sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Estratégia da Aranha


Semi-discípulo de Pasolini, com que começou sua carreira trabalhando como assistente de direção, Bertolucci é um legítimo cineasta filho dos anos 60, radicado em uma época onde o cinema, sobretudo o europeu (e alguns raríssimos diretores americanos diretamente influenciados pelo estilo europeu de se fazer cinema), começava a questionar os padrões impostos pela indústria norte-americana pós-advento do som de linearidade e lógica narrativa. Um cinema que era feito sempre como um retrato da realidade, ou pelo menos o mais próximo possível disso, especialmente se tratando de espaço-tempo.

Já em A Estratégia da Aranha, Bertolucci alcança o ápice da subversão de tais conceitos, em um filme que exige uma dedicação enorme do espectador para que esse compreenda suas firulas e floreios, mas que no final, se mostra extremamente recompensador, uma legítima obra-prima. Se David Lynch pôde fazer Cidade dos Sonhos e, acima de tudo, Império dos Sonhos, isso certamente se deve aos valores desconstruídos por Bertolucci aqui. Uma teoria que eu tenho diz que todo ser humano deveria ser obrigado a assistir A Estratégia da Aranha antes de desenvolver um senso crítico ou uma paixão pelo cinema, pois tal filme poderia ajudar bastante na compreensão dos valores que caracterizam uma obra cinematográfica.

No enredo, que supostamente seria adaptado da obra do argentino Jorge Luis Borges, mas que mostra fortes influências dos trabalhos do artista plástico Giorgio de Chirico e do compositor Giuseppe Verdi, temos a história de Athos Magnani, que viaja até o pequeno vilarejo de Tara (referência direta à E o Vento Levou, aqui) para investigar as condições em que ocorrereu a morte de seu pai de mesmo nome, evento esse anterior ao seu nascimento, após ser chamado pela antiga amante de seu pai, Draifa, por quem ele logo se apaixona. Ao se apaixonar, sua vida, personalidade e figura começam a se fundir com a de seu pai, chegando a um ponto que se torna realmente difícil de discernir qual é qual.

Narrativa, espaço, tempo, ação. Tudo isso é reduzido a escombros sob a lógica doentia de Bertolucci, que insiste em deixar o espectador cada vez mais e mais perdido, até que quando nada mais parece fazer o menor sentido, as coisas voltam ao normal e tudo fica esclarecido. Mentira, nem tudo fica esclarecido, mas afinal, esse é o charme do filme. A Estratégia da Aranha é, sem dúvidas, a obra definitiva em matéria de questionamento de valores cinematográficos, coisa que Resnais, Antonioni e Lynch passaram boa parte de suas carreiras fazendo.

Bertolucci ainda encontra espaço para a construção de uma série de ideais políticos que combinam com o cinema que ele vinha construindo desde Antes da Revolução e que chegaria ao seu ápice em 1900. Ele faz do público um boneco nesse filme, boneco que ele manipula, controla, e movimenta para onde sua vontade quiser, com fortes toques de perversão e sadismo, que guarda ainda como a cereja do bolo um questionamento sobre a figura que a população em geral tem dos assim chamados "heróis".

Influenciado pela nouvelle vague de uma maneira evidente, termino essa resenha, se é que podemos chamar tal atrocidade literária de resenha, definindo Bertolucci segundo as palavras da crítica norte-americana Pauline Kael que dizia que "De todos os diretores influenciados por Godard, Bertolucci foi o único a expandir sua visão, ao invés de simplesmente copiá-la."

Durval Discos


Cada vez mais os filmes modernos dispensam uma introdução, partindo direto para a ação. Tal fato se verifica sobretudo no cinema independente, que possui o hábito de iniciar o filme jogando a história diretamente e esperando até que o espectador começe a compreender o que está acontece e finalmente embarque na história. Durval Discos não é esse tipo. Ele ainda utiliza a introdução, do mesmo jeito que seu protagonista ainda utilize o vinil, embora quase ninguém o faça em pelo final de século XX (1995, para ser mais exato).

A introdução nesse filme de Muylaert se desenvolve inteiramente a partir de uma steadycam, tal qual a introdução de O Jogador de Robert Altman, porém, ao invés de um estúdio de Hollywood, a câmera passeia por entre o comércio da Rua Teodoro Sampaio, no bairro de pinheiros, já antecipando o ar paulistano e a montagem de tomadas longas que se farão presentes no filme. Tudo embalado ao som de Mestre Jonas, do trio Sá, Rodrix e Guarabira (demonstrando o estilo musical que predominará no filme), música que narra a história de Jonas, que ficara preso no interior da baleia, sob uma perspectiva diferente da história normal onde ele anseia pela fuga. Na música, ele escolhe viver na baleia devido ao fato de seu interior lhe fornecer abrigo e segurança, tal qual Durval, que mesmo passando dos 30 anos ainda mora na casa da mãe, pois essa lhe fornece abrigo e segurança.

Durval é o retrato da geração que não cresceu. Os adolescentes tardios. Em tempos não tão distantes, completar 18 anos era sinônimo de abandonar a casa dos pais e ir tocar a própria vida. Hoje é cada vez mais normal ver pessoas de até seus 40 anos ainda morarem com a mãe. Tão normal isso, que muito provavelmente você que lê esse texto conhece alguém que se encontre nas condições supracitadas. Isso se mesmo você não for esse alguém.

Como já devem ter entendido, o filme narra a vida de Durval, dono de uma loja de LPs na Teodoro Sampaio de 1995. Para quem não sabe, Teodoro Sampaio é uma rua de São Paulo especializada em instrumentos musicais. Cansado de ver sua mãe (Etty Fraser em uma atuação excepcional) trabalhando até a exaustão, Durval (Ary França) propõe que eles contratem uma faxineira. Porém, sua condição financeira lhes permite pagar apenas cem reais para a tal faxineira. Após muito insistir com diversas candidatas que recusam tão ínfima quantia, uma jovem (Leticia Sabatella) aceita de imediato e começa a trabalhar na casa. Logo no segundo dia, ela sai e deixa em seu quarto uma jovem garota de seus cinco anos chamada Kiki. Logo, Dona Carmita (a mãe de Durval) vê em Kiki uma nova filha e se apega à menina, construindo dessa forma uma espécie de drama familiar.

Porém, tal qual um LP, Durval Discos tem seu lado A e seu lado B. Se o lado A é uma mistura entre comédia e drama familiar, o lado B é um complexo thriller com fortes doses de terror psicológico, mas que não vem ao caso entrar em detalhes aqui. A única observação que eu faço é sobre a forma com que os lados se invertem, com uma notícia narrada na televisão por Heródoto Barbeiro, o eterno apresentador do Roda Viva que hoje está sob o comando da muito inferior Marília Gabriela, durante o intervalo do Castelo Rá-Tim-Bum, logo entre o quadro daquelas mãos pintadas que ficam interpretando animais e o quadro da Lara e Lana, as duas fadas amarela e rosa que vivem dentro do lustre do castelo.

E é aí que mora boa parte da magia de Durval Discos. Enquanto estamos habituados à produções internacionais com referências à cultura pop deles, Durval Discos é um ode à cultura pop brasileira, seja pela musica típica dos anos 70 e 80, seja pelo caminhão de gás que passa na rua tocando a tão fatídica musiquinha que todos devem conhecer.

Interessante também ver a desolação psicológica dos personagens, castigados pelo passado que fica cada vez mais distante. Durval se sente ameaçado ao ver seu negócio e sua paixão ameaçados pela modernidade do CD. Dona Carmita sonha em ter a felicidade que tivera outrora, e acaba por ver naquela garota a possibilidade de reaver sua juventude e seu instinto materno, visto que ela aparenta ter consciência de que sua morte é cada vez mais iminente. Personagens desoladores em um ambiente completamente oposto.

Sete Kikitos consagraram esse filme como um sucesso de público e crítica, além de impulsionar a carreira da diretora Anna Muylaert que viria a fazer alguns anos depois o também aclamado É Proibido Fumar. Durval Discos pode perfeitamente ser colocado em meio á obras como Cidade de Deus, Lavoura Arcaica e Abril Despedaçado como um ícone do cinema brasileiro do século XXI, que conta com alguns filmes, tais quais os citados acima, que em absolutamente nada devem às melhores obras do cinema americano, europeu e asiático.

