alguma doença degenerativa que estaria a afetando devido a idade já avançada. Ao procurar um especialista eles descobrem tratar-se de Mal de Alzheimer e, portanto, incurável.

Então, Fiona decide internar-se numa instituição própria para tratar, quer dizer, administrar esse tipo de doença, que como disse, é incurável. A causa dessa decisão, a qual não é partilhada pelo marido, é que Fiona julgava que se tornaria um fardo para Grant. Embora infeliz com a decisão, o marido aceita e a leva para o local. Porém, nesse local haviam regras, e uma deles em especial atormentaria Grant: Os novos membros só poderiam receber visitas depois de trinta dias. E assim foi feito. Quando retornou pra visitar a esposa, Grant surpreende-se ao ver que ela não o reconhece mais.

O tema “perda de memória” é figura recorrente no cinema. Mas é necessário um cuidado enorme para elaborar tal tema deixando de lado todos os clichês já vistos e revisitados por diversas vezes. À exemplo, mais recentemente, temos alguns que merecem ser citados, como “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”, “Amnésia”, e “Valsa com Bashmir”. Percebe-se que geralmente para um filme com esse tema é preciso um quê de originalidade para faze-lo funcionar, necessita-se fugir do lugar comum, e de comum o filme de Sarah não tem nada.

Não só merece destaque a direção de Sarah como também o roteiro, adaptado de um conto de Alice Munro. Conta ainda com uma grande atuação de Julie Christie (uma das melhores atuações de sua carreira), e boas atuações de outros personagens secundários, que são importantíssimos na trama. Mas o filme vai além. Excelente trilha sonora, boa fotografia que contrasta com a essência da obra. Enfim, são muitas as qualidades técnicas.

O filme começa , após os créditos iniciais, com uma curta cena de Grant dirigindo um carro com um endereço a mãos, a essa altura seria impossível perceber que este não se trata do presente, mas sim de um futuro bem mais a frente. Logo após essa cena, que dura aproximados treze segundos, o que se vê é uma espécie de vídeo caseiro, cujo conteúdo parece assimilar o espectador na atmosfera romântica que, até então, o filme propõe. Contudo, muito mais a frente, a mesma cena do vídeo caseiro é reapresentada, sem tirar nem por, mas dessa vez em um contexto muito diferente. E dessa vez a sensação que se sente é outra. E é dessa forma desconexa, cheia de reviravoltas, que o filme é arquitetado. Cenas do futuro, associadas com o passado se juntam para compor o presente. Todo o aparente sentimentalismo é confundido com a frieza e calculismo na forma como a obra é engendrada.

Antes de mais nada o filme é uma lição de vida. Associado à ideologia de Carpe Dien, ele prova por A mais B que no final das contas, não importa o que fizemos , mas sim o que deixamos de fazer. Pequenos prazeres que nunca tivemos, a dança que não dançamos, a viagem que foi adiada, as palavras que nunca foram ditas. E se, por ventura, o filme não foi aceito como esperado, o tempo encarrega-se e o futuro chamar-lhe-á obra-prima.

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