Pequena Miss Sunshine


Irrita-me profundamente que Pequena Miss Sunshine seja talvez um dos filmes mais idolatrados dos últimos tempos. O tom altissonante e a preocupação exacerbada em passar sua mensagem de auto-ajuda, além de por si só já ser patético, vale-se ainda do pior dos erros que um filme pode cometer: negar a si mesmo. Todo e qualquer filme carrega mensagens implícitas. Na União Soviética, com a revolução de 1917, praticamente toda a produção cultural passou a ser voltada para a panfletagem, tal qual também muito acontecera nos EUA na época da Guerra-Fria. Apesar de ambos os propósitos serem questionáveis, em termos artísticos, eram ao menos sinceros em suas pretensões. Em contraponto, como confiar em um filme que intenta ora a diversão, ora o moralismo, ora a auto-ajuda?

O filme parece tentar colocar-nos um sorriso no rosto, seja com comicidades baratas, seja com lições de incentivo: “Seja você mesmo”, “Não se importe com as aparências” e por aí vai. Isso em si não seria o grande problema, visto que até mesmo livros de auto-ajuda têm seus árduos admiradores, e, não se espantem, há quem os considere literatura, forma de arte. Todavia, é assombroso com que fervor sua escola pseudo-cool-indie é defendida, desde as roupagens; as técnicas bobas típicas desse tipo de filme; a afetação estética; até citações desmedidas de intelectuais, tais quais Nietzsche, Proust, sem, no entanto, expressar o menor conhecimento sobre o assunto. É nítido (ou nietzschedo – nesse caso) o imenso apelo em agradar os seus semelhantes, sua vontade de ser cultuado, de ser aceito. Apesar de pregar o oposto, o “parecer” atropela o “ser” nesse road movie enganador.

Não fume – diz o filme. Desculpe-me, Dear Sunshine, não consigo o entender com esse cigarro na boca.

Sem sair da fórmula independente, a narrativa trata de uma família e suas relações conturbadas. Composta por personagens excêntricos cuja influência de Wes Anderson beira um espelho. Já os diretores, que trabalhavam com propagandas televisivas, parecem não ver diferenças entre ambos, pois se mantiveram fiéis à sua concepção. Basta lembrar-se da cena do sorvete, que nada mais é do que um comercial estendido. Sem jamais perder a frase-lema: “Um real perdedor é quem tem tanto medo de não vencer, que acaba nem tentando”. Variações dessa frase, mais do que impregnadas no conceito de realização, são lançadas bruscamente em todos os instantes julgados como oportunos, ou seja, em todos os instantes mesmo.

Acaba sendo um filme que representa uma geração – longe de isso ser um elogio. A cena final é a tradução perfeita da nova era: pessoas dançando esquisitamente, sem saber o exato porquê, e ainda esperando aplausos (alguns aplaudem). Quando a vejo, sinto vergonha de estar vivo. Citaria uma frase de Nietzsche para terminar, mas me recuso a fazê-lo; ele teria vergonha de figurar ao lado de algo como esse Miss Sunshine. Infelizmente os seus adoradores não se dão conta disso. É como ver o abismo. O abismo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Todos os Outros


A viagem de Chris e Gitti para a Sardenha. Um casal de namorados passando as férias num ambiente tão romântico. Ambiente perfeito para uma crise amorosa. No início tudo aparenta estar bem, mas quando entra no jogo Hans, um amigo de Chris, acompanhado de sua namorada, as coisas começam a mudar. Um argumento pra lá de clichê, que por si só seria completamente previsível. Porém, a novata Maren Ade, que apresenta em seu currículo apenas um longa e um curta antes dessa obra, consegue inserir uma certa ambiguidade na trama, uma ambiguidade genial. Talvez, não haja ambiguidade nenhuma e eu é que apenas não tenha entendido o filme, mas deixe-me explicar melhor...

Algumas pessoas interpretam o filme como Chris sendo um amante frio, enquanto Gitti seria uma amante mais calorosa. Chris, por algum motivo, provavelmente uma crise existencial provocada por um possível questionamento de sua masculidade ou por adentar na meia-idade, se vê necessitado de demonstrar quem possui o poder naquele relacionamento. No início, Gitti se submeteria aos caprichos de seu namorado, mas conforme ela percebe que está perdendo sua personalidade, ela resolve se voltar contra Chris. Ok, li em vários lugares pessoas interpretando o filme dessa maneira. Embora ela faça bastante sentido, não foi assim que eu interpretei.

Na minha visão, o relacionamento de Chris e Gitti é considerávelmente estável até a entrada de Hans no jogo. Logo, Chris nota a felicidade de Hans, um antigo amigo (talvez nem tão amigo assim, visto que Chris demonstra em mais de um momento que a companhia de Hans não costumava apetecê-lo muito) e percebe que não é tão feliz com a sua namorada como ele. Dessa forma, Chris começa a se aproximar de Hans visando sugar um pouco de sua felicidade, ao mesmo tempo que se distancia de Gitti por perceber não amá-la. Gitti, em contra-partida, percebe que não é mais amada e começa a alimentar um certo desprezo por seu parceiro.

De qualquer forma, um tema recorre em ambas as interpretações: a auto-descoberta. De Chris, é claro, não de Gitti. Seja ela expressa na forma de reafirmar seus valores, seja na busca pela felicidade. Seja qualquer uma das interpretações, o que nós temos é um início com Gitti dominante e Chris dominado, e um final absolutamente invertido. Onde ocorreu essa inversão? Impossível determinar. Quando percebemos, já ocorreu. Mérito da diretora por conseguir embuti-la tão bem.

Contudo, o ritmo do filme pode ser considerado demasiadamente lento, chegando em certas partes a se tornar arrastado. Mas, ao término da exibição (contando que você aguente até lá), pode-se dizer que é sim um bom filme. Talvez não de valer o nono lugar entre os melhores do ano segundo a Film Comment, mas também, não consigo colocar muita fé numa lista que cita o ridículo Aquário na posição de número 40.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ajami


Ajami é um bairro de Jaffa que tal qual seu próprio nome induz (Ajami vem do árabe Ajamiyya que significa algo como "estrangeiro") é uma terra onde convivem cristãos, judeus e muçulmanos. Ajami faz parte da antiga cidade de Jaffa, cidade portuária israelense e uma das cidades mais antigas do mundo. Antiga cidade, pois em 1950 Jaffa foi incorporada à cidade de Tel Aviv, que passou a se chamar Tel Aviv-Yafo. Mas isso não chegou aos ouvidos de nós, seres ocidentalizados, que continuamos chamando a cidade apenas de Tel Aviv.

Ajami (o filme) é o perfeito retrato de Ajami (o bairro), a começar pelo enredo que narra eventos da vida de moradores da comunidade, passando pelos próprios "atores" que nada mais são do que moradores, que nunca haviam tido qualquer experiência com dramaturgia até o momento e terminando nos diretores, Scandar Copti e Yaron Shani, um palestino nascido e criado em Ajami e um judeu israelita, respectivamente.

Um excelente material na mão, podendo abrir para um complexo estudo sobre o relacionamento entre três grupos sociais tão distintos que são forçados a conviver juntos, mas que é trabalhado de uma maneira extremamente ridícula. As poucas referências lançadas à sociedade de Ajami ficam reduzidas mediante uma supervalorização da violência daquele bairro, como se o filme quisesse ser algum tipo de Cidade de Deus, mas feito por pessoas que não possuem o menor talento na direção se comparadas à Fernando Meirelles.

Exemplo da falta de montagem é a tentativa vergonhosa de realizar algum trabalho mais complexo na parte da montagem. Não contentes em dividir a obra em capítulos, com cada um abordando um problema dos personagens retratados (coisa que funcionou incrivelmente bem), os diretores resolveram também quebrar a linearidade da obra, misturando aleatoriamente os pedaços do filme com algumas sequencias totalmente lineares, deixando a obra absolutamente confusa, como um quebra-cabeça malfeito onde você parece estar montando uma obra de Kandinsky até colocar a última peça e se ver diante de um Rembrandt. Ajami é exatamente assim, apenas após a última peça que o filme faz sentido. E, para piorar ainda mais as coisas, um estilo documental interessante, mas que acaba por fazer a não-linearidade soar totalmente fora de contexto.

E como a cereja do bolo, temos o melodrama dos personagens que só fazem sofrer, seja por conta da mãe prester a morrer, do vizinho assassinado, do filho assassinado, do irmão assassinado ou de qualquer outra tragédia piegas que os acometa. Além de um personagem que aparentemente "prevê" as tragédias ao seu redor, mas que acaba, num lapso de bom senso, tendo um final à altura de sua mediocricidade. Ajami é, como dito anteriormente, um disperdício de material. Uma ótima possibilidade de trabalho jogada no lixo. Um gigantesco cartucho queimado por nada. Não me surpreende ter sido indicado ao Oscar em um ano que também agraciou o tão ruim quanto A Teta Assutada com tal honra. Prova de que cada vez menos, o Oscar pode ser considerado parâmetro de qualidade. Aliás, alguma vez pôde?

Depois do Casamento


Jacob é um dinamarquês que vive na Índia realizando projetos de cunho social há quinze anos. Com excessão de um ou dois, todos eles foram retumbantes fracassos. O fracasso dessa vez é um orfanato que ele cuida e no qual vive o jovem Pramod, um garoto indiano que Jacob cuida desde criança. Mas esse não é o filme de Susanne Bier. Afundado em dívidas, Jacob recebe uma doação significativa de dinheiro de um magnata sueco chamado Jørgen, porém uma de suas exigências é que ele vá até a Dinamarca. Agora sim começa o filme de Susanne Bier. Na Dinamarca, ele descobre que a doação ainda não é certa, e que na realidade ele concorre com outros quatro projetos sociais que estão na disputa pelo financiamento. Jørgen diz que apenas decidirá se o projeto de Jacob será agraciado ou não após o final de semana, e aproveita para convidar Jacob para o aniversário de sua filha, Anna, que ocorrerá no sábado. No casamento, Jacob encontra Helene, esposa de Jørgen, mãe de Anna e um antigo amor de Jacob. Quando no discurso da festa, Anna diz não ser filha biológica de Jørgen e que, na realidade, não conhece seu pai, Jacob percebe que na realidade aquela é a sua filha, de cuja existência ele nem sequer desconfiava.

Uma sinopse exageradamente longa para um filme exageradamente complexo, onde num curto período de tempo, a vida de todos os personagens é drasticamente alterada. Se logo de cara ele aparenta ser um mero melodrama de cunho concientizador, focando na pobreza extrema da Índia e mostrando como um homem sozinho pode mudar isso, tal como inúmeros filmes que pipocam por aí a torto e a direito, "transbordando moralismo" como diria eu mesmo, logo percebemos que ele não iria pecar tão diretamente assim, afinal, Depois do Casamento não é um filme a abordar aspectos sociais, mas sim a abordar aspectos comportamentais. Tudo através de seus complexos personagens.

Helene é uma mulher que sofreu demais na vida. Apaixonada por um homem que ela odiava e via se entregar ao alcoolismo e andar bêbado pelos cantos, resolveu terminar de vez a relação ao descobrir que estava sendo traída com a própria melhor amiga. Pouquíssimo tempo depois encontrou o bom Jørgen, com quem se casou e teve dois filhos gêmeos. Porém, quando ela havia se separado, ela estava grávida de Anna, que Jørgen criou como filha legítima, mesmo sabendo que não era o pai, até que essa completasse 18 anos. Ao ser questionada o porque de não haver contado antes que ele não era seu pai ou porque não havia mencionado o nome de Jacob, Helene responde apenas que prefiria acreditar que Jacob estava morto e que ele nunca existiu.

Se o encontro de Jacob com o seu passado parece uma coincidência grande demais para ser uma mera coincidência, desconfiança que surge não apenas no espectador mas também na própria Helene, logo fica claro que há uma figura por trás dessa viagem e tal figura é o próprio Jørgen. Com sua cara de "porco burguês" ou até mesmo de "aristocrata pervertido" que lembra muito a fisionomia de Jim Broadment, ele logo consegue mostrar sua verdadeira face, se revelando ser nada mais que um homem bom, que ama sua família acima de tudo e que trouxe Jacob para a dinamarca para que ele cuidasse de sua família, visto que descobrira estar profundamente doente e que lhe restava pouco tempo de vida.

Já Jacob não está à altura dos outros dois personagens. Com um passado vergonhoso de traição e alcoolismo, ele decide se redimir com obras sociais em benefício dos mais carentes. Redenção ou egoísmo? Seja qual for a resposta, é desprezível e deprimente.

Anna é um mero motor para o problema daqueles que estão na geração que a antecede.

Se a trama puxa constantemente para o lado melodramático, piegas e moralista, mérito da diretora dinamarquesa de conseguir manter o filme no rumo certo. Muito embora o filme comece a cair na repetição, como quando Jacob pede que Helene esclareça o fato de Jørgen estar morrendo e pede que ela lhe conte tudo. Fica a estranha impressão de que já ouvimos aquilo antes. Além, é claro, de Pramod, uma personagem totalmente inútil, cuja mera existência dá confere um tom melodramático quase que folhestinesco, que apenas é revertido com muito trabalho em cima das tramas primordiais.

Depois do Casamento tinha tudo para ser um desastre absoluto, mas não foi. E se é possível apontar um culpado para tal feito, esse culpado é Susanna Bier. Além de evitar uma pieguice exacerbada como já citado, ela ainda insere de uma maneira genial closes hiperdetalhistas de partes do corpo, tais quais olhos, boca e mãos em meio aos diálogos, ratificando sempre que aqueles não são meros personagens, mas seres vivos, que possuem uma existência física inquestionável numa dimensão paralela e cujo portal de ligação entre ambas essas dimensões (a paralela e a nossa) é o filme cujo título encabeça esse texto. E acima de tudo, mantém a qualidade da obra evitando ao máximo o didatismo. Um exemplo dessa positiva falta de didatismo é o relacionamento antigo entre Jacob e Helene, que demora bastante para ficar explícito, mas que cria diversos momentos onde pode ser simplesmente subentendido. E em cima disso tudo, a trilha sonora pontuada por algumas músicas da sensacional banda islandesa Sigur Rós.

Visto de um ponto racional, Depois do Casamento apresenta uma enorme série de defeitos que poderiam, não com certeza, comprometer sua qualidade. O fato de mesmo com esses defeitos ser um filme um tanto quanto apreciável mostra que se trata de um filme puramente emocional. Afinal, se o cinema devesse ser interpretado de uma forma racional e não emocional, não seria uma arte, mas sim uma ciência...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ação Entre Amigos


Logo na abertura, Beto Brant já deixa explícito o tema do filme, ao misturar o nome da equipe com documentos oficiais da época da ditadura. Ditadura. Um tema bastante aproveitado no cinema nacional, sobretudo na retomada após a longa interrupção que aconteceu durante os anos 90. Um ano após O Que É Isso, Companheiro? ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é difícil não estabelecer uma relação entre os dois filmes, muito embora tal relação se limite apenas à temática. Se usar temas batidos facilita na hora de construir sua visão, também atrapalha ao dificultar a originalidade. Original Ação Entre Amigos está longe de ser, mas dizer por conta disso que esse é um filme pouco eficiente seria um erro.

A história de quatro amigos que descobrem que o homem que os torturou 25 anos atrás ainda está vivo e saem em busca de fazer vingança com as próprias mãos é totalmente manjada, mas talvez a forma com que tal história evolui não seja. Embora cada um dos quatro tenha seu momento de destaque na tela, com certeza o que mais recebe destaque é Miguel, chegando ao ponto em que podemos afirmar que não se trata de quatro amigos, mas sim de Miguel e seus três amigos. A personagem de Miguel ainda pode servir de base para uma avaliação das interpretações, visto que em sua fase adulta, interpretado por Zé Carlos Machado, é a melhor das quatro boas atuações, enquanto que em sua fase jovem, interpretado por Rodrigo Brassoloto, é a mais insossa de quatro fracas atuações.

Ação Entre Amigos é rosto e alma do cinema de baixo orçamento brasileiro, feito com a boa e velha máxima Rocha-ana de "Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça". Montagem exagerada tentando compensar uma fotografia pífia e uma trilha sonora excessivamente eletrônica sobressaindo em momentos inconvenientes. Problemas presentes, mas que não atrapalham um bom roteiro. Bobagem ficar falando sobre aspecto técnico, atuações e tal. Na verdade, bobagem falar sobre qualquer coisa.

Embora esse texto se encaminhe para ser um texto incrivelmente curto, assim como o filme que ostenta meros 75 minutos de projeção, gostaria de fazer uma observação quanto à relação das personagens com seus passados. Todas elas, sem exceção, querem apenas esquecer o que já passou, seja tal esquecimento fingindo que o passado não aconteceu, fugindo para o interior e mudando de vida, esquecendo das atitudes que tomou ou exorcizando os demônios que o acompanham. Uma busca constante por redenção, sem ser melodramático. Mérito de Brant.

Gosto de Sangue

Uma sociedade degradada moralmente, personagens corruptos e violentos, traição, ângulos e enquadramentos incomuns, locações conhecidas, cenas noturnas, e a típica descrença completa, proveniente do Niilismo. Todos esses aspectos são algumas, das muitas características do gênero noir - derivado do francês, preto. Além de contemplarem essa tendência, tais características retratam o modo de fazer cinema dos Irmãos Coen, na maioria dos seus filmes. Joel e Ethan, atualmente reconhecidos como dois, dos melhores diretores contemporâneos, começaram no cinema, na década de 80. Enquanto Joel se formara na Universidade de Nova York, Ethan optara pela filosofia, na universidade de Princeton.

Em 1981, depois de se formar em Nova York, Joel conseguiu um cargo de assistente-editor, no filme "A Morte do Demônio" (Evil Dead, 1981), de Sam Raimi, onde iniciou a sua grandiosa carreira, no mundo da sétima arte. Três anos depois, os irmãos lançavam o seu primeiro filme, trabalhando juntos. "Gosto de Sangue", um belíssimo trabalho que acabou satisfazendo a corrente neo-noir, tendência que recicla as principais características do gênero citado no primeiro parágrafo, já mostrava as principais influências dos diretores, que marcariam suas futuras produções.

No Texas, uma mulher e seu amante mantêm um relacionamento amoroso. No entanto, o marido acaba descobrindo a traição, e resolve pagar um detetive, para matá-los. O crime acaba não saindo como planejado, e as portas ficam abertas para um desentendimento sem fim. Um tema muito recorrente, dentro desse gênero, é o triângulo amoroso. Essa temática abre um leque de possibilidades, para o desenvolvimento da narrativa. Certas produções optam por uma abordagem mais suave, enquanto outras, no caso de "Gosto de Sangue", caminham por um rumo oposto.

"Gosto de Sangue" funciona muito bem como um noir, além de ter bons traços dramáticos. O roteiro, também escrito pelos irmãos, é surpreendentemente eficiente. Logo no início, o espectador ouve um desabafo extremamente pessimista, criticando a postura do Homem. Basicamente, é o interesse que move os laços entre as pessoas, por isso, quando surge algum problema, é cada um por si. Os diálogos representam mais um atrativo de suas obras. Quando não carregam o humor negro, também presente em "Gosto de Sangue", costumam fazer críticas. Neste primeiro trabalho, os irmãos Coen fazem um estudo preciso sobre o que faz o Homem tomar certas atitudes estúpidas. O dinheiro? A insatisfação? O medo?

A direção, a respeito do desenvolvimento da trama, é extremamente competente, por situar o espectador em cada cena, fazendo-o entender todo o desentendimento, que acaba gerando uma série de perspectivas diferentes, por parte dos diversos personagens. A construção dessa teia é muito bem feita. Sobre o desfecho que, futuramente, se tornaria um dos momentos mais aguardados por parte do público, devido a criatividade dos diretores em solucionar, ou não, os problemas do filme, ressalto o diálogo irônico, seguido pela faixa musical. São poucos os profissionais que conseguem criar um efeito tão incrível, com tão pouco.

A violência gráfica do filme é mínima. Os Coen abrem mão de impressionar o espectador por esse aspecto, compensando no belo trabalho de câmera. Os diretores fazem uso, por vezes, de ângulos criativos, que realçam o poder da cena. A fotografia, comandada por Barry Sonnenfeld, que também trabalharia com Joel e Ethan, em "Arizona Nunca Mais" (Raising Arizona, 1987), e "Ajuste Final" (Miller's Crossing, 1990), antes do incrível Roger Deakins assumir o cargo, ganha destaque nas tomadas noturnas. Devido à grande influência da tendência supracitada, "Gosto de Sangue" tem seus melhores momentos, durante a noite, onde o suspense combina com a estética, aumentando o efeito das perseguições, e do sentimento de medo, e paranoia, dos próprios personagens.

"Gosto de Sangue" dá início à trajetória de dois grandes diretores, que adotaram um estilo extremamente singular. A tentativa de sempre driblar o convencional, buscando alternativas criativas, fez com que os mesmos ganhassem respeito, no mundo da sétima arte. Um trabalho preciso, surpreendente, e, acima de tudo, puramente cinéfilo. Uma tendência resgatada pelos próprios amantes.

100 grandes insultos em filmes

Quem se nós nunca xingou alguém em momentos de raiva, ou de sarcasmo? Nos filmes inúmeros personagens já o fizeram, muitas vezes em cenas brilhantes da história do cinema, como em Melhor é impossível, Laranja Mecânica, Scarface e Nascido para matar. Também existem atores que são destaques nessa questão, sempre com ótimos xingamentos, como Jack Nicholson e Al Pacino. Confira aqui um vídeo com 100 grandes insultos do cinema:


A História do Mundo - Parte I


Comédia é um dos gêneros mais complicados de ser feito. Como se fazer rir já não fosse difícil o bastante, ainda é necessário inserir algum conteúdo para que nao fique de todo fútil. Esse conteúdo vem normalmente por meio da crítica/sátira. Chaplin critica a sociedade capitalista, Monty Python critica a sociedade americana, até mesmo Rowan Atkinson critica o coletivismo e o moralismo. Mas certamente, a mais interessante de todas essas críticas é a de Mel Brooks, que utiliza seus filmes para satirizar os próprios filmes, e consequentemente, carregar seus filmes de uma deliciosa metalinguagem. E por dominar completamente tal recurso de linguagem e conseguir extrair um humor delicioso dele, Brooks merece respeito.

Depois de satirizar os filmes de terror em O Jovem Frankenstein, faroestes em Banzé no Oeste e até o cinema mudo em A Última Loucura de Mel Brooks, agora a atenção do cineasta recai sobre os épicos históricos. Um panorama dos mais diversos momentos da história do homem é o que se traçaria. Traçaria, visto que ser fiel aos acontecimentos não é nem nunca foi a intenção de Brooks. Dividido em segmentos, A História do Mundo - Parte I é exatamente isso, a primeira parte da história do mundo, mas claro, contada da perpectiva insana de Mel Brooks.

O primeiro segmento se intitula "A Aurora do Homem" e é uma perfeita referência a obra-máxima de Stanley Kubrick 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Enquanto no filme de Kubrick, um grupo de símios descobre a arma, no filme de Brooks eles descobrem um outro elemento, talvez ainda mais importante para o ser humano. Ou melhor, para o homem. Uma curiosidade é que 2001 é aclamado por muitos (inclusive eu mesmo nesse muitos) como o melhor filme de todos os tempos, mas o roteiro de Kubrick em parceria com o autor de ficção científica Arthur C. Clarke não foi agraciado com o Oscar, tendo esse ido parar nas mãos do roteirista de Primavera Para Hitler, um tal de Mel Brooks...

O segundo segmento é "A Idade da Pedra", que evoca o curioso fato de que tal filme fora lançado no mesmo ano de A Guerra do Fogo, obra-prima de Jean-Jacques Annaud e considerado a melhor abordagem cinematográfica já feita desse período histórico. A descoberta do fogo, do matrimônio, da arte e da comédia vem sob a narração marcante de um dos maiores nomes da história do cinema, do teatro e do rádio, ninguém menos que o próprio Orson Welles. Um fato a se destacar.

O terceiro segmento e o mais breve de todos faz uma singela sátira a Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille no ponto que se foca no momento em que supostamente Moisés teria recebido os dez mandamentos diretamente de deus. Ou seriam quinze os mandamentos? Já no quarto e mais longo segmento, somos levados diretamente para o auge do Império Romano, onde seguimos os passos do "filófoso stand-up" Comicus enquanto esse se encontra com um César obeso e alcóolatra, sua esposa devassa e diversas outras figuras bizarras até terminar encontrando Jesus na sua última ceia, logo antes de receber a visita de Leonardo da Vinci que pintará o retrato dos apóstolos à mesa.

O quinto segmento é um musical digno de vaudeville que conta, mais ou menos, sobre uma festa com ares carnavalescos feita pela igreja para a diversão do clero. Um espetáculo de música, dança e alegria, bem aos moldes de Primavera Para Hitler no filme homônimo, com direito até a bailarinas aquáticas em uma referência aos balés de Busby Berkeley. Estamos falando, é claro, da Inquisição Espanhola. Por último, a Revolução Francesa, pelos olhos da monarquia, retratando acima de tudo o evento da fuga do aqui chamado Rei Luis da França, e sua substituição por um sósia, visando assim ludibriar os revolucionários. Nesse segmento acabou por surgir uma das populares frases já escritas por Mel Brooks, copiada e reverenciada em dezenas de outras obras: "It's good to be the king".

Para terminar, nada melhor do que algumas cenas de A História do Mundo - Parte II. Aqui acabamos por ver o balé no gelo de Adolf Hitler, um funeral Viking e, é claro, a conquista espacial judia, com suas naves em forma de Estrela de Davi, já prevendo o próximo filme de Brooks, Spaceballs, que viria a satirizar o cinema espacial, principalmente Guerra nas Estrelas.

Um humor delicioso, mas um tanto mal visto por alguns menos avisados que podem interpretar como sendo vazio e próximo do típico besteirol norte-americano, é o ingrediente-chave de um filme subestimado de um diretor também subestimado. Triste.

E agora, só nos cabe esperar a parte II desse filme que, bem ao estilo Brooks de se fazer humor, jamais virá.

A Doce Vida


Retrato de uma geração, que em nada se assemelha com a de George Lucas em Loucuras de Verão ou com a de Danny Boyle em Trainspotting. Nessa geração, os jovens tem seus 40 anos, mas só agora gozam de sua adolescência, visto que a verdadeira foi destruída junto com Roma durante a Segunda Guerra Mundial. Primeio Roma é reconstruída, depois, a vida daqueles cuja adolescência fora perdida é reconstruída. E é disso que que A Doce Vida se trata. Adolescentes de 40 anos, cujo status social e respeito nas rodas intelectuais passam uma falsa maturidade, que não condiz com aquilo que vemos em suas vidas sociais, permeadas do típico vazio que costumamos atribuir à juventude, caracterizando-a com um ar de desprezo.

E Marcello (Mastroianni?) é o símbolo disso. Com seus óculos escuros e terno impecável, tornou-se o símbolo cool de uma geração, não aquela da qual ele faz parte, mas uma nova, que vinha por aí, influenciada pelo período de enorme influência do cinema, hoje clássico, na cultura pop. Se nos anos difíceis Marcello era um escritor renomado e respeitado, agora com a situação amena, ele não passa de um mero colunista social de um jornal de nível duvidoso, sendo seu trabalho basicamente se encontrar com as ditas celebridades e fofocar sobre elas. Quase sempre acompanhado de seu amigo e fotógrafo Paparazzo.

Na realidade, Marcello nada mais é que um adolescente, que vaga pelas noites em busca de um pouco de bebida e diversão, que despreza uma mulher para logo em seguida se apaixonar por ela, inconsequente, impulsivo e acima de tudo, imaturo. O símbolo perfeito de uma camada social, que poderíamos talvez caracterizar como sendo a "pseudo-intelectualidade de Roma". Uma camada que necessita de brilho e destaque para sobreviver e dar sequência ao seu vazio. Um nicho de parasitas, onde Marcello ocupa o cargo de parasita-mor, sugando a vida daqueles que o rodeiam para se alimentar e sobreviver.

Como se apenas os parasitas não fossem o suficiente, temos ainda as moscas, seres repugnantes, assimilados sempre a ambientes pútridos. Aqui, as moscas são os tais fotógrafos, simbolizados em sua totalidade pela figura de Paparazzo. Eles são criaturas desprovidas de moral e de vida própria, onde o único sentido de sua existência é orbitar os ditos "famosos" em busca de uma fotografia absolutamente fútil. Impossível não assimilar de imediato a cena em que dezenas de fotógrafos se acotovelam em busca da melhor imagem da atriz que acabara de descer do avião com a imagem de um monte de moscas rodeando um punhado de merda de cachorro que apodrece ao sol.

Sua abertura, com um helicóptero pairando sobre, primeiro Roma antiga, depois Roma moderna, carregando uma estátua de Cristo de braços abertos que é levada ao Vaticano, seguido de um segundo helicóptero, carregando Marcello acabou sendo interpretada (errôneamente) pela igreja como sendo o anúncio da segunda vinda de Cristo, sendo esse o próprio Marcello. Na realidade, o que Fellini propõe aqui é uma ligação entre a moral religiosa, extremamente forte na Itália, com a imoralidade dos nossos (anti) heróis, figuras vaidosas, luxuriosas e, acima de tudo, fúteis.

Embora futilidade não seja um "pecado capital" (embora deveria ser), logo se assimila tais pecados com a estrutura do filme, dividida em sete partes, com prólogo, intervalo e epílogo, que relatam a convivência de Marcello com as mais diversas pessoas e situações. Listá-los aqui seria inútil, basta dizer que eles se ligam não somente aos sete pecados, mas também às sete virtudes, os sete sacramentos, os sete dias de criação... Sete dias que é exatamente o período pelo qual o filme se desenrola.

Se Lucas conseguiu captar a nostalgia e diversão de uma geração e inseri-la em seu filme e Boyle conseguiu captar a pós-psicodelia de uma geração e inseri-la em seu filme de uma forma lisérgica, Fellini consegue captar também o vazio de uma geração e inseri-lo em seu filme, porém, tal resultado acaba não sendo tão agradável quanto o dos dois primeiros casos, e logo A Doce Vida se torna nada mais que um exercício de inocuidade, onde suas três horas de duração passam como se fosse cinco. Ou seis.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

2046 - Os Segredos do Amor


Afinal, o que é 2046? Um ano? Um lugar? O Paraíso? Um quarto de hotel? Um trem? Uma cidade? Um livro? Uma esperança? Uma memória? Um passado? Uma recordação? O fim da autonomia de Hong Kong? A possibilidade de reaver os melhores momentos vividos? O encontro de um grande amor? Ou seria apenas um número?

2046 é a terceira parte da pseudo-trilogia de Wong Kar-Wai, que começou em 1991 com Dias de Loucuras, passou pela obra-prima Amor à Flor da Pele de 2000 e se encerra aqui, no ano de 2004, onde o liganção entre os filmes ocorre pelo simples fato de se ambientarem em um mesmo universo e compartilhar entre si personagens e eventos, não sendo necessário ter assistido às obras anteriores para uma melhor comprrensão do que se vê.

2046 é a evolução de Amor à Flor da Pele, no ponto em que todos os elementos que caracterizam o tom onírico daquele filme (trilha sonora melancólica e repetitiva, fotografia de cores fortes e contrastes marcantes, montagem se utilizando da câmera lenta para reforçar a sentimentalidade do momento), porém, pode ser considerado um retrocesso se avaliado a partir do roteiro, que vêm com uma ousadia um tanto quanto diferente, mas que atrapalha no desenvolvimento do caráter psicológico das personagens, ficando muito abaixo do amor resignado que permeia a obra anterior.

2046 é o não-linear posto em ordem cronológica, a partir de uma história que pode ser dividida em quatro partes perfeitamente distintas, que são divididas, cada uma delas, em pedaços menores, embaralhados e lançados à tela, com um toque de edição que as faz transcorrer tal qual o tempo (ou uma linha de trem), seguindo sempre em frente, sem nunca retornar (exceto quando é distorcido pela saudade).

2046 é Chow Mo-Wan (Tony Leung Chiu Wai) tentando se esquecer de Su Li-Zhen (Maggie Cheung), sendo que para isso acaba por conhecer ou reencontrar diversas outras mulheres e até mesmo uma outra Su Li-Zhen (Gong Li).

2046 é o livro que Chow Mo-Wan escreve, sobre um lugar chamado 2046 onde apenas se chega por meio de um trem que viaja através do espaço e do tempo e para o qual as pessoas vão para relembrar de seu passado, visto quem em 2046 nada nunca muda, muito embora elas não saibam com certeza se isso é verdade, pois ninguém jamais retornou de lá.

2046 é a grande metáfora da vida, onde tudo que lá é dito, pode ser interpretado como uma àlusão à vida aqui fora, como por exemplo quando o trem passa entre os pontos 1224 e 1225, cujo frio intenso ali presente obriga os passageiros a se abraçarem para manter o calor (sendo numeros esses, coordenadas para datas do ano), podendo extender essa interpretação para o ponto de se afirmar que 2046 é uma metáfora de 2046.

2046 não é o melhor filme de Wong Kar-Wai, posto esse ocupado possivelmente por Amores Expressos, Felizes Juntos, ou até mesmo pelo próprio Amor à Flor da Pele, mas isso não impede que ele seja o mais empolgante de seus filmes.

A Lenda dos Guardiões

É impossível não hesitar, sabendo que Zack Snyder dirigiu uma animação voltada para o público infantil. Depois do aclamado "Madrugada dos Mortos", remake de um dos grandes filmes do George Romero, e seu primeiro longa-metragem na direção, o americano partiu para uma temática mais épica, com o sanguinário "300". Três anos depois, o diretor conquistou boa parte do público, com a adaptação dos quadrinhos de "Watchmen", para daí então, chegar em "A Lenda dos Guardiões", uma animação baseada na série de livros "Guardians of Ga'Hoole", escrita por Kathryn Lasky. Visualmente, o produto é impressionante. Sem dúvida alguma, uma das animações mais belas que já fizeram, mas, infelizmente, a estória não se destacou da mesma forma, caindo no clichê.

Zack Snyder estreia no gênero, entregando um enredo que ilustra a vida de Soren, uma coruja que sonha acordada, quando ouve seu pai contar sobre as estórias de guerra dos Guardiões de Ga'Hoole, um grupo de corujas justiceiras que enfrentaram diversos inimigos, no passado, salvando toda a raça das ameaças malignas. Kludd, irmão de Soren, sempre disse que isso nunca existiu, e que não passava de uma mera lenda. No entanto, essa frieza de Kludd acaba provocando um acidente entre os dois, fazendo com que ambos sejam raptados pelos Puros, raça que pretende dominar toda a espécie. Resta saber agora se os irmãos vão conseguir se salvar, ou se vão aceitar as ordens desses inimigos.

O CGI é fantástico. Até mesmo os mais velhos sentiram a criança dentro de cada um, vibrar com a euforia descontrolada. Se funcionou com os mais velhos, fico imaginando a reação das crianças. Desde o começo, a animação trabalha com o protagonista de boa parte dos sonhos infantis; o herói. Soren representa a criança que não fica com os pés no chão, e prefere viver no mundo dos sonhos, mesmo quando não está dormindo. Toda essa atmosfera poderia ter agradado mais o espectador, independentemente da idade, caso não houvesse toda essa oscilação de caráter. Por vezes, o filme é mais infantil e não tem ambição de sair do convencional, ficando apenas no clichê que agrada as crianças, o do bem versus mau. Por outro lado, o terceito ato tem poucos diálogos, e as lutas acabam sendo o foco principal, esbanjando toda a qualidade dos efeitos especiais, mas não encantando tanto as crianças. Nessa divergência de representações, "A Lenda dos Guardiões" acaba pecando.

O típico humor que é primordial nessas produções, mas que dificilmente vemos nas cenas dessa animação acaba sendo um dos grandes problemas. E justamente por isso, o espectador pode ficar incomodado com a seriedade do roteiro, levando em conta o clima fantasioso que abrange a produção. Ainda assim, Zack Snyder exerce uma boa direção, mesmo com alguns problemas. O americano transfere, com perfeição, a riqueza de detalhes do argumento original, para as telas do cinema. Deslumbrante em cada take. Das cenas tempestuosas, ao movimento das penas ao encontro da brisa. Um trabalho que enche os olhos de qualquer espectador.

Mudança drástica na filmografia do diretor Zack Snyder, indiscutivelmente. Tenho certeza que boa parte dos espectadores vão ficar aguardando novas produções no mesmo estilo. Todos esperamos que o visual continue fascinando qualquer pessoa que sente na cadeira do cinema, e, principalmente, que o convencional seja driblado. Para quem nunca tratou as crianças como público-alvo, podemos dizer que o americano foi um bom marinheiro de primeira viagem. Fez o básico, e conseguiu agradar a maioria.

Amor à Flor da Pele


Hong Kong, 1962. Na porção britânica da China, mudam-se no mesmo dia para apartamentos vizinhos o editor de jornal Chow Mo-Wan (Tony Leung Chiu Wai), acompanhado de sua esposa, e a beça Su Li-Zhen (Maggie Cheung), acompanhada de seu marido. Com seus cônjuges constantemente ausentes, Mo-Wan e Li-Zhen não tardam em se conhecer e iniciar uma bela amizade, sobretudo devido aos gostos semelhantes. Mas isso muda quando eles descobrem que seus parceiros estão tendo um caso entre si. Incomodados com a dúvida de se deveriam eles seguir o exemplo ou não, inicia-se aí um trabalho sobre a moral de seus personagens, mas sem nunca sequer chegar perto de ser moralista.

Trabalhando sem roteiro escrito, apenas com o que tem em mente, Wong Kar-Wai constrói o drama de seus personagens de uma maneira absolutamente calma. Talvez isso se deva em boa parte à essa exata falta de roteiro, que impossibilita que o filme possa ser revisado e, digamos assim, acelerado, antes de já estar na sala de montagem. O que, na maioria dos casos, seria evitado para que não acabesse por afastar o grande público da obra, aqui é explorado ao máximo, visto que bilheteria não é objetivo de Kar-Wai. Tal calma acaba criando a possibilidade de que a relação entre os traídos se desenvolva tal qual ocorreria num relacionamento, digamos assim, real.

A fotografia, fruto da parceria entre Christopher Doyle e Pin Bing Lee, composta de cores bem marcadas, fortes jogos de luz e sombra e uma série de contrastes bem definidos, fecha uma parceria com a montagem de câmeras lentas e sequências compostas por dezenas de fragmentos de cena de curta duração, que se constrastam com os longos diálogos e silêncios compondo o clima da obra, que realça o relacionamento resignado dos dois não-amantes. Mas o mais interessante na parte técnica é certamente a trilha sonora. Misturando canções chinesas da década de 40 mas que têm um forte aspecto europeu com canções latinas interpretadas por Nat King Cole, que repetidas exaustivamente, ampliam ainda mais o clima supracitado.

Kar Wai monta em Amor à Flor da Pele um filme tão belo quanto simples, do qual é muito difícil de encontrar palavras que o descrevam com perfeição, portanto, nem vou me esticar mais. Qualquer coisa a mais que eu viesse a dizer seria simplesmente para alongar um texto que julgo curto e seria totalmente desprovido de conteúdo ou relação com o filme. Como desacredito em tal uso da linguagem, prefiro por encerrar essa análise, ou melhor, resenha, por aqui.

Creepshow

As adaptações de histórias em quadrinhos tornam-se, cada vez mais, a prioridade de certas produtoras, devido ao grande público que foi conquistado, com o passar dos anos. Diferentemente de boa parte das adaptações contemporâneas, que costumam se limitar aos super-heróis, "Creepshow", dirigido pelo cultuado diretor George A. Romero, realizador de obras marcantes, como: A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968), e Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), aborda contos bizarros, que se restringem ao gênero terror, numa viagem deliciosa, que homenageia as HQ's, de mesmo nome, que eram publicadas na década de 80. Com roteiro de Stephen King, baseado em contos que o mesmo escrevera, "Creepshow" reforça o subgênero terror-tales.

Depois da rápida introdução, onde o pai proíbe o filho de ler histórias em quadrinhos, no caso, a própria Creepshow, o filme de Romero decola por entre 5 contos inusitados. O primeiro, Father's Day, nos mostra um encontro entre membros de uma família, no Dia dos Pais. O patriarca foi assassinado por uma de suas filhas, que está indo até essa reunião familiar, onde encontraria sua irmã, e alguns sobrinhos. No entanto, dessa vez, a data ficaria marcada por uma macabra aparição. No segundo conto, The Lonesome Death of Jordy Verrill, encontramos um fazendeiro idiota - interpretado pelo próprio Stephen King - que avistou um meteoro caindo perto de sua casa. No terceiro conto, Something to Tide You Over, vemos um marido insano - interpretado por Leslie Nielsen - que quer se vingar de sua ex-esposa, e do amante da mesma. No quarto conto, The Crate, um zelador encontra uma misteriosa caixa, embaixo da escada, e resolve falar com um dos professores da faculdade, sobre o conteúdo. No quinto e último conto, They're Creeping Up On You, presenciamos um milionário ignorante, com problemas de insetos, em seu luxuoso apartamento.

Uma estória mais bizarra do que a outra, e Romero, juntamente com King, faz questão de deixar isso bem claro, desde o início. Declaradamente, o filme tem a intenção de fugir de qualquer aspecto que o tornasse verossímil, por isso, além das temáticas fictícias, temos os personagens insanos, que contribuem para esse feito. Por ser Romero, muitos dizem que "Creepshow" não passa de um fracasso em sua carreira, entretanto, sua intenção é de extravasar o convencional, trazendo estórias que englobam os mais diversos personagens responsáveis pelo terror, no universo do gênero. Zumbis, monstros, seres de outro planeta, insetos, e claro, o próprio Homem.

Um quesito que ainda é considerado por muitos, como um dos mais importantes da obra, é a maquiagem. Realizada por Tom Savini, um dos profissionais mais talentosos, dentro da área, a maquiagem concede ao filme, um grande diferencial. Na frente das câmeras, esse trabalho aprimorou a atmosfera sinistra do filme, por trazer, de forma íntegra, os detalhes da própria revista em quadrinhos. Agora, por trás das câmeras, acabou trazendo um grande reconhecimento, não apenas ao filme, por ser um dos poucos que trabalhara tão bem o quesito, mas, também, obviamente, ao Savini, que ainda recebe diversas intitulações, como: o melhor maquiador do gênero.

Desde o começo, prometendo ser um exemplar bem divertido, "Creepshow" faz todas as referências possíveis, às revistas que serviram de formato, ao filme. Desde a mudança dos contos, onde vemos as imagens das HQ's, transformadas em cenas, até a cenografia fiel. Por se basear nas estórias de Stephen King, "Creepshow" declara o tom descompromissado, abrindo mão de um produto tecnicamente impecável, e optando por funcionar como um filme de terror, com seus traços cômicos, que pretende divertir os amantes do gênero, e, obviamente, das revistas. Um Romero menor, mas, mesmo assim, muito agradável.

domingo, 26 de dezembro de 2010

The Runaways - Garotas do Rock


Ídolos adolescentes. Um dia eles foram Beatles e Rolling Stones. Hoje eles são Justin Bieber e Lady Gaga. Mas isso não vem ao caso. Falo isso pois é sobre ídolos adolescentes que a ex-diretora de videoclipes Fiora Sigismondi monta toda essa homenagem à uma banda, que sem a menor sombra de dúvidas foi um ídolo de sua adolescência. Ídolos do passado no enredo, ídolos do presente no elenco, afinal, a escolha de colocar Kristen Stewart como uma das protagonistas em meio à febre infanto-juvenil que é a tal saga de vampiros não é uma mera coincidência, é apenas um argumento para fazer com que uma nova geração conheça aqueles que seus pais possivelmente amaram, mas que hoje amargam um completo ostracismo.

A visão que Sigismondi tem da banda que retrata é semelhante em vários aspectos à de Cameron Crowe em seu Quase Famosos, apresentando a mesma superficialidade e o vazio sexual daquele, porém, em doses mais fortes. Drogas se limitam a baseados e carreiras, sendo seringas coisas inexistentes. Nudez então, impensável. Talvez, isso se deva ao fato de que uma classificação indicativa mais elevada acabaria afastando os jovens da sala de cinema, fazendo com que a arrecadação nas bilheterias se tornasse um estrondoso fracasso. O dinheiro se sobrepondo à visão artística. Corriqueiro nos dias atuais.

A banda The Runaways pode ser considerada um marco na história do rock'n'roll apenas pelo fato de ser o primeiro grupo totalmente feminino a fazer sucesso em um universo extremamente machista e fechado, muito embora tenha durado apenas quatro anos. E nesses quatro anos, mostrados aqui nessa cinebiografia, temos a clássica trajetoria de sonhos, testes, apresentações, sucesso, prestígio, drogas, brigas, declínio e ostracismo que tanta vezes já não vimos, repetidas até a exaustão, seja na ficção, seja na vida real. Numa terra onde até a banda é um estereótipo, nada mais normal que personagens totalmente estereotipados.

Garotas rebeldes, produtores loucos, mães relapsas, pais alcóolatras e qualquer outra idéia pré-modelada que você possa ter, a diretora também teve. Diretora essa que realiza o filme tal qual um dos seus videoclipes. Câmera instável, closes em detalhes ínfimos compõem uma obra essencialmente auditiva. Deliciosamente auditiva, diga-se de passagem. David Bowie, Susie Quatro e Sex Pistols, que de tão maravilhosos, acabam fazendo The Runaways parecer uma banda de garagem, sobretudo devido à vergonhosa canção "Cherry Bomb" com uma das letras mais horríveis já cometidas por um ser humano, dito "racional".

Nesse cenário desolador, nossa única alegria fica a cargo das atuações. Dakota Fanning largando aquele imagem de garotinha que nós temos desde A Menina e o Porquinho para mostrar que cresceu (e muito bem), Michael Shannon defendendo a indicação que teve ao Oscar por Foi Apenas um Sonho em mais uma exelente atuação e, acima de tudo, Kristen Stewart, uma atriz que particularmente me agrada, não sendo merecedora das críticas que recebe. Embora eu não tenha acompanhado suas atuações na saga vampiresca, posso dizer com base em suas atuações em Quarto do Pânico de David Fincher, Na Natureza Selvagem de Sean Penn e agora nesse The Runaways que é uma atriz de bastante futuro. Isso, é claro, se ela conseguir se livrar do papel de Bella Swan. Torço que consiga.

1900


A primeira metade do século XX foi certamente um dos períodos mais conturbados e agitados da história da humanidade (se não o mais). Com o ser humano munido munido de um brinquedo totalmente novo, adquirido com a revolução industrial, não iria demorar muito para que começasse a se questionar a funcionalidade de tal brinquedo. Tal questionamento se resultaria em coisas como duas Guerras Mundiais, uma crise global, a revolução russa (que conferia realidade ao socialismo, antes meramente teórico) e o nazifascismo. Eventos esses que ocasionariam numa mudança tão grande no mundo em um período tão curto de tempo como jamais fora visto anteriormente.

Em 1900, o que Bertolucci faz é transportar toda essa gama de eventos para um microcosmo, representado por uma pequena comunidade do interior da Itália, onde camponeses trabalham na terra dos patrões em troca de um salário. Um ambiente onde os patrões são a burguesia capitalista, os camponenses são o proletáriado socialista e, conforme chegamos no momento histórico devido, surge a repressão fascista. Como dito, tudo em seu devido momento, tal qual ocorrera com a Itália.

Mas, para que tal metáfora flua, um enredo se faz necessário. Bertolucci para tal se vale da história de dois netos, nascidos no mesmo dia. O primeiro, neto do patrão (Burt Lancaster). O segundo, mas primeiro a nascer, neto do melhor funcionário e melhor amigo do patrão (Sterling Hayden). Logo os dois, Alfredo Berlinghieri (Robert De Niro) e Olmo D'Alco (Gérard Depardieu) respectivamente, se tornam melhores amigos, mesmo com o abismo social que há entre eles.

Porém, os anos passam, e Alfredo e Olmo crescem. Ambos permanecem o perfeito retrato de como eram na infância. Alfredo uma criança crescida, que brinca com seu amigo como se a diferença social entre eles inexistisse. Exceto quando lhe convém, aí ele não hesita em lembrar de sua posição aristocrática. Mimado e irresonsável como se esperaria de alguém que cresceu sob tais condições. Já Olmo tem e sempre teve perfeita consciência de sua posição socialmente inferior, e talvez por isso seja muito mais maduro e politicamente ativo que o amigo, mas isso não evita que ele dê um imenso valor ao sentimento que há entre os dois.

Aqui vale uma observação. "1900 ou Novecento?" você pode se perguntar, visto que o título do filme aparece com as duas grafias, dependendo do lugar. A verdade é que, originalmente, Bertolucci concebeu o filme (que deveria ser uma minissérie em seis capítulos para a televisão italiana, mas que devido à altíssima qualidade técnica que vinha tendo, foi decidido que seria mais inteligente lançar como um filme) com o título de Novecento, que significa algo como "século XX" e marcaria o fato de toda a ação se passar nesse período. Porém, na distribuição americana, acreditaram que seria mais simples "traduzir" o título como simplesmente 1900, embora a ação nunca se passe em tal ano, começando-se em 1901 com o nascimento dos dois amigos. Todavia, costuma-se utilizar (leia-se eu utilizo) "1900" para a linguagem escrita e "Novecento" para a linguagem falada.

A maior das características do diretor é a ousadia. Se ele já havia ousado o bastante em O Último Tango em Paris, aqui nesse 1900 tal peculiaridade alcança um novo patamar. Brilhante como sempre, onde cada quadro é milimetricamente pensado e executado na perfeita forma para captar o máximo possível do ambiente. Um uso de câmera perfeito, tal qual pouquíssimos diretores conseguem fazer.

Cinco horas de filme. Muitos cineastas mundo afora jamais teriam culhões de fazer um filme de tçao longa duração. Prova da ousadia de Bertolucci. Mas praticamente nenhum outro cineasta conseguiria segurar uma obra de tão longa duração de um modo tão impecável como o feito aqui. Prova da genialidade de Bertolucci. Nos seus mais de 300 minutos, pode-se dizer que não há absolutamente nenhum deles que seja dispensável ou maçante. Enquanto alguns filmes causam enfado mesmo com meros 90 minutos de duração, cabe a eles apenas apresentar tal épico italiano.

Chocar a burguesia. Outro aspecto da ousadia Bertolucci-ana. Um gato com o pescoço quebrado, rãs sendo empaladas vivas, um porco sendo executado e extirpado, um gato sendo morto a cabeçadas, corpos carbonizados expostos em praça pública, uma mulher empalada pelas grades de um portão, um garoto tendo sua cabeça espatifada contra a parede, nudez frontal masculina, nudez frontal feminina. O mundo como ele é, sem falsos pudores, sem falso moralismo. Os espectadores mais sensíveis podem vir a se chocar com tais cenas. Em casos mais extremos, podem alegar que é desnecessário colocar isso no filme. Desnecessário? Negar isso é quase como negar sua ocorrência. Fechar os olhos para fazer de conta que o problema não está lá. Uma atitude infelizmente, até comum, mas não para esse diretor, afinal, se ele o fizesse, estaria apenas sendo mais um cineasta entre os milhares que existe por aí.

Contudo, nem tudo são flores. Se em algum momento o roteiro peca, isso se dá na personagem de Donald Sutherland. Atilla Mellanchini é um homem frio, cruel, unidimensional, superficial, demasiadamente caricato e cuja existência confere à obra um maniqueísmo completamente dispensável. Impossível não vê-lo como um "vilão", e tal artifício não é bom para filme nenhum. Um erro, que embora seja único, é demasiado grande para passar despercebido ou para ser ignorado.

Todos os personagens são desestruturados emocionamente. Agressivos, obcecados com uma ideologia, psicóticos, depressivos... Ninguém aqui pode ser considerado mentalmente são, mas, afinal, alguém pode? Bertolucci existencialista, isso é o que há.

Alguns chegaram a acusar o filme de ser uma obra fascista. Fascista? O filme transborda socialismo por todos os lados, com discursos dignos de fazer inveja a folhetos de propaganda política, chegando ao ápice de um momento no qual a personagem de Depardieu faz seu discurso pró-socialismo dirigido aos demais camponeses olhando diretamente para a câmera. Praticamente uma panfletagem. Porém, esse socialismo todo pe mostrado com uma visão um tanto quanto moderada. Quando ele finalmente é alcançado (e isso é óbvio que iria ocorrer, visto que se trata de um filme fiel à história de seu país, e não de uma réles obra ficcional), estamos em uma praça totalmente deserta, exceto por um jovem a chorar e dois amigos a brigar. Desolação completa ratificando o caráter políticamente moderado do filme.

Por último, uma ressalva para a parte técnica, onde se sobressaem a trilha sonora magnífica de Ennio Morricone, que pontua boa parte do filme com diversos estilos diferentes, variando desde a música tradicional italiana até o clássico, a fotografia de Vittorio Storaro, que marca as passagens do filme com tonalidades que remetem às estações do ano, e claro, a direção sempre majestosa do mestre Bernardo Bertolucci. Dois gênios comandados pela batuta de um ainda maior.

Crítica: Cisne Negro


Dirigido por Darren Aronofsky (Réquiem para um sonho, O Lutador), Cisne Negro é um drama psicológico dos melhores, com intrigas, competição e obsessão. Ambientado no mundo do Balé, mais precisamente na obra “O Lago dos cisnes” do compositor russo Tchaikovsky.

A principal bailarina da companhia, Beth Maclntyre (Winona Ryder), que tinha o papel de rainha dos cisnes (sonho das bailarinas) não estará presente na nova temporada do Lago dos cisnes, e a companhia precisa de uma nova estrela. Para ser rainha dos cisnes é necessário subir ao palco como cisne branco, com doçura e inocência, e também como cisne negro, com ousadia e sensualidade. Nina (Natalie Portman) é perfeita e imbatível como cisne branco, sempre muito disciplinada nas aulas, mas não consegue ser sensual o bastante para ser o cisne negro. A melhor como cisne negro é Lilly (Mila Kunis), e as duas tornam-se as favoritas a se tornar rainha dos cisnes.

A escolha de quem será a nova rainha dos cisnes cabe ao diretor artístico da companhia, Thomas Leroy (Vicent Cassel). Ele acaba escolhendo Nina, acreditando que ela será capaz de aprender a interpretar o cisne negro. Daí pra frente Nina passa a ter dois grandes problemas: Se dedicar ao máximo nas aulas e em todos os momentos de sua vida para se tornar sensual e ousada como requer o papel de cisne negro, e lidar com as ambições de Lilly que ainda deseja o papel. Além disso, Nina tem uma relação difícil com a sua mãe, que vai dificultar ainda mais sua caminhada.

Para aprender a ser ousada no palco, Nina precisa aprender a ser ousada na Vida. Deixar de ser a menina boazinha que sempre foi e libertar seu lado mau. Com isso o filme tem cenas extremamente sensuais, como por exemplo, uma cena quente entre Natalie Portman e Mila Kunis.

Até onde alguém pode chegar tentando buscar a perfeição todos os dias, com pressão de todos os lados? Seria Nina mentalmente forte o bastante para passar por cima de todas as dificuldades e se tornar rainha dos cisnes? Obsessão, inveja, sonhos, interesses, sensualidade, loucura e final surpreendente. Tudo isso e muito mais nesse filme maravilhoso.

Vale observar que as cenas de balé foram tão bem conduzidas e incluídas corretamente no filme que não se tornaram cansativas, mesmo pra quem não aprecia balé. Alias, a beleza dessas cenas são um atrativo a mais para o filme.

O diretor Darren Aronofsky, que a pesar da carreira ainda curta já fez trabalhos brilhantes, foi perfeito nesse filme. O expectador é totalmente envolvido psicologicamente. Aronofsky certamente será indicado ao Oscar. A parte técnica é impecável. Um excelente figurino, belíssima fotografia, maquiagem e direção de arte, montagem que envolve quem assiste (mais 5 indicações ao Oscar, e provavelmente deve levar figurino e fotografia) e uma impecável trilha sonora (confesso que uma das que mais gostei até hoje). É uma pena que essa trilha não possa concorrer ao Oscar por conter trechos de obras clássicas, e assim não sendo totalmente original.

Já falei de 6 prováveis indicações ao Oscar. Adicione ai às indicações mais que merecidas a melhor filme, roteiro, e atriz coadjuvante para Mila Kunis, com sua personagem extremamente sensual. E chegamos agora à décima indicação ao Oscar, a mais merecida de todas: Melhor Atriz. Natalie Portman que já teve uma brilhante atuação em “Closer – Perto de mais” (em que carregou o filme sozinha), dessa vez se superou. Natalie teve a interpretação da sua vida, indo de doce e inocente a obcecada e sexy em menos de duas horas de filme. Juntou interpretação dramática, passos de balé, atuação psicótica e foi perfeita. (Ela realmente foi perfeita, ao assistir o filme você vai entender). Com isso Natalie deve dar o terceiro Oscar para cisne negro, das prováveis dez indicações. (Espero que não venha à academia com suas besteiras e jogue minhas previsões por água abaixo).

Enfim caro leitor, Cisne negro merece ser visto. Certamente um dos melhores filmes dos últimos anos. A estréia nos cinemas brasileiros é no dia 4 de fevereiro de 2011, mas já está disponível atualmente nos melhores sites de Downloads. Confira.